Por Ana Paula Polizzo, Gustavo Martins, Geraldo de Oliveira Lopes, Gilson Ramos dos Santos e José Raymundo Ferreira Gomes.
BRASIL – Intervir no Construído
projeto executivo
Arena de Handebol (texto fornecido pelos autores)
2016
Situado no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, o edifício que abrigou a Arena Olímpica de Handebol e Golbol durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, resultou de uma concorrência pública internacional organizada pelo Município.
O principal desafio, em virtude da natureza efêmera do edifício esportivo, foi a reutilização de seus elementos construtivos para a edificação de quatro escolas públicas municipais após as Olimpíadas em regiões de elevada vulnerabilidade social, integrando em seu desenvolvimento projetual e construtivos conceitos de transitoriedade, flexibilidade, mutabilidade e adaptabilidade.
Portanto, ao longo do processo de projetação, adotou-se materiais e sistemas construtivos disponíveis no mercado que respeitassem os princípios de industrialização, economia, modularidade, reutilização e manutenção simplificada. Entre estes, sobressaem-se a utilização, em ambos os edifícios, de uma fachada composta por painéis de madeira reciclada que estabelecem a conexão entre as épocas construtivas, integrando visualmente a fluidez geográfica e urbana da região.
A dinâmica adotada para a construção desse equipamento contribui indubitavelmente para a redução da geração de resíduos, para a otimização de recursos e para novas perspectivas no campo da arquitetura e urbanismo, que carecem desse tipo de debate e projeto.

Diagrama arena e escolas. Fonte: Oficina de Arquitetos.


Fotografias: Leonardo Finotti
O projeto para a Arena Olímpica e Escolas Municipais se estabelece a partir de cinco metas principais: (1) Organização Metodológica Construtiva; (2) Definição dos Sistemas Estruturais Principais; (3) Planejamento e Definição dos Materiais, (4) Componentes e Conteúdo de ambos os edifícios; e por fim, (5) Processo de Reuso e Destino (Descarte).
O formato para jogos abrigou 12.000 espectadores com área total construída de 24.214m². Já os edifícios escolares, fruto do desmonte e reaproveitamento de elementos construtivos da Arena, ocupam cada um 6500m2 e atualmente acolhem perto de 600 alunos do ensino fundamental Municipal.
A edificação é organizada em níveis de elementos: a área do campo, como arquibancadas, o anel de segurança (térreo), a varanda projetada (saguão), o núcleo da estrutura (formado por novos pórticos treliçados e pelo telhado, que garantem a estabilidade total da construção) e o sistema de revestimento (composto pela superfície de madeira reciclada);

Diagrama. Fonte: Oficina de Arquitetos.
Planejamento e definição dos materiais, componentes e conteúdo
Utizou-se estrutura mista (concreto armado e estrutura metálica). Essa escolha se deu em virtude do tempo (possibilitando o emprego de frentes construtivas de execução da obra), da expectativa sobre a capacidade organizacional dos processos já conhecidos de construção, da fiscalização e do empenho de recursos.
Dessa forma, definimos o direcionamento para a seleção de materiais e sistemas do mercado que fossem compatíveis com a lógica da industrialização e fornecessem fácil manutenção, além de incluídos no catálogo de itens e no boletim de custódia da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (SCO-Rio).
Fotografias: Leonardo Finotti
Reuso e destino
Compreendeu-se que os processos de concepção da Arena e das Escolas não poderiam ocorrer de maneira linear e sequencial, com o objetivo de planejar a reutilização dos elementos.
Além disso, foi definida uma meta de reaproveitamento de 25% dos componentes da Arena Olímpica, abrangendo itens como estrutura de fixação, brises de madeira reciclada, rampas e escadas metálicas, fechamentos e diversos equipamentos (elevadores, sanitários, janelas, guarda-corpos, entre outros). Adicionalmente, outros 50% seriam recondicionados para reciclagem e reutilização em outras instalações (como arquibancadas, cadeiras e estruturas de aço).

Fotografia: Leonardo Finotti
Descarte
As dimensões, a aplicabilidade e as expectativas técnicas de uma Arena Olímpica são consideravelmente diferentes das de uma instituição escolar. Assim, foram distribuídos que aproximadamente 25% dos elementos seriam totalmente eliminados, ainda que de forma sistemática, incluindo parte da arquibancada, as lajes operacionais do saguão e os blocos de concreto do andar térreo, que constituíram um anel de segurança.
Fotografia: Leonardo Finotti
Os elementos estruturais
Desde o início da concepção do projeto, houve uma atenção especial à racionalização do procedimento de montagem e à eficiência do processo de desmontagem do edifício, especialmente no que diz respeito à conexão dos materiais e à preferência por encaixes, além de fixações mecânicas. Assim sendo, a arena foi construída com uma estrutura metálica aparafusada sobre uma ampla laje de concreto armado, moldada no próprio local e sustentada por perfis metálicos cravados. Todas as fases de preparação, desde o corte até a finalização, foram concretizadas na fábrica.
Os pisos superiores são suportados por uma malha de aço de 25 cm, enquanto o núcleo, constituído por novos painéis de concreto armado, garante total estabilidade estrutural. O vão livre do edifício, de aproximadamente 87,00 metros, e a área total de 25.000 metros quadrados, proporcionam suporte aos edifícios através de vigas e de pilares em locais específicos. O sistema visa promover a economia, a reciclagem e a reutilização dos componentes estruturais em parte do futuro edifício escolar.

Diagrama construtivo arena e escolas. Fonte: Oficina de Arquitetos.
A resposta à paisagem
O edifício que abriga a Arena é um prisma de 120 m x 96 m e visa estabelecer comunicação com a paisagem por meio de uma circulação pública direcionada durante os jogos, demonstrando o território como uma varanda protegida por uma grande marquise.
As fachadas do edifício são revestidas, em parte, por elementos horizontais (perfis extrudados de madeira reciclada), que apresentam variações em suas aberturas e permeabilidade, de acordo com a necessidade de proteção contra a incidência direta da luz solar. Este equipamento gera uma ampla zona sombreada, além de permitir ventilação natural, o que diminui a transferência de calor pela alvenaria e proporciona área de circulação e entrada às arquibancadas do edifício. Dessa forma, a envoltória da Arena atua como um elemento intermediário entre o espaço arejado que precede a superfície da edificação e o ambiente externo, criando um limite bastante sutil que se relaciona com a paisagem, conforme o nível de permeabilidade.
A manifestação desta envoltória representa o vínculo mais imediato entre a Arena e as Escolas; a pele constitui o componente que define de maneira mais evidente o que da Arena, mesmo após sua desinstalação, persiste na Escola: ela permite uma interação entre as diferentes temporalidades.


Fotografia: Leonardo Finotti. Diagrama de implantação. Fonte: Oficina de Arquitetos.
A escola se veste de Arena
Ainda que desenvolvida a partir de um projeto-modelo, cada uma das escolas teve sua implantação ajustada de acordo com as especificidades de cada sítio. Três destas escolas (GET José Mauro de Vasconcelos em Bangu, GET Emiliano Galdino em Santa Cruz e GET Nelcy Noronha em Campo Grande) foram implantadas em substituição a escolas municipais já existentes (escolas transitórias de argamassa armada projetadas pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, na década de 1980, sendo o GET Mestre Diego Braga em Rio das Pedras, a única escola completamente nova.
De maneira semelhante à Arena, o edifício da escola é formado por novos pórticos, feitos com estrutura metálica, que constituem o núcleo principal da construção, o qual é responsável por garantir a estabilidade total da edificação. A estrutura metálica é inserida por meio de parafusos sobre uma laje de concreto armado, confeccionada in loco.
Além de sustentarem a cobertura, esses pórticos oferecem suporte à distribuição interna do edifício, por meio das vigas integrantes e de pendurais em locais específicos, que auxiliam na fixação da subestrutura que suporta os brises, garantindo resistência e resistência específica para suportar as cargas aplicadas.
O acesso principal à instituição de ensino ocorre por meio de um amplo pátio coberto, que acolhe crianças e que envolve rampa, escadas, refeitório, cozinha e setor de serviços. A entrada pode ser realizada em ambas as fachadas longitudinais, o que torna a disposição do edifício mais flexível em terrenos variados.
Fotografias: Rafael Salim


Ilustrações escola e arena, respectivamente. Fonte: Oficina de Arquitetos
Sobre a (im)permanência dos edifícios
No setor da construção civil no Brasil, é frequente a utilização de uma metodologia convencional que trata todas as necessidades construtivas como permanentes, almejando soluções robustas e seguras. Entretanto, a desmaterialização das construções surge como uma área de investigação significativa, uma vez que os edifícios temporários ou efêmeros são concebidos para serem desmantelados, ao invés de serem demolidos, sendo valorizados pela durabilidade de seus componentes e pelos métodos de destinação final. (BARRETO, 2017).
Por fim, a Arena do Futuro carregou na sua execução uma série de desafios variados que influenciaram suas perspectivas de transformação. Este é um projeto que vai além de uma estrutura funcional; trata-se de uma edificação que se adapta às suas transformações, confirmando que, em algum momento, deixará de existir, cumprindo, assim, a sua natureza de construção temporária. Tal perspectiva nos leva a refletir sobre a possibilidade de considerar as premissas de mutabilidade e transitoriedade como um legado público essencial, contribuindo indubitavelmente para a redução da geração de resíduos, para a otimização de recursos e para novas perspectivas no campo da arquitetura e urbanismo, que carecem desse tipo de debate e projeto.
Este edifício, que obteve significativa visibilidade como cenário das competições de handebol, foi testemunha de inúmeras alegrias e emoções que um evento olímpico pode despertar; agora, renuncia à sua permanência e se transforma em construções educacionais de natureza pública, um programa de importância coletiva indiscutível. Gesto cauteloso, exigente, contudo, essencial e revigorante, que certamente precisa fazer desta experiência base de estudos mais avançados e debates críticos que possam contribuir para se repensar processos que circunscrevem a construção civil no Brasil. O Rio de Janeiro não perdeu uma Arena, e sim, ganhou quatro escolas.

Fotografia: Leonardo Finotti
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Gustavo Martins e Ana Paula Polizzo
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?
G.M. e A.P. – A Arena do Futuro ocupa um lugar particular dentro da nossa reflexão sobre arquitetura e cidade, pois nos permitiu explorar de forma concreta a ideia de impermanência dos edifícios. Grande parte da tradição arquitetônica se baseia na noção de permanência e monumentalidade; no entanto, diante da crise ambiental e dos novos paradigmas contemporâneos, tornou-se necessário repensar essa lógica. Nesse sentido, a Arena foi uma oportunidade rara de desenvolver um projeto que já nascesse consciente de sua própria transformação futura, incorporando desde o início estratégias de desmontagem e reaproveitamento.
O projeto teve início em 2013 e sintetiza um momento de amadurecimento do escritório, não apenas pela sua relevância no contexto brasileiro — especialmente no âmbito dos Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro —, mas também pelo desafio de conceber um edifício ao mesmo tempo transitório e mutável. Transitório porque sua vida útil como arena estava vinculada ao período dos Jogos; mutável porque, desde sua concepção, estava prevista sua transformação posterior em quatro escolas municipais.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto? (Concurso, licitação, contratação direta, outro)
G.M. e A.P. O projeto foi desenvolvido a partir de uma concorrência pública do tipo técnica e preço, promovida pela Prefeitura do Rio de Janeiro por meio da RioUrbe, lançada em 2012. O objetivo era selecionar a equipe responsável pelos projetos básico e executivo da arena que receberia as competições de handebol durante os Jogos Olímpicos e de golbol durante os Jogos Paralímpicos de 2016.
A proposta vencedora foi apresentada por um consórcio multidisciplinar formado pelos escritórios Lopes Santos e Ferreira Gomes Arquitetos, Oficina de Arquitetos, DW Engenharia e MBM Engenharia. A proposta assumia como premissa central a ideia de uma arquitetura desmontável, capaz de ser posteriormente transformada em escolas municipais, em consonância com as diretrizes estabelecidas pelo edital.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Em que aspectos a pré-existência teve impacto sobre o ato de projetação e se diferencia de um projeto novo?
G.M. e A.P. – Na indústria da construção brasileira, é comum adotar uma abordagem padrão que considera todas as demandas construtivas como permanentes, buscando soluções sólidas e duradouras. No entanto, a desmaterialização dos edifícios emerge como um campo de pesquisa relevante, na medida em que edifícios temporários ou efêmeros são projetados para serem desmontados, em vez de demolidos, sendo reconhecidos tanto pela durabilidade de seus componentes quanto pelos procedimentos previstos para o seu fim de vida.
No caso deste projeto, a concepção partiu de uma premissa muito clara: o edifício deveria ter uma vida útil temporária enquanto arena olímpica e, posteriormente, ser desmontado para dar origem a quatro escolas municipais. Isso exigiu pensar o projeto de forma não linear, articulando simultaneamente duas escalas e dois programas completamente distintos. Desde o início houve uma preocupação constante em garantir que as decisões construtivas, estruturais e materiais da arena antecipassem seu futuro processo de desmontagem e transformação.
Um dos maiores desafios foi pensar arena e escola de forma concomitante, e não consecutiva. Conceber a arena — um equipamento de grande porte — a partir e por meio da lógica construtiva de uma escola — um equipamento de médio porte, baseado em materiais disponíveis nos catálogos de obras da Prefeitura — constituiu, sem dúvida, um importante desafio metodológico de projeto.
Podemos sistematizar os procedimentos projetuais da arena em cinco metas principais:
1. Organização metodológica construtiva
O edifício se estrutura a partir de camadas de componentes: o campo de jogo, as arquibancadas, o anel de segurança (térreo), a varanda projetada (concourse), o núcleo estrutural do edifício — constituído por nove pórticos treliçados e pela cobertura, responsáveis por assegurar a estabilidade integral da construção — e o sistema de envelopamento, protagonizado pela pele de madeira reciclada.
2. Definição dos sistemas estruturais principais
Adotou-se uma estrutura mista, composta por concreto armado e estrutura metálica. Essa escolha se deu em função do cronograma de obra — permitindo a execução simultânea de diferentes frentes construtivas —, da confiabilidade dos processos construtivos já consolidados no mercado, da capacidade de fiscalização e da gestão dos recursos disponíveis.
3. Planejamento e definição de materiais, componentes e sistemas
Estabeleceu-se como critério a escolha de materiais e sistemas disponíveis no mercado que atendessem à lógica da industrialização e da fácil manutenção. Esses elementos deveriam permitir a mutabilidade e a transitoriedade do edifício — garantindo sua integridade no processo de desmontagem da arena e posterior montagem das escolas municipais —, além de constarem no catálogo de itens e no boletim de custos da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (SCO-Rio), refletindo seu uso recorrente nas obras públicas do município.
4. Reuso e destino
Entendeu-se que os processos de projeto da arena e das escolas não poderiam ocorrer de forma linear e consecutiva. Como o reuso dos componentes da arena estaria diretamente relacionado à definição precisa de seu destino — isto é, o tipo de edificação e seu uso futuro —, ambos os projetos deveriam se desenvolver de forma paralela. Assim, enquanto o projeto da arena avançava dentro de um cronograma mais restrito, imposto pelo calendário olímpico, os estudos sobre a desmontagem e a reutilização de seus elementos nas escolas também evoluíam. A compreensão das naturezas distintas desses diferentes edifícios — a arena transitória e mutante, e as escolas permanentes — foi fundamental para o processo. Estabeleceu-se uma meta de reaproveitamento de 25% dos componentes da arena, incluindo estrutura de fixação e brises de madeira reciclada, rampas e escadas metálicas, fechamentos e equipamentos diversos (elevadores, sanitários, janelas, guarda-corpos etc.). Outros 50% seriam recondicionados para reciclagem ou reutilização em outros equipamentos, como arquibancadas, cadeiras e estruturas metálicas.
5. Descarte
A escala, o uso e as exigências técnicas de uma arena olímpica são significativamente distintos dos de uma escola. Assim, definiu-se que cerca de 25% dos componentes seriam descartados, ainda que de maneira sistematizada, como parte das arquibancadas, das lajes operacionais do concourse e dos blocos de concreto do térreo que compunham o anel de segurança.
MDC – Qual o nível de informação prévia recebida ou levantada sobre as condicionantes da edificação pré-existente (instalações, estrutura, estado de preservação)? A falta de alguma informação em algum momento foi prejudicial ao processo de projeto?
G.M. e A.P. – Nesse caso específico, tratava-se de um edifício novo, concebido para um ciclo de vida curto e posteriormente desmontado. Portanto, o desafio não era lidar com uma pré-existência consolidada, mas sim projetar um edifício já antecipando sua própria condição futura de desmontagem e reutilização. Isso exigiu um elevado nível de planejamento e coordenação entre as equipes, especialmente na definição de sistemas construtivos, junções e materiais que pudessem ser reaproveitados posteriormente na construção das escolas.
As informações recebidas eram bastante objetivas. A demanda era projetar uma arena com capacidade para 12.000 lugares que fosse temporária e que tivesse a capacidade de se transformar em escolas após os Jogos. O terreno indicado localizava-se no extremo sul do Parque Olímpico, ao final de sua alameda principal. A paisagem circundante — composta pela lagoa e pelos morros — foi um fator primordial para a organização espacial da Arena. Assim, o edifício proposto, uma caixa vazada de 120 m × 96 m, busca se comunicar com a paisagem por meio da criação de uma circulação voltada ao público dos jogos, concebida como uma grande varanda protegida por uma ampla cobertura, estabelecendo uma relação direta com o território.
O edifício atinge pouco mais de 32.000 m² de área construída, organizados em três níveis (térreo 0,00 m, nível concourse +4,70 m e patamar técnico +20,50 m), ocupando uma projeção aproximada de 11.000 m² e atingindo altura total de 26,00 m.
Sua construção foi realizada em um período relativamente curto, entre 2014 e 2015, em função dos prazos estabelecidos para os Jogos Olímpicos. Algo que o projeto não previa, no entanto, era que o “tempo de vida” da arena se estendesse por tanto tempo. Foi somente em 2022, seis anos após o encerramento dos Jogos e já durante o terceiro mandato do prefeito Eduardo Paes, que teve início sua desmontagem para a transformação em quatro escolas municipais, conforme previsto no projeto original.
As escolas, denominadas Ginásios Experimentais Tecnológicos (GETs), integram um modelo inovador de educação pública baseado em práticas pedagógicas e recursos voltados à cultura digital. Foram implantadas em áreas vulneráveis da zona oeste do município — Bangu, Campo Grande, Rio das Pedras e Santa Cruz — com o objetivo de beneficiar entre 1.500 e 2.000 alunos.
Outra alteração ocorrida ao longo do processo diz respeito ao projeto das escolas. O edifício-modelo foi inicialmente concebido com três pavimentos e 17 salas de aula, além de auditório, biblioteca, refeitório, cozinha industrial, sanitários, vestiários, áreas de serviço, quadra poliesportiva coberta com arquibancada e estacionamento. Posteriormente, em função de novas demandas municipais, o programa foi ajustado e resultou em edifícios de dois pavimentos, com 10 salas de aula, sala de ciências, sala de leitura, sala multimídia, laboratório, quadra poliesportiva e áreas administrativas.
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?
G.M. e A.P. – Sim, o desenvolvimento executivo foi realizado em estreita colaboração entre arquitetos e engenheiros, uma vez que o caráter desmontável do edifício exigia um detalhamento muito preciso das soluções construtivas. Houve um diálogo constante entre as disciplinas para compatibilizar questões estruturais, construtivas e operacionais, o que levou a ajustes e refinamentos ao longo do processo e contribuiu para tornar o sistema construtivo mais racional e adaptável.
Desde o início do projeto houve uma preocupação em racionalizar tanto o processo de montagem quanto o de desmontagem do edifício, especialmente na definição das junções entre os materiais e na adoção de encaixes e fixações mecânicas. A arena foi construída a partir de uma estrutura metálica aparafusada sobre uma grande laje de concreto armado moldada no local, sustentada por perfis metálicos estaqueados, com os elementos estruturais preparados em fábrica.
A fundação com estacas metálicas garantiu agilidade e precisão na fase inicial da obra, algo fundamental para cumprir o cronograma. Sobre a laje maciça de 25 cm apoiam-se as arquibancadas e as lajes superiores em estrutura pré-moldada de concreto armado. O núcleo do edifício é composto por nove pórticos metálicos treliçados, responsáveis por assegurar a estabilidade da construção. Com vão livre de cerca de 87 m e altura aproximada de 25 m, esses pórticos sustentam a cobertura e também dão suporte às arquibancadas.
Embora modular e ortogonal, o sistema construtivo foi concebido para permitir certa flexibilidade espacial, favorecendo o reaproveitamento das peças estruturais na construção das escolas.
Cabe destacar, no entanto, que entre 2017 e 2021 a arena não foi desmontada conforme previsto, e muitos componentes não chegaram a ser armazenados adequadamente em função das prioridades da gestão municipal. Somente a partir de 2022 o processo de desmontagem foi retomado, permitindo que cerca de 25% dos componentes da arena fossem reutilizados na construção das quatro escolas municipais. Outros 50% foram recondicionados para reciclagem ou reutilização em diferentes equipamentos da cidade, enquanto os 25% restantes foram descartados.
MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Houve descobertas na obra que impactaram o projeto? Se sim, estas foram atualizadas em desenhos técnicos ou somente decididas em obra?
G.M. e A.P. – Não, os autores tiveram uma participação limitada no processo de construção e implementação da obra. Esse é um problema recorrente e reflete, em grande medida, a própria legislação que rege as contratações públicas no país.
Como em qualquer obra de grande escala e com cronograma bastante rígido — especialmente no contexto olímpico — surgiram ajustes e decisões tomadas durante o processo construtivo. Essas adaptações foram incorporadas ao andamento da obra e, quando necessário, atualizadas na documentação técnica.
No entanto, o maior impacto ocorreu posteriormente, na complexidade dos processos de desmontagem da arena, armazenamento e reaproveitamento dos componentes previstos em projeto. Todo esse processo acabou se estendendo por cerca de seis anos, período no qual parte significativa dos elementos destinados à reutilização foi perdida.
Esse foi o caso, por exemplo, das placas cimentícias, que se deterioraram com o tempo e as condições de armazenamento, além de parte da estrutura metálica que acabou sendo leiloada antes mesmo do início do processo de desmontagem e reaproveitamento conforme originalmente planejado para a construção das escolas.
MDC – Além dos ganhos ambientais, houve ganho financeiro ou de prazo da obra devido a manutenção de elementos pré-existentes? Em algum momento a completa demolição foi cogitada?
G.M. e A.P. – A proposta de desmontagem e reaproveitamento partia principalmente da intenção de reduzir o impacto ambiental e evitar que a arena se tornasse um equipamento obsoleto após os jogos. Ao mesmo tempo, o reaproveitamento de componentes e materiais também representava uma maneira de otimizar recursos públicos, transformando uma estrutura concebida para um evento temporário em novos equipamentos educacionais permanentes.
É importante reconhecer, no entanto, que processos dessa natureza ainda enfrentam desafios institucionais e operacionais significativos, sobretudo em um contexto como o brasileiro, onde a cultura da desmontagem e do reuso ainda não está plenamente incorporada às práticas correntes da construção civil.
A desmontagem e posterior remontagem com reaproveitamento de materiais pré-existentes impõem exigências técnicas e logísticas específicas, que muitas vezes não encontram equivalência direta nos procedimentos usuais das construtoras. Trata-se de um processo que demanda um nível elevado de controle, planejamento e compatibilização entre projeto e obra.
Ainda assim, vale destacar que a possibilidade de uma demolição completa nunca esteve no horizonte político que orientou o projeto. Desde o início, a arena foi concebida como uma estrutura temporária, cujo desmonte e reaproveitamento constituíam parte essencial de sua lógica arquitetônica.
MDC – Vocês destacariam algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
G.M. e A.P. – Talvez o aspecto mais relevante seja justamente a concretização dessa transformação. Após sediar as competições olímpicas e paralímpicas, a arena — que teve enorme visibilidade e serviu de pano de fundo para muitas das emoções que um evento dessa magnitude pode evocar — renuncia à sua permanência como equipamento esportivo e se converte em edifícios educacionais de caráter público, um programa arquitetônico nobre por excelência.
Hoje, ver o espaço de aprendizado cotidiano — uma escola de bairro — ocupar o lugar que um dia foi palco de um espetáculo esportivo de escala global é, sem dúvida, algo contrastante e estimulante. Esse processo evidencia como um edifício pode atravessar diferentes ciclos de vida e continuar contribuindo para a cidade, evitando tanto o desperdício de recursos quanto a produção de estruturas abandonadas.
Apesar dos tropeços ao longo do processo, trata-se de uma experiência ainda tímida, mas ao mesmo tempo desafiadora e necessária, que aponta para novas possibilidades de pensar o legado de grandes eventos e o potencial de transformação da arquitetura ao longo do tempo.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?
G.M. e A.P. – A experiência acumulada certamente permitiria aprofundar algumas estratégias, sobretudo no que diz respeito ao planejamento institucional e logístico dos processos de desmontagem e reaproveitamento. Hoje há um debate mais amplo sobre economia circular na construção civil e ferramentas digitais de rastreamento de materiais, o que poderia ampliar ainda mais o potencial de reutilização dos componentes.
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?
G.M. e A.P. – No contexto brasileiro, a Arena do Futuro representa uma experiência relativamente rara de aplicação concreta dos princípios de desmontagem e reaproveitamento em um edifício de grande escala. Embora o debate sobre sustentabilidade esteja cada vez mais presente na arquitetura contemporânea, ainda são poucos os projetos que incorporam desde o início a lógica da circularidade dos materiais e da transformação programática dos edifícios. Nesse sentido, a arena contribui para ampliar esse debate e apontar caminhos possíveis para a prática arquitetônica.
O principal desafio, em virtude da natureza efêmera do edifício esportivo, foi conceber um sistema construtivo capaz de permitir a reutilização de seus elementos na edificação de quatro escolas públicas municipais após as Olimpíadas, implantadas em regiões de elevada vulnerabilidade social. Desde o início, o projeto buscou integrar conceitos como transitoriedade, flexibilidade, mutabilidade e adaptabilidade, orientando tanto as decisões projetuais quanto as soluções construtivas.
Temos a convicção de que a dinâmica adotada para a concepção e construção desse equipamento contribui de forma significativa para a redução da geração de resíduos e para a otimização de recursos, ao mesmo tempo em que abre novas perspectivas no campo da arquitetura e do urbanismo — áreas que ainda carecem de um debate mais aprofundado sobre o ciclo de vida dos edifícios e o potencial de reuso de seus componentes.
Ao mesmo tempo, essa experiência evidencia como ainda há muito a avançar dentro do nosso campo disciplinar, especialmente no que se refere aos modelos de contratação de projetos executivos e ao acompanhamento de obras públicas no Brasil.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
G.M. e A.P. – Talvez o aspecto mais importante seja entender que projetos como esse não se resumem a uma solução técnica ou construtiva. Eles implicam uma mudança cultural mais ampla na forma como pensamos a arquitetura e a cidade. Questionar a ideia de que os edifícios precisam ser eternos abre espaço para imaginar uma arquitetura mais adaptável, capaz de responder às transformações sociais, ambientais e econômicas do nosso tempo.
ficha técnica
Projeto: Arena de Handebol e Golbol Jogos Olímpicos Rio de Janeiro 2016 e sua transformação em quatro escolas municipais
Localização da arena: Av. Embaixador Abelardo Bueno, s/nº, Parque Olímpico, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
Localização das escolas: R. Marlieria, 77-235 – Bangu, Rio de Janeiro – RJ, 21863-340 (GET José Mauro de Vasconcelos); Rua Conceição De Ipanema 14, Santa Cruz, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 23575-080, Brazil (GET Emiliano Galdino); Rua Coxila Rica, Campo Grande, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 23047, Brazil (GET Nelcy Noronha); Rua Velha, Jacarepaguá, Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, 22753, Brazil (GET Mestre Diego Braga).
Ano de projeto: 2013
Ano de construção: 2014
Autores do projeto de intervenção: Ana Paula Polizzo, Gustavo Martins, Geraldo de Oliveira Lopes, Gilson Ramos dos Santos e José Raymundo Ferreira Gomes.
Colaboradores: Felipe Monnerat, Vitor Garcez, Juliana Sicuro, Igor Pio, Janaina Nagot, Jean Boechat, Cristiano Vieira, Honório Magalhães e Jorge De Miguel Maza.
Fotografia: Leo Finotti
Contato: oficina@oficina.arq.br
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colaboração editorial
Alice Bueno
Cecília Ellen
Yohanna Prado
deseja citar esse post?
POLIZZO, Ana Paula. MARTINS, Gustavo. LOPES, Geraldo de Oliveira. SANTOS, Gilson Ramos dos. GOMES, José Raymundo Ferreira. “Arena de Handebol e Golbol para os Jogos Olímpicos Rio 2016 e sua transformação em quatro escolas municipais”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., ago.-2026. Disponível em https://mdc.arq.br/2026/08/25/arena-de-handebol-e-golbol-para-os-jogos-olimpicos-rio-2016-e-sua-transformacao-em-quatro-escolas-municipais/. Acesso em: [inserir data do acesso].

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Edital PRPq 10/2024





























