Praça das Artes

Por Brasil Arquitetura
BRASIL – Projeto Executivo
6–9 minutos

projeto executivo


PROJETO EXECUTIVO
COMPLETO

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22,52 mb


Praça das Artes (texto fornecido pelos autores)

Há projetos de arquitetura que se impõem soberanos em grandes espaços livres, situações aprazíveis e visíveis à distância. Há também projetos que se acomodam em situações adversas, espaços mínimos, nesgas de terrenos comprimidos por construções preexistentes, sobras de áreas urbanas, projetos em que os parâmetros para seu desenvolvimento são ditados pelas dificuldades. O caso da Praça das Artes se enquadra entre estes últimos.

Nosso projeto nasce de dentro para fora, das entranhas, e se conforma a partir delas; se apresenta à cidade como uma denúncia da falência de um modelo urbano que já não serve, já não funciona na escala da metrópole. Casas ou pequenos edifícios com quintais nos fundos de longos lotes não mais se justificam e acabam dando lugar ao vazio inútil. Buscamos entender o que estava obsoleto, sem uso ou função, o que tinha caducado desse velho desenho urbano, e fazer disso nossa matéria-prima de projeto. Dessa sobra, ou melhor, com esse bagaço que a cidade cuspiu, construímos a praça das Artes.

Croquis

Por isso mesmo, como denúncia, os vazios no rés do chão não foram ocupados, nem mesmo com colunas, criando uma grande passagem pública a céu aberto – um espaço de encontros, a praça que dá nome ao conjunto. Os novos edifícios se apoiam nas bordas dos terrenos, resultado de uma arquitetura que se faz a partir de adversidades e restrições e que não precisa da terra arrasada como pedestal.

O que nos leva a uma escolha e decisão conceitual é, precisamente, a natureza do lugar e sua compreensão enquanto espaço resultante de fatores sociopolíticos ao longo de décadas – ou séculos – de formação da cidade. Compreender o lugar não somente como objeto físico, mas como espaço de tensão, de conflitos de interesses, de subutilização ou mesmo abandono, tudo importa.

Plantas

Se, por um lado, o projeto deveria responder à demanda de um programa de diversos novos usos ligados às artes musicais e do corpo, deveria também responder de maneira clara e transformadora a uma situação física e espacial preexistente, com vida intensa e com uma vizinhança fortemente presente. Mais ainda: deveria regenerar espaços degradados, criar novos espaços de convivência a partir da geografia urbana, da história local e dos valores contemporâneos da vida pública. Podemos dizer que, nesse caso, projetar é captar e inventar o lugar a um só tempo, numa mesma ação.

A partir do centro da quadra, o novo edifício se desenvolve em três direções – Vale do Anhangabaú, avenida São João e rua Conselheiro Crispiniano –, como um polvo a estender seus tentáculos e ocupar espaços. Um conjunto de edifícios em concreto aparente pigmentado, com área total de 28.500 metros quadrados, suspenso sobre as passagens urbanas, é o elemento principal que estabelece um novo diálogo com os edifícios remanescentes da quadra e do entorno.

Cortes

O antigo Conservatório Dramático Musical de São Paulo, um importante marco histórico e arquitetônico da cidade que há décadas estava inutilizado, foi incorporado ao conjunto como sala de recitais e espaço expositivo. Restaurado e reabilitado, esse edifício passou a integrar um complexo de novas construções que abrigam as instalações para o funcionamento das escolas de música e dança e dos corpos artísticos do Teatro Municipal – orquestra sinfônica, corais e balé da cidade, além de centro de documentação, restaurantes, estacionamentos e áreas de convivência.

A implantação desse equipamento cultural, além de atender à histórica carência de espaços para o funcionamento do Teatro Municipal, desempenha papel estratégico na requalificação da área central da cidade, priorizando o pedestre. A partir de um rico e complexo programa de uso, focado nas atividades profissionais e educacionais de música e dança, ele marca fortemente seu caráter público, indutor da convivência e da vida urbana.


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Francisco Fanucci | Brasil Arquitetura (B.A.)

MDC – Como você contextualiza essa obra no conjunto de toda a sua produção?

F.F. – Construção de vazio na região central da metrópole.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?

F.F. – Contratação direta pela Secretaria de Cultura Municipal de São Paulo.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Você destacaria algum momento significativo do processo?

F.F. – O programa era construir espaços para abrigar as Escolas Municipais de Dança e de Música e os corpos estáveis do Teatro Municipal: Orquestra Sinfônica Municipal, Ballet da Cidade, Quarteto de Cordas, Orquestra Experimental de Repertório, Coral Paulistano, Coral Lírico de São Paulo e reformar e restaurar o Conservatório Dramático Musical de São Paulo, um bem tombado. O lugar do projeto era formado por alguns terrenos e pelo miolo da quadra formada pela Avenida São João, da Rua Conselheiro Crispiniano e Rua Formosa (Vale do Anhangabaú). Fruto tardio de um urbanismo de quadras fechadas por casas com quintal, que resultam hoje em áreas fechadas internas submetidas a subutilização, abandono e até mesmo depósitos de lixo a céu aberto, no coração da metrópole. Ao programa adicionamos a abertura de um desses vazios, transformando-o em área pública. Construímos nas bordas desse espaço edifícios elevados em concreto pigmentado na cor de terra, sem pilares, liberando todo o rés-do-chão. Construímos o vazio. Essa a “inflexão conceitual”.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa de autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, pode comentar as mais importantes?

F.F. – Sim. Além do descrito no item acima, foi demolido o edifício anexo de 8 pavimentos construído ao fundo do Conservatório nos anos 1970. Nós só tivemos acesso uma única vez ao Conservatório e seu anexo, autorizado pelos ocupantes, com o acompanhamento de um oficial de justiça, por 1 hora. Posteriormente, quando o imóvel foi desapropriado, com o projeto já praticamente pronto, nova vistoria nos revelou que a estrutura desse edifício anexo estava totalmente comprometida. Sua recuperação estrutural era demasiadamente onerosa e seus espaços internos ficariam inabitáveis. A solução foi sua demolição. E a reconstrução foi feita em concreto pigmentado de vermelho. Outra inflexão.

MDC – Os autores dos projetos tiveram participação no processo de construção/implementação da obra? Se sim, quais os momentos decisivos dessa participação?

F.F. – Sim, acompanhamos a obra diariamente.

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?

F.F. – Sim, o uso contínuo e variado do piso rés do chão, seja por músicos ou bailarinos que ali se apresentam, ou por simples transeuntes que descansam um pouquinho, sob a sombra dos edifícios sobrelevados.

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?

F.F. – Não sei, cada projeto é uma história.

MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da produção da arquitetura contemporânea do seu país?

F.F – Creio que seja uma obra significante e exemplar (há outros vazios fechados esperando abertura), para a revitalização do centro da cidade.

MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostaria de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?

F.F. – Salientar que é possível alargar o programa, fazer o “reprograma”, como dizia Louis Kahn.


ficha técnica

Local: São Paulo/SP – Brasil
Ano de projeto: 2006
Ano da obra: 2012
Arquitetura: Brasil Arquitetura | Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz com Luciana Dornellas; e Marcos
Cartum | Secretaria Municipal de Cultura
Colaboradores: Cícero Ferraz Cruz, Fabiana Fernandes Paiva, Anselmo Turazzi e Carol Silva Moreira
Equipe: Anne Dieterich, Beatriz Marques de Oliveira, Felipe Zene, Fred Meyer, Gabriel Grispum, Gabriel Mendonça, Victor Gurgel, Pedro Del Guerra,Thomas Kelley e Vinícius Spira
Estagiários: André Carvalho, Júlio Tarragó e Laura Ferraz
Desenvolvimento de Projeto Executivo: Apiacás Arquitetos e Yuri Faustinoni, Elcio Yokoyama, Ingrid Taets



Complementares
Projeto Estrutural: FTOyamada
Projeto Fundações: Infraestrutura
Projeto Instalações Elétricas e Hidráulicas: PHE Engenharia
Projeto de Acústica e Cenotecnia: Acústica & Sônica
Projeto Luminotécnico: Ricardo Heder
Projeto Ar Condicionado e Exaustão: TRThermica
Paisagismo: Raul Pereira Paisagismo
Consultoria Impermeabilização: Proassp
Consultoria de Caixilhos: Aluparts
Consultoria Cozinha: Gisela Porto
Painéis de Tapeçaria Mineira | Forro Restaurante: Edmar de Almeida
Luminária “Urucum” | Sala de Concertos: Rodrigo Moreira e Madeeeeira Marcenaria e Serralheria


Fotos: Nelson Kon
Contato: brasilarquitetura@brasilarquitetura.com

Premiações:
2016 | Menção Honrosa Prêmio Latinoamericano de Arquitectura Rogelio Salmona, Fundação Rogelio Salmona, Bogotá, Colômbia


galeria


colaboração editorial

Ana Júlia Freire + Aloísio Silva

deseja citar esse post?

FANUCCI, Francisco. FERRAZ, Marcelo. DORNELLAS, Luciana. CARTUM, Marcos. “Praça das Artes”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., jul-2025. Disponível em: https://mdc.arq.br/2025/07/10/praca-das-artes/ Acesso em: [incluir data do acesso].


Edital 11/2024-PROBIC/FAPEMIG

Edital PRPq 10/2024

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