Por Ayako Arquitetura, Helena Meireles Arquitetura, Larissa Monteiro, messina | rivas e Zebulun Arquitetura
BRASIL – Projeto executivo
Mercado da Praça
Fotográfia: Federico Cairoli
Cobertura Multiuso
Fotográfia: Federico Cairoli
projeto básico
Mercado da Praça – Parque Realengo (texto fornecido pelo autor)
A Praça do Mercado integra o conjunto de arquiteturas do Parque Realengo, ainda em construção. O parque é objeto de questionamento de longa data de diversos movimentos sociais que debatem a periferia, áreas verdes e racismo ambiental. À semelhança de diversos processos de construção na cidade do Rio de Janeiro, sua dinâmica também envolve desapropriações e processos de realocação. A Praça do Mercado nasce de uma condição preexistente. Antes de seu desenho, moradores do entorno do parque ocupavam a esquina com pequenas construções de caráter comercial. O projeto de arquitetura proposto previu a realocação integral dessas construções, porém a dinâmica complexa de um processo de licitação e execução de uma obra pública fez com que se realizasse apenas parte da proposta.
O projeto é constituído por duas construções lineares e horizontais, com diferentes alturas, que se cruzam e conformam, por um lado, uma grande cobertura de entrada e, por outro, uma galeria de lojas. Antes, as lojas que constituíam a ocupação preenchiam o contorno da esquina, deixando apenas uma calçada estreita e uma via para carros em sua frente. Agora, elas se abrem para um espaço de praça que se comunica com o hall de entrada da comunidade do Ideal e o ponto de mototáxi. Implantados em formato de L, compõem uma grande praça pública que convida os moradores a vivenciarem o espaço, utilizando-o de formas diversas.
Fotográfia: Federico Cairoli
O caráter formal que diferencia as duas construções também se traduz em caráter programático. A cobertura linear tem a função principal de proporcionar sombra e marcar uma espécie de pórtico, que funciona como uma das entradas do parque. Por ser um grande vão de pouco direcionamento programático, esse espaço pode ser lido como indeterminado, abrindo possibilidade para ocupação com programas diversos e efêmeros. A segunda lâmina, em contraponto, é construída com uma escala mais próxima do corpo. Nela foram abrigadas 11 lojas que servem para realocar as lojas pré-existentes. O comércio local, além de ser de suma importância para a dinâmica de existência de diversos moradores, aqui também impulsiona a utilização desse espaço público e, mais ainda, com um programa que já existia antes de seu reordenamento. Abaixo da lâmina maior, há ainda um banheiro público que dá suporte tanto às lojas quanto ao uso do espaço. E, por fim, organizando todos esses programas, uma praça pública foi desenhada para fora dos limites do parque, possibilitando o uso e apropriação do espaço em tempo integral.
Fotografia: Federico Cairoli
A estrutura da cobertura de acesso segue um sistema construtivo com perfis metálicos de 3 metros de comprimento, que, quando articulados, formam duas treliças de 66 metros de comprimento e 3 metros de altura. Essas treliças são conectadas por perfis metálicos de 9 metros de comprimento, conformando assim uma caixa estrutural. Essa altura e esse sistema de vigamentos são justificados pela melhor eficiência estrutural, garantindo o vencimento de vãos maiores com menos apoio, além de possibilitar o uso de perfis mais esbeltos. Nas extremidades, essa caixa estrutural está apoiada em pilares de concreto de seção quadrada e rotacionados, a fim de incentivar a continuidade do fluxo. Já a galeria de lojas é construída por paredes de blocos de concreto estruturais que sustentam uma laje de steel frame.
Fotográfia: Federico Cairoli
Pode-se considerar que a inauguração antecipada do Mercado Externo teve o intuito de responder às reivindicações contra um processo de remoção que ocorreria das lojas existentes, processo esse que conta com a participação da equipe de projeto para proporcionar, dentro do desenho, áreas passíveis de realocação. E, para além disso, é prioritariamente um processo de acompanhamento e advocacy territorial, mobilizado pela Agenda Realengo 2030, dirigido por Roberta Freire.
Pensar a construção de um equipamento público é também pensar sobre a queda de uma postura da produção arquitetônica como necessariamente um êxito. Mesmo que a construção deste parque vá ao encontro da vontade dos movimentos sociais, é preciso entender o processo de implementação de arquiteturas urbanas como um processo social que vai além do desenho. Para isso, entendemos que há a necessidade de considerar as dinâmicas de construção da cidade coletivamente, não como ocupações póstumas à entrega do produto construído em espaços indeterminados, mas como constitutivas e partícipes do processo de projeto. A Praça do Mercado torna-se desta forma um importante objeto para pensar esse debate.
Fotografia: Federico Cairoli
Cobertura Multiuso – Parque Realengo (texto fornecido pelos autores)
A premissa dos projetos de arquitetura para o Parque do Realengo é de que eles sejam, antes de mais nada, equipamentos públicos oportunos para as pessoas que habitam o bairro. E, para esse propósito, procuram alcançar três fatores fundamentais que uma obra pública exige, a saber: uma consistência conceitual significativa, uma responsabilidade técnica e sustentável eficiente e uma identidade marcante.
A construção do mercado interno tem o intuito de valorizar a alta densidade e verticalidade arbórea do parque. Para isso, ele conforma uma clareira e possui uma presença horizontal que valoriza, por constraste, as ações do paisagismo. Assim, asseguramos uma maior intimidade para as arquiteturas e possibilitamos, caso necessário, um bom controle de acessos. Além disso, possui uma planta livre coberta e um pátio central que possibilita uma grande versatilidade de usos que pode sofrer adaptações com o decorrer do tempo.



Fotográfia: Federico Cairoli
A construção está disposta de forma quadrada com 30 metros de lado, sendo que um espaço de 6 metros de largura em cada lado é coberto, o que possibilita um pátio interno de 18 metros de lado. É um edifício térreo e, devido à inclinação de uma água do telhado, os pés direitos variam de 3 até 6 metros de altura.
O mercado interno pode abrigar os programas mais diversos, ele também funciona como um espaço multiuso. O conceito de sua construção é versátil e, portanto, abaixo da cobertura é possível ocupar com programas efêmeros. Já no pátio, o uso é imprevísivel, e se pode imaginar muitas atividades como de prática de yoga, ensaio de bateria, aulas de dança, parquinho e muitos outros.

Fotográfia: Federico Cairoli
A estrutura segue um sistema construtivo com perfis metálicos de 3 metros de comprimento que quando articulados conformam 4 treliças de 30×30 metros de comprimento e 3 metros de altura. Essa altura e esse sistema de vigamentos se justificam pela melhor eficiência estrutural, o que garante o vencimento de vãos maiores com menos apoio, além de possibilitar o uso de perfis mais esbeltos.
Apoiados por 8 pilares metálicos que são reforçados por concreto, essas treliças suportam um telhado de chapa metálica de inclinação interna. A inclinação de 50% é justificada por possibilitar maior vazão de água e folhas e, portanto, garantir uma melhor manutenção.
Croqui e detalhamento: Cobertura
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Helena Meirelles Arquitetura, Juliana Ayako, Larissa Monteiro, messina | rivas e Zebulun Arquitetura
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?
H.M.A. – O projeto para as arquiteturas do Parque Realengo representa uma expansão importante no contexto da prática do escritório, tendo sido o primeiro projeto público de maior escala a ser efetivamente construído, além de ter sido concebido em parceria com outros escritórios e práticas de projeto. A experiência desse processo não só enriquece a prática do escritório, mas também abre novas perspectivas para possíveis futuros projetos que dialoguem com espaços públicos e interesses sociais.
J.A. – O projeto das arquiteturas do Parque Realengo foi a primeira oportunidade de desenhar e construir um projeto de equipamento público. Pela quantidade de pessoas envolvidas no processo, pelo tempo disponível – definido por prazos políticos – e pela incerteza se participaríamos do projeto executivo e da etapa de execução, a abordagem projetual exigiu uma definição de implantação e construção dos elementos com certa margem de adaptação. Entendemos isso muito rápido. Em outros projetos, a relação com o terreno acaba sendo uma diretriz mais rígida, que amarra o projeto ao chão. Por outro lado, no que poderíamos chamar de “Coberturas do Parque Realengo”, a relação se dá mais através da sombra. E a sombra tem movimento…
L.M. – Em minhas pesquisas atuais e áreas de atuação, temas como “comuns”, periferia, estética de periferia são recorrentes. Depois que me formei, decidi não regressar instantaneamente para a academia e me envolver na prática ativista, porque após muitos anos estudando movimentos pendulares, entendi que não era um artigo ou um plano viário que mudaria relações da cidade, mas ações locais. Me engajei na criação da Agenda Realengo e em um projeto de produção de
exposições em contextos de periferia. Esses trabalhos carregam conceitos importantes de vivência em espaços urbanos subalternizados. Acredito que o parque foi uma forma de materializar tudo isso que estava na mesa no momento.
M.R. – A gente tem desenvolvido projetos em escalas maiores que ainda estão em processo. E o curioso é que a sensação que dá é que o nível de responsabilidade não muda. Muito disso acontece porque no fundo a escala é uma abstração, ou seja, um recurso criado, justamente, para poder dominar a mensura das coisas e poder responder com projeto. Com isso, em certo
sentido, somos um tanto pragmáticos, ou seja, a gente analisa as condições de um projeto, quais as relações envolvidas, os atores participantes, os recurso materiais e projetuais disponíveis, e nos perguntamos com quais procedimentos de projeto, com quais ações e decisões vamos responder, imaginando os possíveis efeitos sem abrir mão dos possíveis imprevistos. E, isso tudo, meio que independe da escala.
Z.A. – Acredito que os projetos acabam sendo parte de uma mesma pesquisa contínua, com derivações e especificidades. Mesmo nos trabalhos que são feitos em colaboração como este.
Algumas coisas que, pelo menos até agora, sinto que persistem, são a busca por pensar arquitetura a partir da estrutura, com materiais leves e em repetição, o diálogo com a paisagem e uma atenção a como a estrutura chega até o chão. Depois os usos podem se conformar com um pouco mais de liberdade.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?
L.M. – O projeto surgiu por meio de um edital público de licitação, no modelo menor preço. A licitação foi ganhada pelo escritório Economimesis Soluções Ecológicas Ltda, escritório que já mantinha parceria em projetos prévios com os escritórios Ayako + Zebulun. A partir disso surgiu o convite aos escritórios de arquitetura. Como o projeto era de grande escala e em um curtíssimo período de tempo, o escritório escolheu convidar uma equipe grande para atuar
em parceria.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Vocês destacariam algum momento significativo do processo?
L.M. – Pode-se dizer que o projeto teve dois momentos bastantes distintos. Um primeiro momento ocorreu em reuniões onde todas as equipes estavam reunidas. Essas reuniões (duas ou três) tiveram o intuito de articular um grande norteador do projeto de implantação geral do parque: características de cada área, implantação das arquiteturas, leituras de fluxos existentes e possíveis futuros, etc. Em um segundo momento, entendendo a demanda de entrega muito rápida do projeto, os escritórios de arquitetura e paisagismo se dividiram e cada um trabalhou separadamente em cima das premissas estabelecidas previamente. Com relação aos escritórios de arquitetura, o processo inicial mais amplo se deu por muitas conversas em cima de croquis conceituais após as visitas. Essas trocas deram base importante para guiar os desenhos mais aproximados, que foram também delimitados por diretrizes materiais fortes, que diziam respeito à necessidade de construção rápida, de baixo custo – e principalmente simples, uma vez que a participação no projeto executivo e no acompanhamento de obra não era garantida.
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores?
L.M. – É importante pontuar que a equipe de arquitetura não participou do projeto executivo. O projeto mais detalhado enviado à prefeitura foi o que a contratante denominou de “projeto básico”. Essa informação é importante porque disparou na equipe de arquitetura uma necessidade de criar uma estratégia de ação diante da situação colocada. Diante disso, é possível observar que o projeto é o mais estrutural possível. Poucos elementos podem ser retirados do projeto sem que
ele perca sua utilidade. Dessa forma, o próprio partido do projeto é a resolução de como ele se resolve estruturalmente. Durante as conversas com os engenheiros, os ajustes foram mínimos, focados muito mais em entender qual era o vão máximo suportado e pequenos ajustes de onde – dentro daquela modulação prevista – seria melhor posicionar os pilares;
MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Se sim, quais os momentos decisivos dessa participação?
L.M. – Não participamos.
MDC -Vocês destacariam algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
A.P. – Acreditamos que o maior mérito destes projetos seja a forma que eles abrem liberdade para apropriações. A parte mais curiosa, talvez, seja o “COMO” isso acontece. No Mercado da
Praça, estávamos diante de uma situação flagrante de futuras remoções. Atuamos então propondo que sob a cobertura existissem lojas para realocar os comerciantes que já tinham
construído suas lojas no local. Com isso, o projeto que se apoia no chão, sob a cobertura, tem
um caráter formal bastante rígido, cartesiano, minimalista. E a parte aberta da cobertura serve
hoje para atividades como churrasco, jogar bola e outras mais livres. Em contrapartida, se a gente olha pra Cobertura Multiuso, o escopo do programa era basicamente uma sombra para futuras feiras que ocorreriam no parque, por isso durante a concepção a gente chamava esse projeto de “mercado interno”. Após a inauguração, a prefeitura liberou o espaço para o aluguel de lojas de alimentação, tornando aquele lugar o que a gente pode chamar de “praça de alimentação”. Mas as lojas que se colocaram ali tinham outro caráter totalmente diferente do que a gente proporia: são bem mais figurativas, engraçadas e coloridas. E acho que isso fala muito sobre a prática da indeterminação. Um mundo de possibilidades se abre diante disso.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?
L.M. – Acredito que não.
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?
L.M. – O professor da FAU USP, Rodrigo Queiroz, fez um comentário recente sobre o projeto do mercado da praça e acho que podemos partir um pouco dele pra pensar sobre. Ele dizia algo assim:
“O partido visual da arquitetura contemporânea. A multiplicidade de linguagens, seja formal ou material, da arquitetura contemporânea é um dado e isso é inegável. Contudo, ouso dizer que é possível verificar um mesmo partido identificável em vários projetos com recorrência cada vez maior. Se o pressuposto do pilotis, pelo menos por aqui, postulou que o pesado fica em cima e o leve, embaixo, hoje vemos uma inversão desse paradigma: o pesado está embaixo e o leve, em cima. Essa relação se dá pela combinação de um low-tech artesanal agarrado à terra crua como se dela fizesse parte e um high-tech delgado, como uma fina sombra que sobrevoa e protege essa materialidade argilosa que lembra torrões de marimbondo. Quem elabora, resolve essa equação e desdobra em diversos projetos é Francis Kéré. O partido de Kéré se transformou em um modelo, em uma espécie de tipologia arquitetônica que se presta como uma bem acabada e sedutora resposta para os temas atuais como meio ambiente, economia energética, novas centralidades em contextos urbanos periféricos etc. O bombardeio das imagens nas redes e nos portais de arquitetura tornou o partido arquitetônico tão efêmero, fugidio e descartável como qualquer outro estímulo visual da sociedade de consumo. Precisamos nos reinventar em saltos cada vez mais curtos.”
Aqui eu acho que a única coisa que discordo seria a associação direta deste partido com a chamada “cultura de profusão de imagens”. Esse chamado partido visual, que estaria se aliando a temas como meio ambiente, economia energética e contextos periféricos, tem muito a gerar nesses ambientes para além da imagem que carrega. A sombra, conceito primordial para esse projeto e para esse tipo de ação projetual em todos casos citados, posso ousar dizer, é um mecanismo que torna possível características importantíssimas nesses contextos, como a
congregação de pessoas, a apropriação espacial, a possibilidade de mudança do caráter de ocupação e da própria atuação da arquitetura. Pensar projetos em contextos de vulnerabilidade é também pensar uma agência no espaço mais humana, mais próxima, mais coletiva. E acreditamos que o projeto permite isso.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
L.M. – Não.
ficha técnica
Local: Realengo – Rio de Janeiro, RJ
Ano de projeto: 2021
Ano de construção: 2023-2024
Arquitetura: Ayako Arquitetura, Helena Meirelles Arquitetura, Larissa Monteiro, messina | rivas e Zebulun Arquitetura
Coordenação de Projetos: Ecominesis Soluções Ecológicas LTDS
Gerenciamento: Ricardo Kawamoto
Urbanismo e Paisagismo: Ecomimesis Soluções Ecológicas LTDA
Estruturas: Kleber Ribeiro (Praça do Mercado) e Ricardo Kawamoto (Cobertura Multiuso)
Saneamento: Ana Kling
Iluminação: Carlos Florido
Geométrico, Pavimentação e Terraplanagem: Leandro Vaz e Jorge Luiza da Silva
Instalações Prediais: Paulo Roberto Silva
Projeto Executivo e Execução: Cone Engenharia e Ecominesis Soluções Ecológicas LTDA
Fotos: Federico Cairoli
Contato: info@larissamonteiro.com
Organização: Fundação Parques e Jardins
galeria Mercado da Praça















galeria Cobertura Multiuso









colaboração editorial
deseja citar esse post?
MONTEIRO, Larissa. et al. “Arquiteturas do Parque Realengo”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., mar-2026. Disponível em https://mdc.arq.br/2026/03/23/mercado-da-praca-parque-realengo/ . Acesso em: [incluir data do acesso].

Edital 11/2024-PROBIC/FAPEMIG

Edital PRPq 10/2024













































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































