Por Alexandre Prisco e Paulo Kalil
BRASIL – Projeto executivo
projeto executivo
Requalificação e Restauração da Praça do Terreiro de Jesus (texto fornecido pelos autores)
A Praça do Terreiro pertence ao desenho fundacional da cidade. A cidade de Salvador, naquela época, dividia sua centralidade entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta, tendo, na primeira, a praia, o porto e seus armazéns; e, na segunda, o seu centro administrativo, político e religioso, assim como sua área residencial. A Praça Municipal era o núcleo central da Cidade Alta. Mais ao norte, na mesma cumeada, encontrava-se o Terreiro de Jesus. Ali, estava o antigo prédio do Colégio dos Jesuítas que, no século 19, passou a abrigar a Faculdade de Medicina da Bahia.
Era o maior centro de comunicações da cidade, como proclamava o periódico O Alabama: “Quem quiser saber da vida alheia, vá ao chafariz do Terreiro” (LIMA,1988). O chafariz a que se refere Lima (1988) é um trabalho em bronze feito na França em 1855. Representa a Deusa Ceres da Agricultura e faz parte de uma série de chafarizes implantados na cidade pela Companhia de Água do Queimado, inaugurada em 1857. Salvador foi a primeira cidade brasileira a ter uma concessionária de serviços de distribuição de água potável à população.
Figuras 1, 2 e 3: Fotografias antigas do local
Ao longo do tempo, várias reformas são realizadas na praça do Terreiro de Jesus, posteriormente denominado Praça 15 de novembro.
Em 1948, na gestão do prefeito José Wanderley de Araújo Pinho (1947/1951), é solicitado ao diretor geral do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), Rodrigo de Mello Franco de Andrade, a presença de Roberto Burle Marx na elaboração de projetos para praças e jardins de Salvador.
O projeto de reforma do Terreiro de Jesus, idealizado por Burle Marx a partir de 1948 e iniciado em maio de 1950, propunha a retirada de todo o piso existente e a incorporação de um novo desenho, de formas orgânicas, sinuosas, inovadoras para a cidade e até então pouco conhecidas em projetos de praças no país. Cabe, inclusive, corrigir a bibliografia existente sobre a obra, que aponta 1952 como o ano de elaboração do projeto.
Em outros projetos dessa época Burle Marx utiliza os mesmos princípios, como na Praça de Cataguazes, em Minas Gerais, na Praça Santos Dumont e Largo do Machado, no Rio de Janeiro, sendo o Terreiro de Jesus, o primeiro no Nordeste.
Projeto de Burle Marx e foto antiga do local
O material utilizado no piso, como a pedra portuguesa, os seixos rolados pretos e as conchas da região, assim como a permanência do chafariz existente na praça, reforçariam a identidade do lugar. A sua proposta de um coreto móvel, retirado quando assim se desejasse, e da criação de apenas um canteiro com plantas transformaria o Terreiro em um espaço de encontro das pessoas, e não apenas em local de passagem. Os bancos previstos no projeto seriam dispostos sob as árvores para aproveitamento da sombra existente.
Para Burle Marx, a preocupação com a preservação do patrimônio histórico e cultural e com a manutenção da vegetação existente na elaboração de seus projetos era “também um critério que envolve conhecimento e sensibilidade ”, como afirma Flávio Motta (1986, p. 100) ao se referir ao projeto de 1954 para a Praça do Largo do Machado no Rio de Janeiro, onde foram preservadas e valorizadas as árvores existentes.
Fotografia: Leonardo Finotti
A análise da situação atual e do histórico sugere os seguintes destaques:
1 – A caracterização primordial enquanto local de passagem e, de forma marginal, enquanto local de permanência.
2 – O processo natural e recorrente em todas as cidades, tal como um palimpsesto, onde as “camadas” históricas dos diversos períodos de sua evolução se superpõem. Nesse caso em tela, não foi diferente, diversas transformações ocorreram no espaço, inclusive com mudanças conceituais do estilo de praça, onde os espaços “secos” próprios do período colonial, deram lugar a espaços mais verdes e sombreados, a partir da segunda metade do século XIX.
3 – A importância de Burle Marx no cenário mundial do paisagismo e, por consequência, o que representa para Salvador o seu projeto para o Terreiro de Jesus, único trabalho público realizado na cidade.
4 – A intensa presença de ambulantes e significativa ocorrência de eventos de portes variados, com suas estruturas efêmeras amplamente danosas à manutenção do espaço físico e também espacial.
5 – A perda das suas qualidades urbanísticas e paisagísticas, principalmente, a partir da precariedade funcional (ocupações) e física, onde uma grande confusão visual é o destaque da percepção de qualquer observador.
Fotografias fornecidas pelos autores
Diante de tais constatações, foram estabelecidas as seguintes diretrizes projetuais:
1- em função da qualificação das intervenções já ocorridas na praça, entendeu-se que o melhor caminho a ser utilizado numa proposição de requalificação do espaço atual seria o resgate de algum período histórico onde as funcionalidades e qualidades paisagísticas estivesse presentes, através de um recorte temporal.
2- A escolha pelo resgate do projeto de Burle Marx em detrimento de um recorte temporal relacionado à praça do período colonial se justifica em função de:
. ser uma proposta de praça mais compatível com as necessidades atuais em que um ambiente de convívio e permanência deve se superpor ao espaço de trânsito de pessoas;
. ser um projeto em uma área pública da cidade realizado pelo mais importante paisagista brasileiro e um dos maiores do século 20 no mundo, e ainda por ser o único trabalho dele na cidade. Há também a importância histórica por ser o primeiro desenho orgânico, sinuoso, inovador, característico do Modernismo, realizado no Nordeste.

Planta de situação
Dadas as diretrizes, as principais intenções projetuais para o resgate do projeto de Burle Marx com as atualizações funcionais e paisagísticas necessárias foram:
1 – A reintrodução do canteiro com jardim de formas sinuosas, na parte sudeste da praça. O desenho original é reintroduzido, assim como as espécies vegetais propostas.
2 – A recuperação e o resgate do calçamento proposto, onde os desenhos são refeitos fidedignamente, além dos seus formatos, cores e tipos de pedra. Exceção feita ao método construtivo na execução da faixa de conchas.
3 – A remoção do gradil que circunda a fonte, devolvendo para a cidade e usuários da praça o contato direto com esse belo equipamento público.
Embora emblemático, entendemos que o projeto de Burle Marx, precisa passar por algumas modificações que possibilitem sua adaptação às demandas atuais. Nesse sentido, novas ações projetuais foram previstas, tais como:
. a introdução de rampas curvas nas esquinas da praça, permitindo acessibilidade mais franca e próxima às principais linhas de fluxo de pedestres que chegam ao Terreiro;
. a eventual atualização do mobiliário proposto originalmente e de caixas do piso. O mobiliário urbano deve ser contemporâneo desde que considere a “alma” dos elementos propostos por Burle Marx;
. o resgate parcial da arborização proposta originalmente, com o plantio das árvores e palmeiras previstas, proporcionando um significativo aumento da área sombreada da praça e, portanto, da área condizente com a permanência das pessoas. Nesse sentido, foi proposto o plantio de palmeiras imperiais e o transplante das palmeiras reais existentes para outras áreas públicas da cidade. Foi proposta também modificação da implantação de algumas árvores situadas no cone de visão entre a Igreja de São Francisco e a Catedral Basílica, dois dos mais importantes exemplares da arquitetura religiosa da cidade.
Fotografias: Leonardo Finotti
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Alexandre Prisco
MDC – Como você contextualiza essa obra no conjunto de toda a sua produção?
A.P. – Essa obra é fruto de uma de diversas parcerias que construímos com colegas parceiros, arquitetos ou profissionais de outras áreas. O projeto em tela foi objeto da dissertação de mestrado do arquiteto paisagista Paulo Kalil. Quando a licitação foi lançada, ele nos convidou a participar junto com ele.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?
A.P. – Licitação.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Você destacaria algum momento significativo do processo?
A.P. – Não, porque se tratou de uma atualização, digamos assim, do projeto original de Burle Marx. Em relação ao projeto original, muito do que foi projetado foi restaurado; outros itens, como rampas e mobiliário urbano, foram introduzidos; e poucos foram alterados: destaco o reposicionamento das árvores projetadas por Burle Marx para desobstruir a visão entre a Igreja de São Francisco e a Catedral Basílica da cidade, legado importante a ser preservado da cidade fundacional, típico da cidade portuguesa.
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores?
A.P. – Sim, claro! Sobretudo paisagismo e iluminação.
MDC – Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, pode comentar as mais importantes?
A.P. – Não.
MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Se sim, quais os momentos decisivos dessa participação?
A.P. – Sim, tivemos. Destacaria a validação das pedras de pavimentação, sobretudo o seixo rolado preto e as conchas de marisco.
MDC -Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
A.P. – A obra propiciou espaços de descanso, convivência e contemplação.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, faria algo diferente?
A.P. – Creio que não.
MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?
A.P. – O mais importante, foi recuperar um dos primeiros projetos deste mestre da arquitetura paisagística mundial e disponibilizá-lo para o uso dos cidadãos soteropolitanos e turistas.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostaria de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
R.G. – No aspecto positivo: o interesse da municipalidade em resgatar esse projeto respeitando sua história e valor arquitetônico; e a satisfatória qualidade na execução da obra, muitas vezes incomum em Salvador. No aspecto negativo, a falta de conservação da gestão pública e de alguns dos permissionários do comércio informal que danificam o patrimônio público.
ficha técnica
Local: Pelourinho – Salvador, BA
Ano de projeto: 2018
Ano de construção: 2019
Arquitetura: Alexandre Prisco e Paulo Kalil
Colaborador: Rodrigo Motta
Iluminação cênica: Leonardo de Castro Harth – Arquiteto e Urbanista
Drenagem: Ajax Lopes Sampaio Pedreira – Engenheiro Civil
Paisagismo: Paulo Costa Kalil – Arquiteto e Urbanista
Construtor: Pejota Construções
Fotos: Leonardo Finotti
Contato: alexandreprisco@aeparquitetura.com
Exposições: Revista Compasses / Andrea Pane
galeria











colaboração editorial
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PRISCO, Alexandre. KALIL, Paulo. “Requalificação e Restauração da Praça do Terreiro de Jesus”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., fev-2026. Disponível em https://mdc.arq.br/2026/02/11/requalificacao-e-restauracao-da-praca-do-terreiro-de-jesus/ . Acesso em: [incluir data do acesso].

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