Casa Refúgio

Por Fernanda Neiva, Fernanda Palmieri e Gil Mello
BRASIL – Intervir no Construído
7–10 minutos

projeto executivo

PROJETO EXECUTIVO
COMPLETO

10 pranchas (pdf).
6,08mb


Casa Refúgio (texto fornecido pelos autores)

No topo de um terreno em aclive, com mais de 16m de desnível, encontramos uma casa térrea dos anos 50 em ruínas. A escalada de mais de 13m de altura até a cota de implantação é feita por uma escada tortuosa entremeada por muros de arrimo.

Pré-existência

A avaliação técnica constatou que os muros e paredes eram estáveis, mas não podiam ser sobrecarregados e os arrimos precisavam ser mantidos. Novas fundações também deveriam ser evitadas para não comprometer as estruturas existentes.

Diagrama

A proposta para a casa Refúgio nasceu do entendimento das restrições do terreno e suas potencialidades.

Fotografias: Marcos Vilas Boas

Uma vez que o telhado da existente, de telha cerâmica e estrutura de madeira, estava todo apodrecido, decidimos refazer o telhado mais alto que o existente, de forma a criar um mezanino central dentro da cobertura. Este novo telhado foi projetado em estrutura de madeira com fechamentos leves e apoiado nas paredes existentes.

Corte transversal e vista interna do mezanino. Foto: Marcos Vilas Boas

Obra

A cota do mezanino possibilitou a integração do novo pavimento ao último platô do terreno. Nele fica a parte social da casa, já que este espaço se abre para uma vista privilegiada da cidade de um lado e do outro para um páteo e jardim mais íntimo.

Fotografias: Marcos Vilas Boas

No pavimento inferior foi instalada a área íntima, aproveitando subdivisões de alvenaria já existentes.

Plantas dos pavimentos inferior e superior.


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Fernanda Palmieri e Fernanda Neiva

MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?

F.P. e F.N. – Essa obra é muito representativa de um momento específico do Galeria Arquitetos, quando os sócios eram Fernanda Neiva, Fernanda Palmieri e Gil Mello. Naquele momento não havia no escritório projetos grandes o suficiente para envolver todos os sócios e os trabalhos eram desenvolvidos em parcerias ou independentemente. O projeto da Casa Refúgio foi feito para um casal de amigos sem dinheiro para pagar um projeto completo. Por serem nossos amigos, decidimos fazer o trabalho num processo colaborativo com a participação de todos para diluir os custos, como em um concurso de arquitetura. Projetar assim produz não só as melhores obras, mas as melhores e mais mágicas experiências de fazer arquitetura.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?

F.P. e F.N. – Esse é um projeto residencial para um casal de amigos que se apaixonou por esse terreno difícil na Vila Ipojuca e colocaram todos os recursos que tinham na compra da propriedade que se encontrava inabitável. Inicialmente, não tinham condições de financiar um projeto ou a obra, e precisavam de um estudo de viabilidade para procurar empréstimos. Nós concordamos em receber o valor das fases iniciais de projeto em permuta de serviços. Sem essa flexibilidade o projeto não teria acontecido.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Em que aspectos a pré-existência teve impacto sobre o ato de projetação e se diferencia de um projeto novo?  Qual o nível de informação prévia recebida ou levantada sobre as condicionantes da edificação pré-existente (instalações, estrutura, estado de preservação)?

F.P. e F.N. – A pré-existência foi fundamental no projeto. O terreno tem um aclive de 16 metros, com inclinação de mais de 45%. Uma sucessão de escadas e arrimos já haviam sido construídos para o acesso ao topo do terreno onde foi implantada a casa original. A construção principal existente, construída entre os anos 40 ou 50, era uma casa térrea e em ruínas, implantada num platô 13 metros acima do nível da rua. Além desta construção, havia uma edícula, extremamente precária no nível mais alto a 3 metros acima da casa principal, encostada no muro do fundo do lote. Antes de iniciar o projeto, contratamos um consultor de estrutura para avaliar os muros de arrimo e a construção existente.  A avaliação estrutural previa as seguintes recomendações: 1) manter todos os níveis, muros de arrimos e escadas intocáveis, 2) evitar qualquer intervenção que necessitasse de novas fundações para não desestabilizar as estruturas de contenção existentes, e 3) não sobrecarregar as estruturas da casa existente. A única intervenção possível era a substituição do telhado da casa principal que havia colapsado. Frente a essa limitação, o partido de criar um telhado habitado nasceu quase imediatamente, como se fosse a única solução possível. Propusemos a demolição de edícula e a construção do novo telhado, mas alto, e com um formato que permitia a construção de um segundo pavimento em madeira na parte central e mais alta da cobertura, conectando este novo pavimento com a cota da antiga edícula.

MDC Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autor(xs)? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais?

F.P. e F.N. – O projeto foi desenvolvido dentro do Galeria Arquitetos. Um dos autores, o arquiteto Gil Mello, havia trabalhado com estruturas de madeira durante anos no escritório da Ita Construtora, ao lado do engenheiro Helio Olga e podíamos contar com a sua experiência. A estrutura foi desenhada no escritório, com peças de madeira leves para facilitar a logística da subida de materiais para a obra, e calculada pelo engenheiro Arquimedes Costa.

MDC – X(s) autor(xs) dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Houve descobertas na obra que impactaram o projeto? Se sim, estas foram atualizadas em desenhos técnicos ou somente decididas em obra?  

F.P. e F.N. – Sim, participamos da obra e, de certa forma, a obra foi definidora de grande parte das decisões de projeto. Essa é uma obra de autoconstrução. O cliente, que tinha acesso a uma marcenaria da família, construiu a casa ele mesmo com a ajuda de um empreiteiro e um marceneiro. Toda a madeira foi produzida na marcenaria da família, e os elementos estruturais desenhados e calculados para serem carregados por 2 pessoas.

MDC – Além dos ganhos ambientais, houve ganho financeiro ou de prazo da obra devido a manutenção de elementos pré-existentes? Em algum momento a completa demolição foi cogitada?

F.P. e F.N. -A demolição completa da casa existente ou qualquer intervenção nos muros de arrimo e níveis do terreno foram descartadas assim que recebemos a análise prévia das condições do terreno, o que definiu quase que imediatamente o partido do projeto. Uma vez definido, o desenho foi desenvolvido buscando as melhores soluções frente as limitações existentes: facilitar a subida e descida de material; reduzir a produção de entulho; construir uma estrutura leve para o novo telhado sem sobrecarregar as paredes da construção existentes; criar fechamentos leves; viabilizar a proposta de autoconstrução; e reduzir custos para viabilizar a obra financeiramente. O fechamento em Onduline, por exemplo, foi uma solução de projeto que respondia a essas limitações por ser um material leve e sustentável, térmica e acusticamente mais eficaz que telha metálica, exige menos madeiramento que um telhado tradicional, e é fácil de carregar e instalar sem grandes equipamentos.

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?

F.P. e F.N. – A ideia do telhado habitado, que cria um mezanino no nível superior, sugere uma casa invertida, ou seja, áreas comuns na parte superior (com planta livre), e quartos e áreas intimas na parte inferior, usando as divisões e paredes da casa existente. Isso faz com que o usuário suba a escadaria do terreno – que corresponde a 4 andares de uma construção (13 metros) – desde a rua para chegar à área íntima, e depois suba mais uma escada interna para acessar a sala e cozinha.

Nesse mezanino, um espaço totalmente aberto sob um telhado leve, encontra-se a sala e a cozinha integrados, com acesso ao páteo/jardim dos fundos da casa e com uma linda vista para a cidade. Neste ponto, o usuário se encontra mais perto do céu, das chuvas, ventos e pássaros, do que do chão, dos barulhos e realidades da cidade. Foi esse espaço, ou a experiência de estar nesse espaço, que inspirou o nome Casa Refúgio. 

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, faria algo diferente?

F.P. e F.N. – Impossível imaginar que isso seja possível, que um projeto possa apresentar esse mesmo conjunto de problemas e condições pré-existentes, mesma orientação e limitações de execução, ou a mesma participação e disposição dos clientes. Mas em cada decisão de projeto e da obra houve um grande aprendizado que com certeza informou futuros projetos.

MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?

F.P. e F.N. – A ideia do ático, ou telhado habitado, construído com uma estrutura de madeira leve e tradicional em duas águas, com fechamento monolítico e sem beirais da Casa Refúgio, faz uma referência a arquitetura contemporânea nórdica e do norte da Europa, que reinterpretou a tipologia do celeiro tradicional (barn) dessa região, e propõe novas versões e usos para essas estruturas agrárias que produzem grandes vãos e planta livres com estruturas simples e leves de madeira. Nesse sentido, acho que essa obra, olha para além da produção nacional e traduz e reproduz esses princípios. Poderia se chamar Casa Celeiro.


ficha técnica

Local: Vila Ipojuca – São Paulo, SP
Ano de projeto: 2014
Ano de construção: 2016
Autor do projeto original (preexistência): desconhecido
Data do projeto original: década de 1950
Autor do projeto de intervenção / reforma: Fernanda Neiva, Fernanda Palmieri e Gil Mello
Colaboradores: Karina Almeida e Liliane Nambu


Projeto estrutural:
Arquimedes Costa
Consultoria de fundação: Meirelles Carvalho Engenharia


Fotos:  Marcos Vilas Boas
Contato: fernanda.neiva@galeria.arq.br

Prémios e Exposições: Concorreu ao prêmio IAB-SP 2021 na categoria Edificações


galeria


colaboração editorial

Cecília Ellen

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