Oscar & Lucio

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Maria Elisa Costa

Oscar Niemeyer, Lucio Costa, "Leleta" e Maria Elisa Costa, Anita Baldo e Anna Maria Niemeyer. A bordo do "Pan America", chegando a Nova York, abril de 1938. Foto: Casa de Lucio Costa

Pela circunstância de ser filha de Lucio Costa, conheci Oscar tão pequena que nem sei se as lembranças que tenho são de fatos ou de fotos. Foi em Nova York, quando foram projetar o Pavilhão do Brasil para a Feira Mundial de 1939.

Nas trajetórias dos dois, houve quatro interseções, e o Pavilhão do Brasil foi a terceira delas. A história é conhecida: houve um concurso para o projeto, Lucio ganhou o primeiro lugar e Oscar o segundo. Ao perceber no projeto de Oscar ingredientes novos, sobretudo em relação à liberdade da implantação do edifício, Lucio o convidou para juntos elaborarem, em Nova York, um terceiro projeto, que revelou ao mundo que ao sul do Equador alguma coisa inesperadamente rica estava acontecendo.

A interseção precedente ocorreu no edifício do antigo Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio Capanema, projetado em 1936 e ainda em construção por ocasião da Feira Mundial de Nova York.. Houve um concurso para o projeto da sede. do ministério recém criado, cujo titular era o mineiro Gustavo Capanema, homem sensível e inteligente. Insatisfeito com o resultado do concurso, pagou os prêmios mas o anulou, e convidou Lucio Costa pessoalmente para fazer o projeto. Lucio houve por bem montar uma equipe, e além de seu sócio, Carlos Leão, convidou Afonso Eduardo Reidy e Jorge Moreira, que haviam participado do concurso, Ernani Vasconcellos, a pedido de Jorge Moreira, de quem era sócio, e Oscar Niemeyer (que na época estagiava no seu escritório).

Consciente de que aquela seria a primeira oportunidade mundial de se construir um edifício de grande porte de acordo com a doutrina de Le Corbusier, Lucio recusou-se a começar a obra sem o aval do mestre. Capanema terminou por levá-lo ao Catete, para que pleiteasse a causa diretamente com o presidente Vargas. Diante da apaixonada insistência do jovem arquiteto, Getúlio acabou concordando: “Se é tão importante assim, tragam o homem!” E o “homem” veio de Graff Zepelin, permanecendo no Rio por quatro semanas e tendo à sua disposição um moço discreto que desenhava bem, chamado Oscar Niemeyer Soares.

A terra fértil do talento de Oscar recebeu ao vivo a semente corbuseana, e com a liberdade do trópico gerou belos frutos, livres e saudáveis, que deixaram marca definitiva no sotaque brasileiro do movimento moderno – Lucio costumava dizer que Le Corbusier era a força, Mies Van der Rohe a elegância, e que o Oscar introduziu a graça.

A presença dele no escritório que Lucio tinha com Carlos Leão em 1935, foi a primeira interseção direta entre as trajetórias dos dois. Era uma época de trabalho escasso, já que a clientela antiga queria casas “de estilo” que ele já não fazia mais. Assim, quando Oscar procurou o escritório, lhe foi dito que não havia condições de contratá-lo. A surpreendente resposta foi nada menos do que “então eu pago para trabalhar”! Ficou acertado que evidentemente ele não pagaria, e que frequentaria o escritório pelo tempo que quisesse, como uma espécie de estagiário, sem remuneração. Assim, quando houve o episódio do Ministério, ao saber que o sócio do Jorge Moreira seria incluído na equipe, Oscar reivindicou a sua própria inclusão, o que, a meu ver, revela o quanto, desde então, já tinha plena consciência do seu talento.

Vinte anos depois do Ministério, aconteceu Brasília, o último encontro profissional entre Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Lucio “inventou” a nova capital absolutamente sozinho em casa, e ganhou o concurso público para o plano piloto da nova capital. Na concepção da parte monumental da cidade, onde determinou a implantação dos prédios e a volumetria construída, ele já sabia contar com a excepcional – e indispensável – presença da arquitetura do Oscar na tradução arquitetônica dos edifícios. É incrível que a Praça dos Três Poderes não seja fruto de uma só cabeça, como à primeira vista se poderia imaginar, mas da soma de duas personalidades tão diferentes, mas unidas pela convicção com que ao longo da vida batalharam pela qualidade da arquitetura brasileira.

A meu ver, Oscar é o único artista plástico popular do século XX, não apenas no sentido da sedução instantânea que sua arquitetura exerce sobre as pessoas comuns, mas pela liberdade com que é assimilada, incorporada e recriada por essas pessoas.

E com o passar do tempo, a coerência das suas convicções políticas, a sua generosidade, seu amor ao Brasil e o seu jeito de ser, tão completamente carioca, o tornaram um personagem querido em todo o país, uma referência “do bem”, independente do vulto e do valor da sua obra.


Maria Elisa Costa


Veja todas as matérias da série Oscar Niemeyer 1907-2012.

Veja todas as matérias sobre Oscar Niemeyer já publicadas na revista MDC.

Colaboração editorial: Luciana Jobim

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