Retrofit do Edifício Castelo Branco

Por Andrade Morettin Arquitetos Associados + GOAA
BRASIL – Intervir no Construído
5–8 minutos

projeto executivo

PROJETO EXECUTIVO
ARQUITETÔNICO COMPLETO

10 pranchas (pdf).
3,19mb


Retrofit do Edifício Castelo Branco (texto fornecido pelos autores)

De presença marcante na paisagem do largo da Concórdia o edifício Castelo Branco encontrava-se subutilizado, sua fachada de dimensões monumentais e animada pelos seus brises móveis não refletia o abandono do seu interior.

Fotografia: Pedro Vannucchi

Se por um lado o movimento intenso da Av. Rangel Pestana dificulta a locação das grandes lajes de escritório, por outro produz tamanha valorização do posto comercial no térreo que impossibilita qualquer intervenção que acarretaria no seu fechamento.

Fotografias: Pedro Vannucchi

O projeto busca assim conciliar duas demandas: criar um acesso confortável e atrativo para os inquilinos das lajes de escritório e manter o acesso direto ao espaço de varejo localizado no térreo.

Plantas baixas: subsolo, térreo, pavimento tipo e cobertura

O resultado é um projeto elaborado com materiais reconhecíveis na paisagem da região, que possibilitassem uma construção rápida e limpa e criassem um espaço confortável.

Fotografias: Pedro Vannucchi

Aproveitando uma antiga rampa em desuso a nova entrada busca ser direta e generosa buscando captar a atenção do pedestre para o interior do prédio. Nos conjuntos de escritórios intervenções mínimas buscaram recuperar os acabamentos existentes dentro dos conjuntos. Foi mantido o piso de granilite existente na circulação e os caixilhos e brises recuperados para facilitar seu uso.

Maquete

Na cobertura propusemos a instalação de um pavilhão com estrutura de madeira que abrigaria um espaço para eventos e um restaurante. Este equipamento permite o acesso público à vista panorâmica e cria um espaço de contemplação no topo da metrópole paulistana.

Diagrama e fotografia: Pedro Vannucchi


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Vinicius Andrade

MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?

V.A. – A reforma e adaptação do edifício Castelo Branco se insere em um contexto em que a preocupação com a recuperação dos centros urbanos começa a ganhar força na cidade de São Paulo. Como arquitetos comprometidos com esta causa, percebemos neste projeto uma oportunidade para colocar em prática algumas estratégias que estivemos desenvolvendo nos 20 primeiros anos do escritório e, de alguma forma, contribuir para este processo.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto? (Concurso, licitação, contratação direta, outro)

V.A. – Esta é uma obra encampada por um cliente privado que nos procurou para o estabelecimento de uma parceria onde faríamos um esforço conjunto para viabilizar um tipo de intervenção que tinha pouca atratividade comercial, naquele momento.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Em que aspectos a pré-existência teve impacto sobre o ato de projetação e se diferencia de um projeto novo?

V.A. – A pré-existência foi determinante para a conceituação e concepção deste projeto, afinal tratava-se, praticamente, de recuperar o edifício existente, proporcionando novas funcionalidades apenas em seu andar térreo. Se houve alguma complexidade conceitual, portanto, esta se concentrou no desafio de conciliar a estrutura existente – concebida para acomodar um monousuário – com um uso comercial mais popular, fracionado e multifacetado.

MDC Qual o nível de informação prévia recebida ou levantada sobre as condicionantes da edificação pré-existente (instalações, estrutura, estado de preservação)? A falta de alguma informação em algum momento foi prejudicial ao processo de projeto?

V.A. – Realizou-se um processo de reconhecimento do edifício, contemplando os levantamentos cadastrais dos arquitetos, engenheiros estruturais e de infraestruturas prediais. Este material foi a base sobre a qual trabalhamos desde o princípio.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?

V.A. – Os autores participaram de todo o desenvolvimento dos projetos e, durante este processo, muitas variações e ajustes ocorreram. A compreensão completa do estado da edificação – sobretudo de suas instalações prediais – só foi alcançada durante o desenvolvimento do projeto e da realização das primeiras intervenções. A adequação do edifício às normas de segurança atualizadas representou um desafio particular que contou com a colaboração permanente dos engenheiros consultores e especialistas.

MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Houve descobertas na obra que impactaram o projeto? Se sim, estas foram atualizadas em desenhos técnicos ou somente decididas em obra?

V.A. – Tanto arquitetos quanto engenheiros projetistas acompanharam todo o processo de construção e implementação das obras, sempre em contato com os clientes e com a empresa responsável pelas obras. Diversas descobertas durante este processo impactaram o projeto inicial e cada uma delas foi debatida entre as partes para a definição da melhor solução. Cada uma das adaptações definida foi incorporada ao projeto.

MDC – Além dos ganhos ambientais, houve ganho financeiro ou de prazo da obra devido a manutenção de elementos pré-existentes? Em algum momento a completa demolição foi cogitada?

V.A. – A economia de recursos e de tempo foi significativa. Em nenhum momento se cogitou a demolição do edifício uma vez que a própria natureza do empreendimento estava vinculada à recuperação do mesmo como meta.

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício após a sua construção?

V.A. – Podemos destacar dois aspectos relevantes da vida do edifício após sua construção. As adaptações realizadas no térreo do edifício parecem ter sido perfeitamente absorvidas pelos comerciantes e frequentadores, fazendo com que o empreendimento se integrasse com sucesso no fluxo comercial das calçadas locais. Por outro lado, a ocupação de praticamente todos os pavimentos superiores por um único usuário, um “centro comercial indiano”, foi uma surpresa e, de certa forma, desconsiderou o trabalho de individualização dos conjuntos comerciais realizado pelo projeto.

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, faria algo diferente?

V.A. – Penso que o processo, da forma como ocorreu, teve mais acertos do que erros. Por outro lado, uma prospecção mais ampla com possíveis clientes ou parceiros interessados em ocupar o edifício, talvez fosse uma estratégia interessante para melhorar o processo.

MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?

V.A. – Entendo que a prática de adaptar edifícios existentes e vazios nas áreas centrais das cidades é considerada uma estratégia vital para a qualificação das nossas cidades e promoção do bem-estar comum e, portanto, deveria ocupar um espaço maior no panorama da produção arquitetônica do país.

MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostaria de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?

V.A. – Este projeto trata da recuperação e adaptação de um edifício pré-existente. Chama a atenção o fato de estar vazio já há vários anos, mesmo inserido num Largo onde a presença de um comercio varejista especializado, popular e muito pujante, é marcante. Este fato nos fez refletir sobre o enorme potencial ainda não aproveitado, existente em nossos centros urbanos.  Foi para nós uma oportunidade única de conhecermos e aprendermos sobre as dinâmicas intrínsecas a este tipo de atividade econômica.


ficha técnica

Local: Brás. São Paulo, SP
Ano de projeto: 2015
Ano de construção: 2016
Área construída: 5.000,00m²
Autor do projeto original (preexistência): Jorge Wilheim
Autor do projeto de intervenção / reforma: Andrade Morettin Arquitetos Associados + GOAA
Colaboradores: Joana Mitre, Marina Novaes, Marina Pereira

Fotos: Pedro Vannucchi
Contato: contato@andrademorettin.com.br


galeria


colaboração editorial

Cecília Ellen

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