Instituto Socioambiental – ISA

Por Brasil Arquitetura
BRASIL – Projeto Executivo
5–7 minutos

projeto executivo


PROJETO EXECUTIVO
COMPLETO

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Instituto Socioambiental – ISA (texto fornecido pelos autores)

São Gabriel da Cachoeira é um município de cerca de 45 mil habitantes, de maioria indígena, no qual convivem 22 etnias. Situada mil quilômetros a noroeste de Manaus, localiza-se na região amazônica onde Brasil, Colômbia e Venezuela fazem fronteira. A implantação da sede do Instituto Socioambiental – ISA – na cidade, entre o tecido urbano mais denso e a margem do Rio Negro, foi pensada justamente para evidenciar a possibilidade de se estabelecer uma relação mais gentil e amigável entre a ocupação humana e o meio ambiente, entre urbis e natureza.

Trata-se de um esforço em se contrapor à prática recorrente em cidades ribeirinhas de se construir de costas para as águas, utilizando os rios como esgoto doméstico ou coletor de lixo. Nesse sentido, o edifício do ISA se abre para a cidade como um equipamento democrático de uso público e coletivo e também reverencia a paisagem natural – o rio com suas belas águas negras e praias de areia branca, na imensidão de mata amazônica, a se perder de vista.

Fotografias: Daniel Ducci

O projeto teve como fatores determinantes, e até norteadores, as dificuldades construtivas da região, devido ao seu isolamento, somadas às reduzidas opções de materiais disponíveis. Como resultado, chegamos a uma arquitetura bastante simples, sintética. O edifício é um cubo branco de 16 x 16 m, com três pavimentos, construído com técnicas tradicionais de alvenaria revestida e caiada. Uma pele de madeira o protege das fortes chuvas amazônicas com rajadas de vento, e uma grande cobertura de palha piaçava, material farto na região, proporciona-lhe conforto térmico, assemelhando-o a uma maloca indígena.

Fotografias: Daniel Ducci

Recorremos às habilidades da mão de obra nativa – não só da região, mas também da Colômbia e da Bahia – no trabalho com madeira, cipós e palha para a cobertura e também para a estrutura periférica que veste a construção central e abriga toda a circulação vertical e horizontal, formando marquises, balcões e escadas.

Fotografias: Croqui: Acervo Brasil Arquitetura

O edifício do ISA procura aliar e fundir todas as concepções espaciais ao programa de uso rico e variado proposto pelos dirigentes da instituição e pelos conselhos indígenas. Uma circulação externa independente – escadas e varandas – dá acesso ao salão multiuso para trabalho, área para exposições, projeções e conferências, biblioteca, apartamentos para pesquisadores e visitantes, cozinha coletiva e uma grande sala de convivência com um redário para descanso ou reuniões.

Plantas e Cortes

Com suas varandas, seu salão aberto e acolhedor no térreo e seu terraço panorâmico na cobertura, podemos afirmar que o edifício todo é uma grande área de encontros de trabalho e lazer dos usuários e visitantes. Todo o projeto, também em sua relação com a cidade e com a natureza, está fundado nos princípios da convivência.

Fotografias: Daniel Ducci


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Francisco Fanucci (F.F.)

MDC – Como você contextualiza essa obra no conjunto de toda a sua produção?

F.F. – Uma obra única, pelas peculiaridades do lugar, de suas culturas, e de suas tecnologias.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?

F.F. – Contratação direta pelo Instituto Socioambiental.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Você destacaria algum momento significativo do processo?

F.F. – Uma construção no norte amazônico, às margens do Rio Negro. A linha do rio nos deu o alinhamento leste/oeste para o edifício. O clima local – extremamente quente e úmido – e a implantação expõem a casa à insolação direta o dia todo. Chuvas torrenciais são muito frequentes, às vezes chuvas quase horizontais. A participação dos povos locais na construção. Essas condições colocam essa experiência como muito rara, como uma “inflexão conceitual” obrigatória, pode-se dizer.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, podem comentar as mais importantes?

F.F. – O projeto foi desenvolvido em nosso escritório, em São Paulo. Participou diretamente dele nosso time à época. As soluções foram surgindo naturalmente ao longo do processo. Uma construção muito simples, de forma quadrada, 3 pisos, estrutura de concreto, paredes de alvenaria, fachadas com grid de madeira para aparar as tais chuvas horizontais e amenizar o calor no interior, cobertura de sapê sobre estrutura de madeiras roliças levemente curvadas. Essa parte da fachada e da cobertura foram executadas pelos indígenas locais.

MDC – Os autores do projeto tiveram participação no processo de construção/implementação da obra?

F.F. – Podemos dizer que sim, que os construtores da cobertura são também autores do respectivo projeto. Fizemos uma maquete, escala 1:50 e a enviamos pra lá. Eles ficaram observando a maquete e nos responderam que poderiam executar aquilo. E executaram – à sua maneira. Em suas construções nas aldeias, na finalização, eles retiram o esteio central e a cobertura, como um milagre, fica lá, sustentada pela trama de madeiras roliças à moda de guarda chuva. Em nosso caso, sobre o prédio de 3 pisos, implantado no barranco mais alto do rio, o esteio central ficou lá, pra segurar a cobertura do vento, como uma âncora, evitando outro milagre, a cobertura sair voando…

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?

F.F. – O edifício é a sede do ISA, com acomodações para os pesquisadores, sala para conversas com as nações locais compostas de muitas etnias. O espaço mais frequentado, contudo, é o terraço coberto, que tem uma cozinha e a vista mais ampla do rio e da floresta. Na sombra do sapê, com a brisa fresca do rio.

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?

F.F. – Não sei. Cada projeto é uma história…

MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?

F.F. – Não sei responder a essa questão.

MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?

F.F. – Uma experiência rara, de trabalhar em conjunto com a população, em lugar tão peculiar, culturalmente e fisicamente.


ficha técnica

Local: São Gabriel da Cachoeira, Amazonas – Brasil
Ano de projeto: 2000
Ano de conclusão da obra: 2006
Área: 530 m²
Arquitetura: Brasil Arquitetura | Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz, Anderson Freitas, Pedro Barros, Juliana Antunes
Equipe: Anne Dieterich, Cícero Ferraz Cruz, Bruno Levy, Gabriel R. Grinspum, Rodrigo Izecson


Autores complementares e consultores:
Engenharia: Promon Engenharia
Luminotécnica: Reka

Construção:
GAD Engenharia

Fotos: Daniel Ducci e Beto Ricardo
Contato: brasilarquitetura@brasilarquitetura.com

Prémios e Exposições:
2016 – Menção honrosa Prêmio Latinoamericano de Arquitectura Rogelio Salmona, Fundação Rogelio Salmona, Bogotá, Colômbia


galeria


colaboração editorial

Laura Valadares + Aloísio Silva

deseja citar esse post?

FANUCCI, Francisco. FERRAZ, Marcelo. FREITAS, Anderson. Barros, Pedro. ANTUNES, Juliana. “Instituto Socioambiental”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., jul-2025. Disponível em https://mdc.arq.br/2025/07/10/instituto-socioambiental-isa/. Acesso em: [incluir data do acesso].

Edital 11/2024-PROBIC/FAPEMIG

Edital PRPq 10/2024


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