Museu do Pão

Por Brasil Arquitetura
BRASIL – Intervir no Construído
7–10 minutos

projeto executivo


PROJETO EXECUTIVO
COMPLETO

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Museu do Pão – Moinho Colognese (texto fornecido pelos autores)

Devemos encarar a cultura como algo que vai da tradição à invenção. Temos de preservar o que de melhor criamos e construímos em história, sob pena de nos aprisionarmos num presente desfigurador. E precisamos apostar no novo, porque ele é ingrediente fundamental de afirmação e de transformação de nossas comunidades e do conjunto da sociedade. Essa dialética permanente entre tradição e invenção, somada a nossa abertura crítica para assimilar e recriar linguagens e informações produzidas em outros cantos do planeta, é um traço central da cultura brasileira.

Dentro dessa ótica os imigrantes italianos construíram o moinho de Ilópolis. Foi também dentro dessa mesma ótica que restauramos o Moinho Colognese e criamos o Museu do Pão, conjunto que compreende o museu, a oficina de panificação e o próprio moinho.

Croqui: Acervo Brasil Arquitetura

No final do século 19 e início do 20, o Brasil recebeu uma grande quantidade de imigrantes vindos dos mais diversos países, como Alemanha, Japão, Itália, Líbano, Ucrânia e Polônia. Tratava-se de uma tentativa do governo brasileiro de branquear um país predominantemente negro, recém-saído de séculos de escravidão, recebendo trabalhadores estrangeiros que fugiam da fome e da pobreza em suas terras de origem.

Da Itália, bastante empobrecida, vieram principalmente habitantes da região do Vêneto, que se fixaram, em sua maioria, em São Paulo e no Sul do país. Como novos colonizadores, esses imigrantes desbravaram as terras que receberam do governo e que ficavam em regiões serranas de difícil acesso, uma vez que as terras mais planas e férteis já estavam nas mãos dos alemães, que haviam chegado antes.

Era, novamente, a conquista da América; o sonho de uma nova vida, uma nova era. E do encontro de italianos e brasileiros nasceu uma cultura miscigenada, com traços originais e singulares.

Croqui: Acervo Brasil Arquitetura

Um dos testemunhos mais fortes dessa época e dessa epopeia são as construções dos moinhos coloniais que ainda hoje encontramos na região da Serra Gaúcha. Esses artefatos, destinados à fixação das comunidades em torno da produção de farinha, são frutos do conhecimento e da engenhosidade trazida pelo imigrante e do encontro, na região, de novos materiais – basicamente a madeira da araucária, o pinho brasileiro. Os remanescentes desses moinhos, encontrados aqui e ali na exuberante paisagem da serra, são belos e insubstituíveis documentos da nobre junção da técnica com a estética.

Fotografias: Nelson Kon

Mas apesar de sua importância histórica, esses moinhos estavam fadados a desaparecer em virtude do abandono e do esquecimento típicos de nossos dias. Em 2003, num grupo de amigos, foi lançada a ideia da criação de uma rota turístico-cultural – o Caminho dos Moinhos – e iniciada uma campanha de coleta de fundos para a recuperação de um primeiro exemplar, o Moinho Colognese, construído no início do século passado em Ilópolis – pequena cidade encravada no alto do Vale do Taquari.

Fotografias: Nelson Kon

Para não cair num projeto nostálgico, decidimos agregar a esse moinho – que deveria ser restaurado para voltar a funcionar e produzir farinha de milho para polenta – o Museu do Pão e a Oficina de Panificação. Novas necessidades, usos contemporâneos. E assim nasceu o projeto arquitetônico do conjunto.

Planta, Cortes e Elevações

Com uma linguagem arquitetônica contemporânea e bastante brasileira, dois novos blocos em concreto e vidro dialogam com o velho moinho de madeira. Cem anos os separam no tempo, mas uma ideia forte os une, e é justamente a da celebração da madeira. Tudo ali é araucária: o moinho e seus mecanismos, as novas varandas e os passadiços que lembram as casas dos imigrantes, os painéis corrediços brise-soleil, os capitéis dos pilares a lembrar das fantásticas estruturas internas dos moinhos e até o concreto armado, marcado – como em fotografias – pelas formas de tábuas.

Fotografias: Nelson Kon

Com o tempo, todos esses elementos se aproximaram em aparência pelo tom acinzentado do envelhecimento da madeira: mimese à distância e verdade dos materiais quando vistos de perto.

Nesse pequeno conjunto, tudo é museu e museografia, incluindo aí a arquitetura, o jardim, os objetos e seus significados. A peça principal desse museu é o próprio moinho; no jardim uma coleção de pedras mó – granito e basalto de várias cores e durezas, destinadas a diferentes tipos de moagem de milho e trigo; no entorno, um pequeno canal de água alimentado por uma nascente embaixo do moinho delimita o terreno do museu; é uma referência e uma homenagem a Carlo Scarpa, grande arquiteto, também do Vêneto, que tantas lições nos deixou no diálogo da arquitetura contemporânea com a antiga.

Fotografias: Nelson Kon

Acreditamos que nessa obra a arquitetura cumpre seu nobre papel de renovação cultural,
protagonizando o reencontro da comunidade local com sua história, agora em novas bases
de sonhos e utopia: arquitetura de raízes e antenas.

Fotografias: Nelson Kon


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Francisco Fanucci (F.F.)

MDC – Como você contextualiza essa obra no conjunto de toda a sua produção?

F.F. – Foi uma das experiências do que chamamos de ação arquitetônica: não havia cliente, não havia projeto. Fizemos o projeto e o oferecemos a um potencial cliente. Deu certo.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?

F.F. – Contratação direta pela empresa NESTLÉ do Brasil.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Você destacaria algum momento significativo do processo?

F.F. – Uma visita a um moinho desativado e abandonado construído por imigrantes italianos no início do século XX, na pequena cidade de Ilópolis, na Serra Gaúcha. Uma construção/máquina inteiramente de madeira – Araucaria angustifolia – um dos poucos exemplares restantes na região. A decisão de construir os moinhos foi tomada ao mesmo tempo da decisão de ficar no Brasil – a idéia da volta foi abandonada. Era preciso salvar esses moinhos do abandono. Assim se iniciou a fase de concepção do projeto.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, podem comentar as mais importantes?

F.F. – A “salvação” do moinho só foi possível com sua reinserção ativa na vida da cidade. A ideia do Museu do Pão – o moinho com o duplo papel de ser a obra principal e também o próprio museu vivo – e os pequenos edifícios que o ladeiam – um de paredes de vidro para se poder ver a construção de madeira e abrigar o acervo doado pelos outrora italianos, outro de concreto com janelas e luz zenital para abrigar uma escola de confeitaria e culinária que utiliza os produtos do próprio moinho – são capazes de viabilizar esse processo de “salvação” do moinho Colognese.

MDC – Os autores do projeto tiveram participação no processo de construção/implementação da obra?

F.F. – Os autores do projeto e o fotógrafo que fez as primeiras fotos do museu fizeram o acabamento final e limpeza da obra. Foi definida uma data para sua inauguração, com a presença do presidente da Nestlé e da governadora do estado, à época.

Achamos um vôo muito barato às vésperas dessa data e resolvemos voar – todos do escritório mais o fotógrafo Nelson Kon – para lá e participar da festa. A governadora adiou a inauguração oficial.
Mas nós não: Inauguramos o museu pra nós e para os trabalhadores que ainda estavam lá. Foi uma bela festa.

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?

F.F. – A frequente visitação, por parte de turistas e estudantes de arquitetura do Brasil e até da Argentina.

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?

F.F. – Não sei. Só sei que cada projeto é uma história…

MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?

F.F. – Um resgate de um edifício historicamente significativo, abandonado e quase em ruínas.

MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?

F.F. – Salientar que é possível alargar o programa, fazer o “reprograma”, como dizia Louis Kahn.


ficha técnica

Local: Ilópolis, Rio Grande do Sul – Brasil
Ano de projeto: 2005
Ano de conclusão da obra: 2007
Área: 530 m²
Arquitetura: Brasil Arquitetura | Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz, Anselmo Turazzi
Equipe: Anne Dieterich, Cícero Ferraz Cruz, Fabiana Fernandes Paiva, João Grinspum Ferraz, Bruno Levy, Carol Silva Moreira, Gabriel R. Grinspum, Luciana Dornellas, Pedro Del Guerra, Victor Gurgel, Vinícius Spira, Ismael Rosset

Autores complementares e consultores:
Consultor Estrutural: Fábio Oyamada
Luminotécnica: Ricardo Heder
Pintura Azulejos: Márcia Fátima Tomasini
Levantamento Cadastral do Moinho: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e Universidade de Caxias do Sul – UCS
Restauro do Moinho: Instituto Ítalo Latino Americano – IILA e Universidade de Caxias do Sul – UCS
Recuperação do maquinário do Moinho: Ruimar Sfoglia e equipe
Coordenador geral do projeto Caminho dos Moinhos: Manuel Touguinha

Construção:
Habitare Construtora – Eng. Alexandre Zat


Fotos: Nelson Kon
Contato: brasilarquitetura@brasilarquitetura.com


Prémios e Exposições:
2008 – Vencedor Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, categoria Preservação de Bens Móveis e Imóveis, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, Brasília DF
2008 – Vencedor prêmio O Melhor da Arquitetura, categoria Edifícios de Uso Misto, revista Arquitetura & Construção, São Paulo
2008 – Finalista prêmio World Architecture Festival, Barcelona, Espanha
2008 – Vencedor Prêmio Rino Levi, Instituto de Arquitetos do Brasil, São Paulo
2009 – Menção honrosa Prêmio Gubbio, seção América Latina e Caribe
2010 – Finalista VII Bienal Iberoamericana de Arquitectura y Urbanismo – BIAU, Medellín, Colômbia


galeria


colaboração editorial

Isabela Gomide + Aloísio Silva + Cecília Ellen

deseja citar esse post?

FANUCCI, Francisco. FERRAZ, Marcelo. TURAZZI, Anselmo. “Museu do Pão”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., jul-2025. Disponível em http://www.mdc.arq.br/2025/07/10/museu-do-pao/. Acesso em: [incluir data do acesso].

Edital 11/2025-PROBIC/FAPEMIG

Edital PRPq 10/2024


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