Casa de Dona Zuzinha

Por dL AA
BRASIL – Projeto Executivo
6–9 minutos

projeto executivo


PROJETO EXECUTIVO
COMPLETO

03 pranchas (pdf).
2,49 mb


Casa de Dona Zuzinha (texto fornecido pelos autores)

No interior do norte de Minas, a pequena cidade de Campo Azul abrigou durante décadas um casal voluntarioso que ali constituiu família. No total, foram 11 filhos, que geraram 21 netos e, até então, 17 bisnetos. Família grande, de interior.

O anseio por oportunidades fez com que os filhos, ao longo do tempo, saíssem do município de aproximadamente três mil e setecentos habitantes. Brasília acolheu a maior parte, fazendo com que o casal também migrasse para a capital.

O que não ficou para trás foram as raízes e vínculos. As viagens para prestigiar festas religiosas, procissões e rever antigos amigos, se tornaram hábito anual. Questão de tradição.

Surge a partir daí a vontade de restabelecer uma casa de férias, no lote ao lado da antiga casa. Das premissas estabelecidas, destaque para o baixo custo de obra e espaço para acomodar atividades diferentes. Por se tratar de uma família grande, imaginou-se a possibilidade de ocupação com pequena metragem quadrada, relativamente densa, mas sem perder a identificação com a cidade e seus aspectos socioculturais.

Situação, Implantação e Croqui

A casa possui 70m², técnicas convencionais e foi construída com mão de obra local. Fica em lote de esquina, de frente para uma das duas praças presentes na cidade. Foi implantada no ponto mais baixo da frente do terreno, usufruindo do desnível para tratar de questões de acessibilidade e proporcionar o importante pátio externo, principal articulador espacial entre a casa e a praça. A implantação amplia virtualmente a dimensão de praça para a cidade, enquanto o pátio usufrui das características e visuais da praça. Uma troca.

Planta e Cobertura

Elevação, Cortes e Detalhe

O pequeno alpendre de acesso, de onde se pode descansar enquanto se desfruta da vista da praça, controla a escala e é o responsável pelo ponto chave da transição que acontece gradualmente a partir do acesso ao lote, do espaço público para o privado.

Essa pequena compressão espacial gera, consequentemente, contraste com o pé direito mais alto encontrado na área social, composta por sala e cozinha que se relacionam diretamente com a parte posterior do lote por meio de seis portas pivotantes que abrem para o quintal.

A conexão com a área privada, quarto único com espaço amplo, acontece por meio de um pequeno corredor que também dá acesso ao banheiro social.

As dimensões do quarto acomodam usos atípicos de uma casa convencional, sendo uma suíte com espaço confortável e suficiente para oferecer diferentes níveis de ocupação. Uma grande janela situada no encontro da elevação leste com a elevação norte adota sistema de abertura nos dois sentidos, controlando assim a entrada dos raios solares sem que se perca a livre circulação da ventilação cruzada, complementada por outra pequena abertura que abre e emoldura vista para a grande castanheira e a praça.

O sol forte, as altas temperaturas e a baixa quantidade de vegetação nos espaços urbanos fazem da grande árvore localizada na praça central, popularmente chamada de sete de copas, um importante ponto de descanso e repouso momentâneo. De lá, para quem se direciona à casa, o barraco pré-existente, restaurado, é enquadrado por uma abertura que possui dimensões iguais as das janelas na elevação frontal, revelando através dessa informação visual as intenções propostas na nova casa. As características construtivas se justificam, assim como as definições das proporções e escala, que não possuem outra motivação que não seja articular as relações espaciais projetadas. O desenho serve o espaço, e o espaço serve as relações humanas.


Sobre o projeto: Entrevista exclusiva para MDC.

por Deryck Dantom (D.D.)

MDC – Como você contextualiza essa obra no conjunto de toda a sua produção?

D.D. – A obra marca um dos momentos iniciais da nossa produção. Em paralelo a essa obra, Paulo Lourenço, também sócio fundador do escritório, construía uma casa em Planaltina-DF, região do entorno de Brasília. Contextos urbanos diferentes, soluções projetuais diferentes, mas com um mesmo interesse em interpretar a dimensão de transição entre privado e público. A relação humana com o espaço e o desenho do objeto como ferramenta para alcançar uma dimensão maior eram pautas constantes das conversas ao longo do processo. Algo que permeia boa parte da nossa investigação arquitetônica.

MDC – Como foi o mecanismo de contratação do projeto?

D.D. – É um presente para a minha avó. A proposta veio de um dos filhos. O desafio era desenvolver e executar algo não muito elaborado, com o mais baixo valor investido possível. Acredito, no entanto, que a boa solução não deve ser sacrificada por falta de recursos ou baixa tecnologia de materiais e mão de obra. Um projeto deve se adaptar às condicionantes impostas. Desistir de propor não é uma opção. Os desdobramentos futuros são parte do processo. Logo, decidi que meu desafio era contar a história da família por meio da arquitetura, independentemente da dificuldade logística.

MDC – Como foi a fase de concepção do projeto? Houve grandes inflexões conceituais? Você destacaria algum momento significativo do processo?

D.D. – A memória, costumes e características do lugar sempre nortearam as primeiras ideias colocadas em croquis. Características construtivas e o ajuste da escala ao entorno foram abordados de maneira similar desde as primeiras ideias. Talvez a principal inflexão tenha sido na decisão de recuar parte da fachada para gerar o espaço de transição entre rua e casa, com o intuito de criar ali esse intermediário com a ambiência que se comunica com a praça localizada em frente ao lote. Apesar da ideia de resgatar algumas características das primeiras casas da região, implantar a construção no limite no terreno para gerar um pátio interno não se mostrou a única solução possível. O terreno possuía área extensa para o programa da casa, possibilitando criar um novo espaço comum além dos já aplicados nas casas da região.

MDC – Nas etapas de desenvolvimento executivo e elaboração de projetos de engenharia houve participação ativa dos autores? Houve variações de projeto decorrentes da interlocução com esses outros atores que modificaram as soluções originais? Se sim, pode comentar as mais importantes?

D.D. – O projeto tem concepção estrutural muito simples. Não foi necessário ajuste para se adaptar a algo relacionado aos complementares. Desde a concepção, toda a lógica estrutural e de instalações estavam muito claras e condicionadas.

MDC – Os autores do projeto tiveram participação no processo de construção/implementação da obra?

D.D. – Sim. Por iniciativa própria me mudei para a cidade para acompanhar e orientar a execução da obra. Os desenhos executivos foram feitos com o intuito de registro e documentação. Era inevitável participar ativamente e diariamente na orientação dos processos e principalmente sobre a ideia por trás da concepção dos espaços. Em muitos momentos era necessário elucidar as premissas para que os construtores entendessem a necessidade de se executar tarefas um pouco diferentes do que estavam habituados. Na região existe uma ruptura muito grande com o conhecimento vernacular e, curiosamente, também com alguns processos contemporâneos simples. Diferente da pergunta anterior, em relação aos complementares, esse foi o principal fator para elaboração de adaptações de projeto para novas soluções construtivas.

MDC – Você destacaria algum fato relevante da vida do edifício/espaço livre após a sua construção?

D.D. – A inevitável construção de uma varanda na parte posterior, algo que já havia sido sugerido em uma primeira proposta, mas que, por decisão dos clientes, foi sacrificada por questões orçamentárias. Então o que de início era tratado como parte do desenho original da casa passou a se tratado como uma ideia de anexo futuro.

MDC – Se esse mesmo problema de projeto chegasse hoje a suas mãos, faria algo diferente?

D.D. – Talvez sim. Não porque trato como uma má solução de projeto, mas porque considero natural olhar para projetos anteriores e notar diferentes ideias de solução para um mesmo problema. Cada ideia é consequência de um tempo e momento. Natural que seis anos depois algumas decisões seriam diferentes. Entretanto, não necessariamente melhores.

MDC – Como você contextualiza essa obra no panorama da arquitetura contemporânea do seu país?

D.D. – Como uma atividade atípica em um cenário comum. A região representa um recorte do Brasil profundo. São cidades carentes de boas soluções, lugares onde a atuação dos profissionais de arquitetura é muito pequena. Os motivos são inúmeros. Nossa profissão ainda é vista como artigo de luxo, inclusive por boa parte de colegas de profissão.


ficha técnica

Local: Campo Azul, MG – Brasil
Ano de projeto: 2019
Ano de construção: 2019-2020
Área: 70 m²
Arquitetura: dL AA | Deryck Dantom


Fotos: urban sadness | Larissa Sad
Contato: dlarquitetosassociados@gmail.com


galeria


colaboração editorial

Ana Júlia Freire

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DANTOM, Deryck. “Casa de Dona Zuzinha”. MDC: Mínimo Denominador Comum, Belo Horizonte, s.n., dez-2024. Disponível em .https://mdc.arq.br/2024/12/22/casa-de-dona-zuzinha/↗ Acesso em: [incluir data do acesso].


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