Interdisciplinaridade, reuniões, catálogos e computadores

mdc 01Ascanio Merrighi

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Começo um projeto quando visito um sítio (programa e condicionalismos vagos como quase sempre acontece). Outras vezes começo antes, a partir da idéia que tenho de um sítio….

É assim que o arquiteto português Álvaro Siza, no prefácio de Profissão Poética [1], lista tópicos, oito exatamente, discorrendo sobre sua rotina profissional. O depoimento, ao mesmo tempo contido, intenso, vibrante, descontraído, segue descrevendo a perseguição de um conceito sugerido naquele início vago e pleno de possibilidades. Nesse rumo, segue pelos desenhos nos cafés “...dos poucos (ambientes) – aqui no Porto – a permitir anonimato e descontração.” É aí que atrai atenção sua justificativa para esta reclusão inicial:

Não se trata de fuga à mesa de reuniões, à interdisciplinaridade, ao telefone, aos impressos de Regulamentos, aos catálogos de pré-fabricados ou de ferramenta simplificadora, ao computador ou à Assembléia de Moradores. Trata-se de conquistar – é o termo – bases para trabalhar com isso e para isso.

E seguem-se os tópicos do prefácio e depois todo o livro com as descrições dos projetos em esboços, desenhos técnicos, fotografias e textos. Excepcional fonte constante de aprendizado ou, também, boa distração momentânea.

Não há conotação de ‘mal necessário’ entre os conceitos e esboços iniciais das apropriações específicas de uma situação de projeto e os mecanismos rotineiros e determinações técnicas que transformam aquelas definições iniciais em obra pronta e edifício habitado. O processo de projeto com todas as suas interfaces bem exploradas deve servir para reforçar suas intenções iniciais, podendo até, dentro de limites que mantenham o controle de seu desenvolvimento, indicar novas potencialidades que devam ser incorporadas às premissas até então destacadas. Os aspectos técnicos de uma construção podem, e não são poucos os ícones históricos da arquitetura a respaldar esta afirmação, ser inclusive determinantes de sua relação estética, da linguagem e do significado por ela transmitidos. A consistência de determinado trabalho não é, definitivamente, definida por um desenvolvimento técnico criterioso e sintonizado com as mais recentes, desenvolvidas, racionalizadas e industrializadas soluções. Mas sua maturidade talvez seja. Este raciocínio inicial resume ser possível incorporar às definições de uma situação de projeto única (lugar e seu entorno, programa, identidade possível e universo cultural, orientações, exposições fenomenológicas, significados potenciais…) tanto métodos cons-trutivos aleatórios como uma grande interação com processos industrializados e bem detalhados, tecnicamente limpos e melhor controlados pelas ações de projeto. O segundo caminho, no entanto, só pode ser atingido sob comando de profissional e/ou equipe preparados para assumir tal tarefa e levá-la a cabo plenamente. Sendo ou não determinante em sua imagem, a tecnologia, assumida ou não pelo arquiteto no processo de projeto, será definidora, como fim ou meio, do resultado final de uma proposta.

A relação do arquiteto com este processo retrata bem seu grau de interferência na consistência da obra pronta. O que não pode ser desprezado é que, em qualquer caso e nível de envolvimento no processo, a responsabilidade profissional do arquiteto em relação ao resultado não varia. Neste ponto ligam-se as referências iniciais do texto com seu objetivo principal: ilustrar o atual estágio, desconexo em linhas gerais, entre prática arquitetônica e meios de produção para colocar em pauta ações que possam diminuir estas distâncias por meios tangíveis e inerentes ao cotidiano da prática arquitetônica.

A integração de certas rotinas ao desenvolvimento dos projetos seria suficiente para estabelecer um ambiente de trabalho comum e ideal para o trânsito das informações técnicas entre os autores do projeto, seus complementares e as fábricas de componentes, sistemas construtivos e estruturais. As razões para focar um raciocínio, superficial que seja, na organização e no desenvolvimento de um projeto com as bases da indústria são, principalmente:
• a desmistificação das relações imediatas feitas entre modulação, monotonia e limitações formais;
• as garantias de qualidade homogênea, redução e controle de perdas processuais que podem ser exploradas na aplicação de produtos e sistemas industrializados nos domínios de qualquer conceito de projeto.

Nesta direção, as relações entre as modulações de um projeto devem ser claras e não restritas apenas aos aspectos estruturais, mas estendidas aos construtivos. A norma técnica alemã DIN 18000 [2] representa bem elementos construtivos relacionados a variações hetero-gêneas de um mesmo módulo  no contexto de um projeto hipotético.

As ações projetuais que traçam bases comuns para a melhor relação dimensional entre as partes da construção são simples e buscam aproximar o desenvolvimento do projeto, seu detalhamento e execução. Devem ser esta-belecidos e mantidos, mesmo que ajustados ao longo do processo, os princípios de definição de malha estrutural e organização geométrica com marcação de eixos estruturais que permitam relacionar os parâmetros dimensionais das estruturas com aqueles dos sistemas construtivos. Parece básico, e é, mas num trabalho de consultoria ou suporte técnico para projetos com estruturas de aço são raras as vezes em que recebemos desenhos técnicos arquitetônicos com a definição de um sistema de coordenadas transversais e longitudinais para estruturação das potencialidades evidenciadas na fase inicial do projeto. A carência destes elementos gráficos de amarração e organização do projeto pode ser traduzida na falta de compromisso do arquiteto e sua equipe com as soluções técnicas aplicáveis. Nesta defasagem surge espaço para interpretações e decisões de outros profissionais envolvidos no processo que não necessariamente tem o mesmo compromisso do arquiteto com seus parâmetros e objetivos. Estas medidas, claro, não garantem que não haverá interferências “indevidas” no projeto ao longo de sua implementação, mas sua ausência estabelece vínculos fracos entre o proposto e os mecanismos de construção o que pode transformar completamente a idéia inicial. I­nterferências e contribuições são bem vindas ao desenvolvimento de qualquer projeto desde que convincentes e consensuais. Além destes parâmetros dimensionais, podem ser mencionadas estratégias de disposições desencontradas entre eixos estruturais e planos de vedação externa que transportariam as dimensões definidas nas estruturas ao sistema construtivo das vedações.

São vários, como já mencionado, os exemplos de obras que têm sua expressão predominantemente ancorada em bases tecnicistas. Não necessariamente recentes, como vários projetos do arquiteto alemão Ludwig Mies Van der Rohe,  entre eles a casa Farnsworth da década de 50, nem necessariamente estrangeiras, como o projeto da casa Lota de Macedo Soares de autoria do arquiteto brasileiro Sérgio Bernardes da mesma década do anterior [3]. Ambos projetos, de aspectos e naturezas bem diversas, são concebidos e executados com rigidez formal construída sobre parâmetros de métodos construtivos industrializados, total ou parcialmente. São ainda dois exemplos históricos de atuação profissional não restrita aos ambientes de escritório e obra, sendo estendida ao universo das fábricas com a “invenção” quase literal de especificações de materiais e produtos propriamente ditos. Tanto Mies Van der Rohe quanto Bernardes provocaram o interesse de fabricantes diversos e estabeleceram uma interação direta entre prancheta, materiais e produtos.

É possível seguir nestes exemplos em várias direções e com diferentes referências. Mantendo-se as mesmas inicialmente assumidas podemos passar a exemplos recentes, dentro e fora da cultura brasileira e no mesmo patamar de qualidade arquitetônica e industrialização dos projetos. Soluções customizadas como as obras do arquiteto italiano Renzo Piano ou do brasileiro João Filgueiras Lima (Lelé) são de-talhadas e montadas com elementos fabricados em série ou não a partir das modulações de projeto. São assim os casos de várias unidades de Hospitais da Rede Sarah com diversos componentes fabricados no CTRS (Centro Tecnológico da Rede Sarah) em Salvador: não apenas os componentes estruturais saem da fábrica em peças pré-montadas como todos os painéis de argamassa armada que farão as divisórias e vedações são ali fabricados sob rígidos parâmetros técnicos e dimensionais, com relações comuns em múltiplos ou sub-múltiplos de uma mesma referência modular. Exemplos mais extremos podem ser mencionados como casos de fabricações e montagens mais complexas, com peças únicas criadas para situações de projeto onde caibam estas colocações, com no caso do Centro Georges Pompidou, em Paris, onde muitas das peças estruturais foram fabricadas sob medida com recursos de indústrias pouco exploradas pela construção civil com a naval ou a aeronáutica.

Enfim, as possibilidades são muitas, e os caminhos em pauta nas constantes decisões de projeto podem ser melhor controlados com uma maior aproximação entre os projetistas e os processos e meios de produção. Esta discussão segue por conceitos desenvolvidos pelo arquiteto durante sua formação. Passa pelo senso de proporção das medidas, pelas relações culturais, por estabelecer as conexões necessárias entre as partes de um projeto, pelo que o seu conjunto apresenta em relação ao entorno e outras questões caras ao profissional de arquitetura comprometido com sua causa. Questões percebidas pelo habitante que experimenta ou usufrui de determinado lugar e podem ser enriquecidas por sua amarração com os métodos construtivos. No início, Álvaro Siza descreve o processo de projeto com sendo algo que busca, nas bases do esboço feito no ambiente isolado de um Café, respaldo para transformá-lo em obra através de rotinas muitas vezes tidas como pouco nobres, mas indispensáveis para realizar o impulso criador contido num desenho. “Trata-se de conquistar (…) bases para trabalhar com isso e por isso.”

notas

1.   SIZA, Álvaro. Profissão Poética. Barcelona: Gustavo Gilli, 2002.
2.  DEUTSCHES INSTITUT FÜR NORMUNG e.V..Modular coordination in building: DIN 18000. Berlin, 1984-05.
3.  Nobre, Ana Luíza. Flor Rara e Banalíssima, Residência Lota Macedo Soares por Sérgio Bernardes. Portal Vitruvius: Arquitetura e Crítica, N. 15, fev.2006. Disponível na internet em <http://www.vitruvirus.com.br/ac/ac015/ac015.asp&gt; Acesso em: 15 fev. 2006.

ascanio merrighi de figueiredo silva (1971)
Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFMG, 1995), Mestre em Construções Metálicas (UFOP, 2004). P­rofessor do CEACON, Especialização em Construções Metálicas para A­rquitetos (Izabela Hendrix-MG). Trabalhou como arquiteto no escritório GSI Architects, em Cleveland-EUA, de 1997 a 2000 e na área de desenvolvimento de mercado para c­onstrução em aço da Usiminas desde 2001. Desenvolve projetos próprios desde 1996.

contato: amerrighi@usiminas.com.br

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