Arena de Handebol e Golbol para os Jogos Olímpicos Rio 2016 e sua transformação em quatro escolas municipais

Por Ana Paula Polizzo, Gustavo Martins, Geraldo de Oliveira Lopes, Gilson Ramos dos Santos e José Raymundo Ferreira Gomes.
BRASIL – Intervir no Construído
20–30 minutos

projeto executivo

ARENA DE HANDEBOL – PARTE 1
PLANTAS, CORTES E ELEVAÇÕES

69 pranchas (pdf).
57,64 mb

ARENA DE HANDEBOL – PARTE 2
DETALHES E ESQUADRIAS

30 pranchas (pdf).
15,85 mb

ARENA DE HANDEBOL – PARTE 3
ESTRUTURA

142 pranchas (pdf).
119,70 mb

ESCOLA ARENA
EXECUTIVO COMPLETO

6 pranchas (pdf).
6,49 mb


Arena de Handebol (texto fornecido pelos autores)
2016

Situado no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, o edifício que abrigou a Arena Olímpica de Handebol e Golbol durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, resultou de uma concorrência pública internacional organizada pelo Município.

O principal desafio, em virtude da natureza efêmera do edifício esportivo, foi a reutilização de seus elementos construtivos para a edificação de quatro escolas públicas municipais após as Olimpíadas em regiões de elevada vulnerabilidade social, integrando em seu desenvolvimento projetual e construtivos conceitos de transitoriedade, flexibilidade, mutabilidade e adaptabilidade.

Portanto, ao longo do processo de projetação, adotou-se materiais e sistemas construtivos disponíveis no mercado que respeitassem os princípios de industrialização, economia, modularidade, reutilização e manutenção simplificada. Entre estes, sobressaem-se a utilização, em ambos os edifícios, de uma fachada composta por painéis de madeira reciclada que estabelecem a conexão entre as épocas construtivas, integrando visualmente a fluidez geográfica e urbana da região.

A dinâmica adotada para a construção desse equipamento contribui indubitavelmente para a redução da geração de resíduos, para a otimização de recursos e para novas perspectivas no campo da arquitetura e urbanismo, que carecem desse tipo de debate e projeto.

Diagrama arena e escolas. Fonte: Oficina de Arquitetos.

Fotografias: Leonardo Finotti

O projeto para a Arena Olímpica e Escolas Municipais se estabelece a partir de cinco metas principais: (1) Organização Metodológica Construtiva; (2) Definição dos Sistemas Estruturais Principais; (3) Planejamento e Definição dos Materiais, (4) Componentes e Conteúdo de ambos os edifícios; e por fim, (5) Processo de Reuso e Destino (Descarte).

O formato para jogos abrigou 12.000 espectadores com área total construída de 24.214m². Já os edifícios escolares, fruto do desmonte e reaproveitamento de elementos construtivos da Arena, ocupam cada um 6500m2 e atualmente acolhem perto de 600 alunos do ensino fundamental Municipal.

A edificação é organizada em níveis de elementos: a área do campo, como arquibancadas, o anel de segurança (térreo), a varanda projetada (saguão), o núcleo da estrutura (formado por novos pórticos treliçados e pelo telhado, que garantem a estabilidade total da construção) e o sistema de revestimento (composto pela superfície de madeira reciclada);

Diagrama. Fonte: Oficina de Arquitetos.

Planejamento e definição dos materiais, componentes e conteúdo

Utizou-se estrutura mista (concreto armado e estrutura metálica). Essa escolha se deu em virtude do tempo (possibilitando o emprego de frentes construtivas de execução da obra), da expectativa sobre a capacidade organizacional dos processos já conhecidos de construção, da fiscalização e do empenho de recursos.

Dessa forma, definimos o direcionamento para a seleção de materiais e sistemas do mercado que fossem compatíveis com a lógica da industrialização e fornecessem fácil manutenção, além de incluídos no catálogo de itens e no boletim de custódia da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (SCO-Rio).

Fotografias: Leonardo Finotti

Reuso e destino

Compreendeu-se que os processos de concepção da Arena e das Escolas não poderiam ocorrer de maneira linear e sequencial, com o objetivo de planejar a reutilização dos elementos.

Além disso, foi definida uma meta de reaproveitamento de 25% dos componentes da Arena Olímpica, abrangendo itens como estrutura de fixação, brises de madeira reciclada, rampas e escadas metálicas, fechamentos e diversos equipamentos (elevadores, sanitários, janelas, guarda-corpos, entre outros). Adicionalmente, outros 50% seriam recondicionados para reciclagem e reutilização em outras instalações (como arquibancadas, cadeiras e estruturas de aço).

Fotografia: Leonardo Finotti

Descarte

As dimensões, a aplicabilidade e as expectativas técnicas de uma Arena Olímpica são consideravelmente diferentes das de uma instituição escolar. Assim, foram distribuídos que aproximadamente 25% dos elementos seriam totalmente eliminados, ainda que de forma sistemática, incluindo parte da arquibancada, as lajes operacionais do saguão e os blocos de concreto do andar térreo, que constituíram um anel de segurança.

Fotografia: Leonardo Finotti

Os elementos estruturais

Desde o início da concepção do projeto, houve uma atenção especial à racionalização do procedimento de montagem e à eficiência do processo de desmontagem do edifício, especialmente no que diz respeito à conexão dos materiais e à preferência por encaixes, além de fixações mecânicas. Assim sendo, a arena foi construída com uma estrutura metálica aparafusada sobre uma ampla laje de concreto armado, moldada no próprio local e sustentada por perfis metálicos cravados. Todas as fases de preparação, desde o corte até a finalização, foram concretizadas na fábrica.

Os pisos superiores são suportados por uma malha de aço de 25 cm, enquanto o núcleo, constituído por novos painéis de concreto armado, garante total estabilidade estrutural. O vão livre do edifício, de aproximadamente 87,00 metros, e a área total de 25.000 metros quadrados, proporcionam suporte aos edifícios através de vigas e de pilares em locais específicos. O sistema visa promover a economia, a reciclagem e a reutilização dos componentes estruturais em parte do futuro edifício escolar.

Diagrama construtivo arena e escolas. Fonte: Oficina de Arquitetos.

A resposta à paisagem

O edifício que abriga a Arena é um prisma de 120 m x 96 m e visa estabelecer comunicação com a paisagem por meio de uma circulação pública direcionada durante os jogos, demonstrando o território como uma varanda protegida por uma grande marquise.

As fachadas do edifício são revestidas, em parte, por elementos horizontais (perfis extrudados de madeira reciclada), que apresentam variações em suas aberturas e permeabilidade, de acordo com a necessidade de proteção contra a incidência direta da luz solar. Este equipamento gera uma ampla zona sombreada, além de permitir ventilação natural, o que diminui a transferência de calor pela alvenaria e proporciona área de circulação e entrada às arquibancadas do edifício. Dessa forma, a envoltória da Arena atua como um elemento intermediário entre o espaço arejado que precede a superfície da edificação e o ambiente externo, criando um limite bastante sutil que se relaciona com a paisagem, conforme o nível de permeabilidade.

A manifestação desta envoltória representa o vínculo mais imediato entre a Arena e as Escolas; a pele constitui o componente que define de maneira mais evidente o que da Arena, mesmo após sua desinstalação, persiste na Escola: ela permite uma interação entre as diferentes temporalidades.  

Fotografia: Leonardo Finotti. Diagrama de implantação. Fonte: Oficina de Arquitetos.

A escola se veste de Arena

Ainda que desenvolvida a partir de um projeto-modelo, cada uma das escolas teve sua implantação ajustada de acordo com as especificidades de cada sítio. Três destas escolas (GET José Mauro de Vasconcelos em Bangu, GET Emiliano Galdino em Santa Cruz e GET Nelcy Noronha em Campo Grande) foram implantadas em substituição a escolas municipais já existentes (escolas transitórias de argamassa armada projetadas pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, na década de 1980, sendo o GET Mestre Diego Braga em Rio das Pedras, a única escola completamente nova.

De maneira semelhante à Arena, o edifício da escola é formado por novos pórticos, feitos com estrutura metálica, que constituem o núcleo principal da construção, o qual é responsável por garantir a estabilidade total da edificação.  A estrutura metálica é inserida por meio de parafusos sobre uma laje de concreto armado, confeccionada in loco.

Além de sustentarem a cobertura, esses pórticos oferecem suporte à distribuição interna do edifício, por meio das vigas integrantes e de pendurais em locais específicos, que auxiliam na fixação da subestrutura que suporta os brises, garantindo resistência e resistência específica para suportar as cargas aplicadas.

O acesso principal à instituição de ensino ocorre por meio de um amplo pátio coberto, que acolhe crianças e que envolve rampa, escadas, refeitório, cozinha e setor de serviços.  A entrada pode ser realizada em ambas as fachadas longitudinais, o que torna a disposição do edifício mais flexível em terrenos variados.                         

Fotografias: Rafael Salim

Ilustrações escola e arena, respectivamente. Fonte: Oficina de Arquitetos

Sobre a (im)permanência dos edifícios

No setor da construção civil no Brasil, é frequente a utilização de uma metodologia convencional que trata todas as necessidades construtivas como permanentes, almejando soluções robustas e seguras. Entretanto, a desmaterialização das construções surge como uma área de investigação significativa, uma vez que os edifícios temporários ou efêmeros são concebidos para serem desmantelados, ao invés de serem demolidos, sendo valorizados pela durabilidade de seus componentes e pelos métodos de destinação final. (BARRETO, 2017).

Por fim, a Arena do Futuro carregou na sua execução uma série de desafios variados que influenciaram suas perspectivas de transformação. Este é um projeto que vai além de uma estrutura funcional; trata-se de uma edificação que se adapta às suas transformações, confirmando que, em algum momento, deixará de existir, cumprindo, assim, a sua natureza de construção temporária. Tal perspectiva nos leva a refletir sobre a possibilidade de considerar as premissas de mutabilidade e transitoriedade como um legado público essencial, contribuindo indubitavelmente para a redução da geração de resíduos, para a otimização de recursos e para novas perspectivas no campo da arquitetura e urbanismo, que carecem desse tipo de debate e projeto.

Este edifício, que obteve significativa visibilidade como cenário das competições de handebol, foi testemunha de inúmeras alegrias e emoções que um evento olímpico pode despertar; agora, renuncia à sua permanência e se transforma em construções educacionais de natureza pública, um programa de importância coletiva indiscutível. Gesto cauteloso, exigente, contudo, essencial e revigorante, que certamente precisa fazer desta experiência base de estudos mais avançados e debates críticos que possam contribuir para se repensar processos que circunscrevem a construção civil no Brasil. O Rio de Janeiro não perdeu uma Arena, e sim, ganhou quatro escolas.  

Fotografia: Leonardo Finotti


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Gustavo Martins e Ana Paula Polizzo

Outra alteração ocorrida ao longo do processo diz respeito ao projeto das escolas. O edifício-modelo foi inicialmente concebido com três pavimentos e 17 salas de aula, além de auditório, biblioteca, refeitório, cozinha industrial, sanitários, vestiários, áreas de serviço, quadra poliesportiva coberta com arquibancada e estacionamento. Posteriormente, em função de novas demandas municipais, o programa foi ajustado e resultou em edifícios de dois pavimentos, com 10 salas de aula, sala de ciências, sala de leitura, sala multimídia, laboratório, quadra poliesportiva e áreas administrativas.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?

G.M. e A.P. – Sim, o desenvolvimento executivo foi realizado em estreita colaboração entre arquitetos e engenheiros, uma vez que o caráter desmontável do edifício exigia um detalhamento muito preciso das soluções construtivas. Houve um diálogo constante entre as disciplinas para compatibilizar questões estruturais, construtivas e operacionais, o que levou a ajustes e refinamentos ao longo do processo e contribuiu para tornar o sistema construtivo mais racional e adaptável.


ficha técnica

Projeto: Arena de Handebol e Golbol Jogos Olímpicos Rio de Janeiro 2016 e sua transformação em quatro escolas municipais

Localização da arena: Av. Embaixador Abelardo Bueno, s/nº, Parque Olímpico, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
Localização das escolas: R. Marlieria, 77-235 – Bangu, Rio de Janeiro – RJ, 21863-340 (GET José Mauro de Vasconcelos); Rua Conceição De Ipanema 14, Santa Cruz, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 23575-080, Brazil (GET Emiliano Galdino); Rua Coxila Rica, Campo Grande, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 23047, Brazil (GET Nelcy Noronha); Rua Velha, Jacarepaguá, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 22753, Brazil (GET Mestre Diego Braga).
Ano de projeto:  2013
Ano de construção:  2014
Autores do projeto de intervenção: Ana Paula Polizzo, Gustavo Martins, Geraldo de Oliveira Lopes, Gilson Ramos dos Santos e José Raymundo Ferreira Gomes.
Colaboradores: Felipe Monnerat, Vitor Garcez, Juliana Sicuro, Igor Pio, Janaina Nagot, Jean Boechat, Cristiano Vieira, Honório Magalhães e Jorge De Miguel Maza.

Fotografia: Leo Finotti
Contato: oficina@oficina.arq.br


galeria (Arena)

galeria (Escolas)


colaboração editorial

Alice Bueno
Cecília Ellen
Yohanna Prado

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Edital 11/2025-PROBIC/FAPEMIG

Edital PRPq 10/2024

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