Por Metrópole_arq
BRASIL – Projeto Executivo
projeto executivo
Casa dos Triângulos (texto fornecido pelos autores)
A Residência Rubem Mendonça – conhecida como Casa dos Triângulos – é obra do final dos anos 1950 e evidencia um processo de reflexão do arquiteto João Batista Vilanova Artigas que será consolidado nos seus trabalhos seguintes, principalmente na FAUUSP . O bloco elevado configura a volumetria geral da construção e abriga um arranjo de pavimentos em meios níveis em torno de um espaço vazio. Tanto na casa quanto na FAUUSP balanços estruturais nas arestas dos volumes conferem leveza em contraponto à massa construída. Na Casa dos Triângulos, o volume superior com estrutura em concreto e fechamento em alvenaria de tijolos recebeu painel artístico projetado por Mario Gruber e executado por Francisco Rebolo, artistas que tiveram atuação relevante no panorama artístico brasileiro do século XX.


Fotografias: Nelson Kon
A casa foi propriedade da Família Mendonça até os anos 2020 quando foi vendida para os atuais proprietários. O projeto apresentado propõe intervenções com o cuidado de preservar os valores reconhecidos da residência ao mesmo tempo que atualiza suas instalações e adapta os espaços para os usos contemporâneos de uma família. Mesmo mantendo a sua função original de residência, a forma de habitar mudou muito desde a construção dessa casa nos anos 1950 para os dias de hoje.


Fotografias: Nelson Kon
Tombada pelo órgão municipal de preservação de patrimônio em 2018 a casa havia passado por diversas intervenções que não foram devidamente documentadas.


Fotografias: Nelson Kon
Dentre as alterações, muitas das quais interferem na compreensão da residência, destacam-se: instalação da cozinha na área onde era a área de serviço; instalação de ambiente de estar onde era a cozinha; pintura com tinta e massa acrílica, inadequada, sobre o painel artístico da fachada; troca dos caixilhos do pavimento superior; cobertura em telha de amianto sobra a laje impermeabilizada.


Fotografias: Nelson Kon
Projeto de Restauro
O projeto elimina as instalações de quarto e banheiro de empregados. Essa diminuição do programa viabiliza uma nova relação com os jardins que circundam a casa. Ao invés de frente social e fundo de serviço a casa fica integralmente relacionada com os jardins, potencializando a expressividade do volume principal, aumentando a circulação, iluminação e ventilação.
Plantas Pavimento Térreo
Plantas Pavimento Superior
A remoção das paredes que conformavam a área de serviços sob o balanço posterior não impacta naquilo que é considerado valor arquitetônico a ser preservado, pois eram paredes divisórias, não estruturais, que já haviam passado por alterações significativas e cuja remoção não contraria o partido arquitetônico.
Cortes Demolição e Restauro
Artigas em outros projetos, como na FAU, estabelece o partido arquitetônico a partir dos elementos em concreto e as áreas mais livremente apropriáveis são demarcadas por paredes não estruturais, passiveis de alteração. A alteração na composição volumétrica na parte posterior, é compensada com a revelação do balanço estrutural e permite uma melhor visualização do painel do volume superior.


Fotografias: Nelson Kon, antes do restauro
Painel Artístico
Uma prospecção no painel artístico permitiu encontrar a tonalidade original da tinta branca e azul e o vestígio da argamassa original. O painel estava em péssimo estado de conservação, com descolamento de argamassa e fissuras em grande quantidade e profundidade.


Fotografias: Silvio Oksman, antes do restauro (à esquerda) e Nelson Kon, após restauro (à direita)
Ranhuras na argamassa revelam as diferenças entre o desenho original e a repintura em tinta acrílica. As jornadas ficaram escondidas atrás da tinta acrílica e foram sublinhados na argamassa após o processo de decapagem. A argamassa de nivelamento foi aplicada para completar as áreas de perda e nivelar a superfície. Foi aplicada tinta mineral à base de silicato para restaurar o painel.

Fotografia: Acervo FAUUSP
Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.
por Equipe Metrópole_arq (M.A.)
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no conjunto de toda a sua produção?
M.A. – O restauro de imóveis da arquitetura moderna brasileira é um dos focos do escritório tendo atuado no edifício do IABsp, no MASP. Faz parte das pesquisas acadêmicas dos sócios que tem na preservação de patrimônio cultural um de seus mais importantes objetivos como atuação na academia e no mercado de trabalho.
MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?
M.A. – Contratação direta privada.
MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Vocês destacariam algum momento significativo do processo?
M.A. – A concepção do projeto parte principalmente da compreensão dos valores existentes na residência projetada por Artigas nos anos 1950. A questão principal era trazer o imóvel para a vida cotidiana dos anos 2020 sem perder os valores reconhecidos. Apesar de se manter residência unifamiliar, a forma de viver mudou significativamente e nesse sentido a casa necessitava de atualizações pequenas, para além das obras de atualização das infraestruturas (hidráulica, elétrica).
MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, podem comentar as mais importantes?
M.A. – Sempre há a interação com os projetos. Nesse caso específico eram ações de pequena intervenção.
MDC – Os autores do projeto tiveram participação no processo de construção/implementação da obra?
M.A. – Todo o restauro foi acompanhando pelos autores. Vale reafirmar que para obras desse tipo (restauro) é fundamental o acompanhamento de obra já que ao longo dos trabalhos sempre aparecem situações imprevistas, ou que tenham que ser revistas.
MDC – Vocês destacariam algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?
M.A. – A residência se mostrou absolutamente adaptável a questões da vida dos novos proprietários. Dois bons itens são a ausência de dependência de empregados e a abertura da cozinha para o espaço de estar, que revelam uma mudança grande na forma de vida de uma família.
MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, fariam algo diferente?
M.A. – Não.
MDC – Como vocês contextualizam essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?
M.A. – Mais do que uma constatação, há uma esperança que de reformas e restauros de imóveis virem uma agenda da arquitetura. São diversas questões: a preservação do patrimônio cultural e a responsabilidade ambiental desse tipo de trabalho que reutiliza matérias que já foram retiradas da natureza, reduzindo os impactos. Essa é uma agenda contemporânea que deve ser reforçada.
MDC – Há algo relativo ao projeto e ao processo que gostariam de acrescentar e que não foi contemplado pelas perguntas anteriores?
M.A. – A desmistificação de duas questões: de que a preservação é mais custosa do que uma obra ordinária e de que um bem tombado é um problema. A solução para essas questões esta principalmente na formação de profissionais que saibam trabalhar com o tema (arquitetos, engenheiros, mão de obra de construção) e na percepção de que um edifício tombado tem um valor para a sociedade e pode e deve ser atualizado para poder ter um uso adequado ao seu tempo.
ficha técnica
Local: São Paulo, SP – Brasil
Ano de projeto: 2021
Ano de construção: 2020-2021
Área: 215 m²
Arquitetura: Metrópole_arq | Anna Helena Villela e Silvio Oksman
Colaboradores: Bruna Caracciolo
Autores complementares e consultores:
Consultoria de conservação: Pedro Vieira
Consultoria estrutural: Ycon Engenharia | Yopanan Rebello
Projeto luminotécnico: Lux Projetos | Ricardo Heder
Projeto de paisagismo: Vito Macchione
Projeto de sistema elétrico e hidráulico: Sandretec
Restauro do painel artístico: Andreia Naline e Anderson Ribeiro
Construção: CEN Engenharia e Carlos Nakazato
Fotos: Nelson Kon
Contato: contato@metropole.arq.br
Prémios e Exposições:
Premiação anual do IAB/ SP (2023)
galeria






















colaboração editorial
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VILLELA, Anna Helena. OKSMAN, Silvio. “Casa dos Triângulos”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., nov-2024. Disponível em http://www.mdc.arq.br/2024/11/27/casa-dos-triangulos/. Acesso em: [incluir data do acesso].













