Por GOAA – Gusmão Otero Arquitetos Associados
BRASIL – Intervir no Construído
projeto executivo
Reforma Casa Claudio Fuzaro (texto fornecido pelos autores)
O projeto para esta residência parte da vontade de se estabelecer uma conversa entre a casa existente e as novas adições programáticas que atualizaram a casa às novas necessidades dos moradores. O projeto se focou na reforma da edícula, peculiarmente localizada na frente da casa e cuja fachada cega, voltada para a rua, continha um grafite feito por dois artistas do bairro e valorizado pelo cliente.

Fotografias: Pedro Vannucchi
Situações existentes, demolições e novas instalações
Logo, o partido preserva as construções principais da casa e edícula assim como o grafite; entendemos que as novas adições deveriam se destacar da casa que lá estava, marcando sua origem e cronologia distintas, mas que não se sobrepusessem ao existente. Ao contrário, os novos volumes propostos preservam a morfologia da casa e da rua, integrando os novos moradores na vizinhança.
Fotografias: Pedro Vannucchi
Como primeira medida foram retiradas as construções provisórias que existiam na área externa da casa, seguida pela reorganização das aberturas, portas e janelas, buscando integrar de forma fluida os espaços internos e externos.
Novas articulações externas


Fotografias: Pedro Vannucchi
Foram readequados os níveis dos pátios e corredores buscando criar espaços abertos mais generosos e, aproveitando o movimento de terra, foi implantada uma cisterna para captação de águas pluviais, que exigiu uma reconfiguração do sistema de abastecimento de águas da residência.



Fotografias: Pedro Vannucchi
Por último dois movimentos finais fecham o percurso: a multiplicação da área externa através da criação de um terraço em cima da antiga edícula e a abertura direta da cozinha para a área externa por meio da criação de uma nova circulação.
Fotografias: Pedro Vannucchi
O projeto busca contrastar as novas adições revestindo-as em madeira que por sua vez surgem na fachada da rua como mensageiros desta intervenção, respeitando a morfologia do bairro e o muro de grafite.


Fachada existente com grafite e Fachada proposta
Cria-se um cenário novo na articulação entre pátio, jardim, terraço e programas residenciais ressignificando a relação dos volumes da antiga residência na Vila Anglo.



Fotografias: Pedro Vannucchi
Fotografias: Pedro Vannucchi
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Ricardo Gusmão
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?
R.G. – Este foi um dos primeiros trabalhos que fizemos. Olhando retroativamente, acredito que ele contenha questões que também desenvolvemos em projetos seguintes e que continuam a informar a produção do meu escritório até hoje, algumas com ainda mais força. Por exemplo, priorizar a preservação e reforma das construções originais antes de demolir o que estava lá continua sendo um tema nos trabalhos que desenvolvemos, assim como a busca por um diálogo harmônico (embora por vezes carregado de contrastes) entre as novas intervenções e seu contexto físico e histórico. Vejo como a proposta de uma circulação “escheriana” que se desenvolve diagonalmente no espaço e propõe novos pontos de vista e a ocupação das coberturas para desfrute humano também tem continuidade em diversos projetos que fazemos até hoje. Mas acredito que o principal ensinamento que o desenvolvimento deste projeto trouxe tenha sido a importância de uma escuta cuidadosa tanto para o contexto quanto na conversa com as pessoas que vão aproveitar os espaços propostos. A centralidade em criar espaços gostosos para pessoas usarem, que foi um dos principais assuntos deste projeto – como transformar espaços esquecidos em espaços com sentido e pertencimento – norteia a produção do escritório até hoje.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?
R.G. – Foi uma contratação direta. Por recomendação de uma amiga fui um dos arquitetos a conversar com a cliente, que nos escolheu.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Em que aspectos a pré-existência teve impacto sobre o ato de projetação e se diferencia de um projeto novo?
R.G. – Inicialmente nos deparamos com uma situação difícil: espaços labirínticos muito entrecortados por construções temporárias e sem qualidade, falta de verba e um primeiro objetivo de projeto muito restrito. Mas logo nas conversas iniciais ficou clara a importância que aquele lugar tinha para a cliente e que fazer uma intervenção mais significativa, ainda que econômica, era o que ela realmente queria. Foi quando demos um passo para trás e convocamos, para nos inspirar, algumas praças italianas como referência; onde a sequência de espaços que se comprimem para depois se expandir nos mostrava uma possibilidade de trabalhar com a diversidade espacial. A partir dessa perspectiva vimos esse projeto como uma oportunidade única de pensar uma arquitetura de percurso, de espaços heterogêneos e de diálogo entre o existente e o novo, uma arquitetura aberta que pode ser usada de diversas maneiras.
MDC – Qual o nível de informação prévia recebida ou levantada sobre as condicionantes da edificação pré-existente (instalações, estrutura, estado de preservação)? A falta de alguma informação em algum momento foi prejudicial ao processo de projeto?
R.G. – Não tínhamos quase nenhuma informação no papel e, portanto, fizemos nós mesmos os levantamentos necessários das construções existentes. Esse levantamento, apesar de aparentemente fugir um pouco da nossa atividade principal de projeto, nos ajudou muito a entender cada centímetro da casa, seus espaços, suas proporções e todos os seus elementos constitutivos. Ao longo da obra novas inspeções técnicas foram feitas pelo construtor para verificar estrutura e fundação.
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?
R.G. – Nós fizemos todo o projeto arquitetônico e definimos junto ao construtor a estratégia para estrutura e instalações. Em uma reforma muito deve ser adaptado em obra, pois é muito comum encontramos algo inesperado ou que estava oculto em um primeiro momento. É também a partir desses descobrimentos, dessa arqueologia das construções existentes, que tentamos extrair a expressão arquitetônica de nossas intervenções.
MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Houve descobertas na obra que impactaram o projeto? Se sim, estas foram atualizadas em desenhos técnicos ou somente decididas em obra?
R.G. – Acompanhamos a obra do inicio ao fim. Mesmo sem responsabilidade técnica sobre a construção participamos de todas as conversas e decisões sobre a construção do nosso projeto. Em reformas dessa natureza é muito comum a descoberta de novos elementos, limitações estruturais da construção existente ou qualquer outra informação relevante para o projeto. Não vejo essas descobertas como algo que atrapalha o projeto original, mas sim como mais um elemento que vamos incluir na conversa para (re)elaborar o projeto. Em reformas, o projeto e a obra podem andar muito juntos, sempre trocando informações, impressões, potencialidades ocultas…
MDC – Além dos ganhos ambientais, houve ganho financeiro ou de prazo da obra devido a manutenção de elementos pré-existentes? Em algum momento a completa demolição foi cogitada?
R.G. – Neste caso não contemplamos a possibilidade de demolição completa, a escolha pela reforma já estava posta desde o início. Como consequência tivemos alguma economia nos custos com estrutura e fundação, que corresponde a uma parcela significativa do orçamento de uma obra. Por outro lado, por conta dos imprevistos naturais de uma reforma, o prazo pode ter se alongado um pouco.
MDC – Vocês destacariam algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
R.G. – Gostamos muito do espaço da casa assim que a obra foi concluída; com lugares acolhedores, mas provocativos, conseguimos realizar neste projeto muitas das nossas intenções originais. Depois de alguns anos, pedi à cliente fotos da casa em uso para usá-las em uma palestra. As fotos que recebi são as que melhor representam a casa. Pois mostram a casa totalmente em uso, espontâneas e sem montagem para foto, apenas espaços gostosos e descomplicados que podem ser aproveitados tanto por apenas uma pessoa, quanto por um casal, uma festa, uma roda de samba, um bloco de carnaval… a pluralidade de usos da casa me encantou, então eu destacaria a capacidade destes espaços abertos, sem programa pré-definido, funcionarem como uma base que abriga a imprevisibilidade da vida humana.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?
R.G. – Esse foi um dos primeiros projetos que fizemos, então houve muito aprendizado de ordem prática, comercial e administrativa a partir desse momento. Mas sinto que a energia e a dedicação convocadas na etapa de formulação do problema e de achar a essência do projeto permanece a mesma. O partido de preservar as construções existentes e propor novas peças que conversem com seu entorno também se mantem até hoje. Elaboramos linhas de pesquisa neste projeto que continuam muito relevantes para a produção do escritório.
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?
R.G. – Mesmo com forte tradição moderna, a produção contemporânea brasileira tem se debruçado sobre o tema do reuso e da reforma de construções existentes. Acredito que este projeto se alinha e se junta a estas vozes que não partem a priori de uma tabula rasa, mas que buscam baliza e referência no que já existe para propor o novo.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
R.G. – Tenho muito respeito pelas construções onde vamos intervir: especiais ou ordinárias, contam histórias de um tempo que já não é. Relações materiais e sociais estão ali realizadas em um imóvel. De certa maneira nossa memória coletiva depende desse dialogo para sobreviver.
ficha técnica
Local: Vila Anglo – São Paulo, SP
Ano de projeto: 2014
Ano de construção: 2015
Área: 70 m²
Arquitetura: GOAA – Gusmão Otero Arquitetos Associados | Ricardo Gusmão, Guido Otero
Colaboradores: Felipe Barradas, Murilo Zidan, Raul Aguiar
Engenheiro civil: Francisco da Silva Alves
Marcenaria: Marcenaria Assis
Serralheria: Serralheria CYW
Esquadrias: Brigato.
Fotos: Pedro Vannucchi
Contato: contato@goaa.com.br
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colaboração editorial
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GUSMÃO, Ricardo. OTERO, Guido. “Reforma Casa Claudio Fuzaro”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., jun-2025. Disponível em https://mdc.arq.br/2025/06/13/reforma-casa-claudio-fuzaro/↗ . Acesso em: [incluir data do acesso].

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