Por Laurent Troost
BRASIL – Intervir no Construído
projeto executivo
Galpão Tropical (texto fornecido pelo autor)
Localizado em um bairro popular e industrial da cidade de Manaus, caracterizado por moradias e galpões de todo tipo, este projeto de escritório de arqueologia junto com área de lazer é uma reinterpretação da tipologia industrial para criar um manifesto da necessária reaproximação do urbano com a Natureza na capital geográfica da Amazônia.



Fotografias: Joana França
A releitura da tipologia industrial foi feita por uma sequência de pórticos tridimensionais, feitos de vergalhões lisos, servindo como guias para o crescimento de varias espécies de trepadeiras que, ao crescer rapidamente, definem um espaço de pé direito duplo, um “galpão”, e, ao mesmo tempo, sombreiam a área de lazer e o escritório, criando um microclima tropical, arejado e refrescante.
Fotografias: Joana França
As trepadeiras nascem de floreiras na duas laterais do lote, onde também foi preservada uma árvore pré-existente, deixando o centro do lote totalmente livre para qualquer ocupação. A velocidade com a qual as trepadeiras cresceram garantiu um rápido uso sombreado da área de lazer, mesmo sendo muito exposta ao duro sol equatorial da tarde.

Planta do térreo




Evolução das trepadeiras: entrega da obra, 4 meses, 8 meses e 12 meses.
Além deste aspecto benéfico relativo ao uso de plantas, o paisagismo é produtivo, já que boa parte das espécies utilizadas no ambiente são PANCs (plantas alimentícias não convencionais): thunbergia grandiflora, lambari-roxo, bastão do imperador, taiobas, maracujás, maranta, etc.




Fotografias: Joana França
Pela parte da frente, a área de lazer se esconde por trás de uma fachada vazada de tijolos maciços que deixam passar os ventos predominantes e revelam discretamente a profundidade do lote sem desvendar todos seus detalhes
Fotografias: Joana França. Elevação norte e corte transversal
A área de lazer é composta de um balcão-mesa com churrasqueira integrada, de uma área com ducha e redes, além de uma pequena piscina. Esta área de lazer funciona tanto para a casa do lote vizinho e interconectado onde moram as proprietárias, como antessala do escritório localizado no fundo do lote. Na prática, a mesa da área de lazer se tornou também um espaço de reunião e/ou trabalho adaptado ao “novo normal” pós-pandemia por ser arejado e ao ar livre.



Fotografias: Joana França
Nos fundos do lote, o escritório de arqueologia ocupa o vão central com mesas de trabalho e reuniões, enquanto uma parede de tijolos maciços serpenteia entre interior e exterior para definir nas laterais do lote os jardins e os espaços técnicos (banheiro, copa, depósitos). Esta parede de tijolos maciços serpenteando é ora vazada para garantir a ventilação cruzada de todos os ambientes e ora fechada para definir espaços fechados ou impedir as vistas cruzadas das aberturas nas laterais dos muros vizinhos.

Fotografia: Joana França
O pé direito duplo de parte do escritório permite buscar mais luz e amplitude neste lote de um pouco mais de 5m de largura. Aberturas para os jardins em ambas laterais complementam a luminosidade além de permitir ventilação cruzada de todos os ambientes do escritório.


Fotografias: Joana França
Em complemento aos aspectos de sustentabilidade low-tech descritos acima, a cobertura da área gourmet, que parece flutuar entre os pórticos de trepadeiras, recebeu um sistema de irrigação automatizada que joga a agua da chuva coletada por cima da telha sanduiche para esfriar fisicamente o espaço de lazer / trabalho. Sem calha, a cobertura deixa esta agua de irrigação cair nos canteiros laterais e, com o barulho que isso gera, acaba refrescando também psicologicamente os usuários, aprimorando a sua sensação de bem estar.

Corte longitudinal leste
Em poucas palavras, a reinterpretação tipológica proposta para este projeto, além de proporcionar espaços flexíveis e livres, gerou um convívio intenso com um ambiente tropical sensorial, propondo uma nova forma de se relacionar com a Amazônia em ambientes urbanos, um tema emergente já que estes últimos anos viram a maioria da população vivendo na Amazônia passar de rural a urbana.
Fotografias: Joana França
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Laurent Troost
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?
L.T. – Eu acho que é uma obra chave porque ela foi a transformação — ou a realização — de várias
experimentações que vínhamos fazendo numa escala muito pequena, em obras privadas ou
próprias. Foi a primeira vez que experimentamos uma escala um pouco mais real dessa
tentativa de fazer crescer a vegetação em estruturas. Foi uma obra que nos ajudou a ganhar
confiança perante um sistema — a botânica — que depois escalamos no nível maior do prédio.
Então eu acho que ela foi uma obra muito chave no percurso da produção do escritório.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?
L.T. – O mecanismo de contratação do projeto foi contratação direta.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Em que aspectos a pré-existência teve impacto sobre o ato de projetação e se diferencia de um projeto novo?
L.T. – Rapidamente foi entendida a necessidade de criar uma relação volumétrica com a edificação ao
lado em termos de altura, de proporção, de verticalidade e também de deixar a luz alcançar
janelas que davam para o lote. Apesar de serem ilegais, não queríamos brigar com essa condição
preexistente e sim incorporar as janelas em nosso desenho para poder manter uma boa relação
de vizinhança. Isso se diferencia de um projeto novo, eu diria, apesar de ter claramente uma
parte bastante nova. Também buscamos soluções de integração, por exemplo, de fluxos, de
cobertura e do sistema de sombreamento para a parte frontal da casa existente. Foram várias
interrelações entre o novo e o preexistente.
MDC – Qual o nível de informação prévia recebida ou levantada sobre as condicionantes da edificação pré-existente (instalações, estrutura, estado de preservação)? A falta de alguma informação em algum momento foi prejudicial ao processo de projeto?
L.T. – Nenhuma informação foi recebida, a gente mesmo levantou a arquitetura primeiramente
fazendo um levantamento, vamos dizer, na trena, na marra! Rapidamente nos demos conta de
que havia uma dificuldade devido ao fato de que esse lote e essas construções preexistentes eram de autoconstrução, então muito pouca coisa tinha esquadro, e então entramos com um
levantamento topográfico para tentar amarrar um pouco melhor as poligonais originais. Depois,
foram várias complementações de informação levantadas por nós mesmos, porque realmente
não existia nenhum tipo de documentação. A falta de informação afetou até o momento de
locação da obra, quando nos demos conta de que, mesmo com o levantamento topográfico
combinado com o nosso, ainda havia algum nível de imprecisão de medidas. Então tivemos que
fazer uns alinhamentos e ajustes de locação de obra, mas eu não diria que foi prejudicial, acho
que faz parte desse tipo de obra no preexistente.
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?
L.T. – Sim, eu chamaria de engenharia e outros complementares, como o paisagismo, por exemplo,
pois a solução dos pórticos veio da arquitetura, não do paisagismo. Foi um desejo de gerar algo
de paisagismo, mas desenhado pela equipe de arquitetura. Os projetos de engenharia foram
muito acompanhados por nós: obviamente trabalhamos na compatibilização para garantir que
não houvesse tubulações demais passando nos canteiros, etc, mas também houve um
refinamento muito meticuloso na questão estrutural, tanto na definição e execução dos pórticos,
feitos de vergalhão — o que era uma solução totalmente fora do padrão que tínhamos testado em
outro local, mas que o próprio engenheiro não estava seguro e não queria muito fazer, para o que
a gente teve que insistir muito —, como na ideia de usar o tijolo como estrutura, só pelo desenho
da forma das paredes. Conseguimos fazer isso no pavilhão da frente, mas no bloco de trás o
engenheiro insistiu para que houvesse quatro ou seis colunas para estruturar o volume superior.
Era algo que a gente não queria; a gente tentou, tentou, tentou, mas não conseguiu. Uma outra
intervenção forte nas fase de interlocução entre engenheiro e arquiteto foi sobre o telhado meio
que flutuante por cima da área gourmet: queríamos que fosse suspenso apenas pelos pórticos de
vergalhão, mas não passou, então inventamos uma solução para disfarçar as colunas dentro do
sistema de pórticos. Ao fim, houve modificações, que foram acompanhadas por nós e com as
acabamos concordando.
MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Houve descobertas na obra que impactaram o projeto? Se sim, estas foram atualizadas em desenhos técnicos ou somente decididas em obra?
L.T. – Sim, sempre participamos, especialmente dos projetos de pequena escala com certo grau de
investigação. Sempre participamos, sempre recomendamos e indicamos, inclusive, os
profissionais que vão construir. Nesse caso foi uma equipe que já constrói há 10 anos para nós,
então a equipe tinha uma grande sintonia e não houve grandes surpresas. Obviamente houve
ajustes na obra, mas a gente não ajustou isso em desenhos técnicos, era muita coisa resolvida na
própria obra, com soluções até desenhadas no tapume, na parede, soluções rápidas e inteligíveis
para todo mundo.
MDC – Além dos ganhos ambientais, houve ganho financeiro ou de prazo da obra devido a manutenção de elementos pré-existentes? Em algum momento a completa demolição foi cogitada?
L.T. – Acho que essa questão não se aplica tanto a esse projeto. Eu posso dizer que propusemos, por
exemplo, revisar o telhado da casa existente para poder integrar com a volumetria que estava
sendo proposta. Revisamos a platibanda, revisamos algumas coisas na casa existente ao lado,
mas nunca cogitamos a demolição completa da casa do lado, porque é a casa onde moram as
proprietárias. Sobre eventual ganho financeiro de prazo de obra, entendo que não se aplica
nesse caso.
MDC – Vocês destacariam algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
L.T. – Eu acho que sim: é importante dizer que a vegetação cresceu muito mais rápido e muito mais do
que imaginávamos, o que gerou não diria um desentendimento, mas visões distintas entre a
nossa equipe de arquitetura e as proprietárias. Nós gostaríamos de manter os pórticos mais
marcados com a vegetação e deixar um vão um pouco mais livre; elas preferem quando isso se
torna uma nave só, então pedem menos manutenção do que tínhamos imaginado, e por isso está
mais salvagem do que a gente imaginava. Eu acho que isso é interessante, às vezes os próprios
clientes querem uma coisa mais radical do que a gente imagina.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?
L.T. – Não. Faria igualzinho!
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?
L.T. – Acho que isso não sou eu que deveria avaliar, mas entendo que essa obra tem relevância porque,
do que conheço da produção brasileira, é a primeira obra onde a vegetação é utilizada para
definir volumes e definir vazios, não apenas um revestimento de parede ou de fachada. A
vegetação está sendo utilizada de forma arquitetônica além de ter o propósito, obviamente, de
proteção ambiental. Apesar de ser muito pequenina, ela vem com essa nova forma de pensar a
vegetação, essa tipologia de “arquiteturar” a natureza. Tanto é que ela é um marco para nós no
escritório e, a partir dela, começamos a desenvolver outros tipos de projetos baseados nesse tipo
de definição de volumetrias cheias ou vazias que definem espaço com a natureza. A gente tem
vários projetos em andamento nessa linha hoje.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
L.T. – Sempre gosto de acrescentar que se trata de uma arquitetura-paisagem produtiva, já que usamos plantas alimentícias não convencionais — PANCs — que podem ser comidas.
ficha técnica
Local: Manaus – AM
Ano de projeto: 2020
Ano de construção: 2021
Autor do projeto original (preexistência): sem autoria
Data do projeto original: autoconstrução ao longo dos últimos 40 anos
Autor do projeto de intervenção / reforma: Laurent Troost
Colaboradores: Ingrid Maranhao e Raquel Brasil
Engenheiro civil: Daniel Adolfs
Paisagismo: Hana Eto Gall e Laurent Troost
Projetos Complementares: Rafaela Lima
Coordenação da obra: Helena Rabello e Daniel Herzson
Fotos: Joana França
Contato: laurenttroost@gmail.com
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colaboração editorial
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TROOST, Laurent. “Galpão Tropical”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., out-2025. Disponível em https://mdc.arq.br/2025/10/25/galpao-tropical/ . Acesso em: [incluir data do acesso].

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