A quatro mãos : Arquitetura Moderna Brasileira, 1978-82

Sylvia Ficher | Marlene Milan Acayaba

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To show our simple skill,
That is the true beginning of our end.

Shakespeare, A midsummer-night’s dream

Para a Sylvia e a Marlene rememorar, depois de tantos anos, como foi escrito o Arquitetura Moderna Brasileira é uma viagem. Mas uma viagem que nada se compara àquela que fizeram pelo Brasil no verão de 1979…

O nosso livro se propunha traçar um panorama da arquitetura brasileira desde as suas primeiras manifestações modernistas na década de 1920 até aquele momento, ou seja, fins da década de 1970. Poucos sabem, mas foi escrito originalmente em inglês, para integrar o International Handbook of Contemporary Developments in Architecture, manual organizado por Warren Sanderson – então professor de história da arte na Faculty of Fine Arts da Concordia University, em Montreal, 1 sobre a produção arquitetônica após a 2ª Guerra Mundial. Nas palavras de seu organizador:

The volume is to be a work of reference primarily. It will be sold especially to libraries around the world. Each essay should serve at least two functions: first, an introduction to the contemporary architectures of countries around the world, and: second, a summary of developments in each in the areas of architectural design, technology, planning, education, and the profession itself as a whole. It will be used, we expect, both by specialists and the general public. References to specific buildings, projects, and architects, with the dates during which each was accomplished, or worked, should be built into the narratives; and an emphasis upon design should be maintained. 2

O alentado volume, publicado em 1981, iria corresponder ao propósito de Sanderson e ao pomposo título. Trata-se de uma útil obra de referência, abordando trinta e dois países. Pela ordem dos capítulos: Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Cuba, Tchecoslováquia (hoje dividida…), Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha Ocidental (ela ainda existia), Grã-Bretanha, Grécia, Hungria, Israel, Itália, Japão, México, Holanda, Noruega, Polônia, África do Sul, Suécia, Turquia, União Soviética (e ela também!), Estados Unidos e Venezuela. 3 Painel este introduzido por seis excelentes ensaios: Trends in Contemporary Architecture, de Warren Sanderson; Architectural Theory and Criticism since 1945, de Bruno Zevi; Technology and Architectural Design, de Robert W. White; Preservation, Restoration, and Conservation, de Robert Bruegmann; Urban Planning in Europe since 1945, de Adolf Ciborowski; e Urban and Regional Planning in South America, de José M. F. Pastor.

Mas parece que tanta pomposidade lhe custou em popularidade. Findou por passar quase desapercebido, não é fácil encontrá-lo citado na historiografia. 4 Injusto infortúnio crítico, há alguns dias estava à venda usado por 45 centavos de libra em um site inglês 5 e por umas 1.500 rúpias em um site indiano. 6 Na William Stout Architectural Books, em San Francisco, é levado mais a sério: estava à venda por 75 dólares. 7 Curiosa é sua situação nos grandes sites especializados. No AbeBooks, lá sua sorte oscila entre extremos: usado vale de US$ 3.79 a US$ 242.34. 8 Na Amazon pode ser encontrado novo por US$ 64.95, usado por preços variando de US$ 0.01 a US$ 175. 47. 9

Eis a gênese do Arquitetura Moderna Brasileira, o capítulo sobre o Brasil, ou melhor, “Brazil”, do Handbook. Tudo muito canhestro e mal articulado, coisa de principiante, porém fruto de uma excepcional amizade, escrito com a despreocupação da mocidade.

Do que a Marlene se lembra

Em 1975 eu me inscrevi na pós-graduação da FAU/USP com o objetivo de fazer um estudo sobre as residências de vanguarda em São Paulo. Pouco depois a Maria Helena Flynn me falou de uma tese de doutorado sobre arquitetura contemporânea brasileira, defendida na França por Yves Bruand.

Por intermédio de minha irmã Betty Milan, que vivia lá, o professor Bruand gentilmente me cedeu um exemplar. Li com o maior interesse, sobretudo porque nunca havia visto nada igual no nosso universo. O sujeito era paleógrafo e, a partir de publicações em revistas, transformava tudo em lâminas de estudo. Foi isto que me deu a ideia de como faria a pesquisa sobre as casas, usando como referência o que havia sido publicado sobre elas.

Nesse meio tempo, em 1978 reencontrei a Sylvia no curso de especialização em patrimônio que eu estava assistindo na FAU. Uma noite, convidadas para jantar com nossa colega e amiga Marta Dora Grostein, conversamos durante horas sobre os nossos interesses, que coincidiam, uma vez que ambas gostaríamos de nos dedicar à história da arquitetura.

Nos dias seguintes, ela me convidou para escrevermos um artigo sobre arquitetura moderna no Brasil, a ser incluído em um livro que seria publicado nos Estados Unidos. Respondi que seria ótimo, mas que talvez pudéssemos fazer uma tentativa antes para ver como funcionaria a nossa parceria. Naquele momento, o Instituto Roberto Simonsen havia aberto um concurso, o Prêmio Henrique Mindlin. Para ele escrevemos o “Arquitetura Brasileira: tendências atuais”, ensaio que recebeu menção honrosa. 10 E o prêmio foi para quem? Para a Ruth Verde Zein e o marido dela, o José Luiz Telles dos Santos!!

A experiência mostrara que poderíamos trabalhar juntas, embora escrever a quatro mãos nem sempre seja fácil. Mas como as duas estavam se iniciando nas lides acadêmicas, uma dava força para outra, e rapidamente nos disciplinamos para realizar os estudos necessários.

Do que a Sylvia se lembra

Para mim, tudo começou em Nova York. Em Nova York e em maio ou junho de 1978, não lembro bem dos detalhes. Eu havia concluído o mestrado na Columbia e estava para voltar, sem saber muito bem o que me esperava por aqui. Recordo muito vagamente ter conhecido uma pesquisadora que estava preparando um livro sobre arte latino-americana ou algo assim, e que houve uma conversa sobre uma possível participação minha no projeto. E só!!

Por essa época chegou uma carta – ou talvez tenha sido um telefonema – do Carlos Lemos, contando que o meu professor James Fitch iria a São Paulo para dar um curso na FAU, e me convidando para ser a sua assistente. 11 Aceitei na hora, era algo de concreto para fazer na volta…

Já em São Paulo, recebo outra carta – datada de 5 de julho de 1978, o que estabelece cientificamente o início da novela – de um tal professor Warren Sanderson, explicando que está organizando um livro e que a Dra. Joyce Bailey – deve ser a tal pesquisadora, mas juro que o nome não me traz nada à memória – havia me indicado como alguém que poderia, por sua vez, indicar pesquisadores daqui para preparar um capítulo sobre arquitetura brasileira. 12

Evidentemente, pensei logo em me oferecer para escrever o capítulo. Contudo, a tarefa estava muito além da minha competência, precisava achar alguém para trabalhar comigo. Tudo clicou naquela conversa com a Marlene no apartamento da Marta Dora. Da conversa com a Marlene me lembro como se fosse hoje, nossos interesses e dúvidas eram parecidos. Tinha encontrado a parceira ideal! Tanto que pouco depois liguei para ela e a convidei para fazermos o trabalho juntas.

Ela topou, tomei coragem e em seguida respondi ao Sanderson sobre a nossa disponibilidade. 13 E não é que ele aceitou!?!

I am glad to have an opportunity to answer you now, positively. Welcome to our group of collaborators… I understand that you will be writing our chapter on “Architecture in Brazil since 1945” together with your colleague, Marlene Acayaba. 14

Foi a Marlene que veio com essa conversa do Prêmio Henrique Mindlin. Eu queria começar o quanto antes o nosso artigo, o prazo era apertado para duas diletantes. Mas todo mundo sabe que a Marlene não pede, manda…

Atacando o Brazil

Havia chegado a hora de partimos para o “Brazil”, isso por volta de outubro ou novembro de 1978. Começávamos a vislumbrar uma estrutura básica; a encomenda era sobre o período posterior a 1945, e nos parecia que esse recorte não se ajustava ao caso brasileiro. Aqui a guerra não significara uma ruptura de igual ordem daquela que ocorrera na Europa e nos Estados Unidos. Pelo contrário, fora a guerra e a conturbada década que a precedeu que, em parte, haviam permitido que a produção brasileira preenchesse o vácuo criado no cenário arquitetônico internacional.

E assim, o ensaio foi pensado em três momentos. Um primeiro trataria dos contatos iniciais dos brasileiros com o movimento moderno europeu até Brasília, período quando havia uma linguagem arquitetônica fértil e unitária, embasada num racionalismo de viés corbusieriano, porém com resultados muito próprios. Inescapavelmente um segundo momento seria dedicado a Brasília, do concurso à inauguração. Um terceiro tentaria entender algo que vinha sendo rotulado de “após Brasília”, 15 marcado por mudanças estéticas e diversidades de linguagem cuja lógica talvez pudesse ser entendida nos seus contextos regionais.

Logo percebemos que escrever as duas primeiras partes não ia ser problemático. Complicado mesmo era o tal após-calipso brasiliense, de 1960 em diante! Como resolver o impasse? Íamos ter que estudar… Começando pelo que vivenciávamos de primeira mão: São Paulo. Aí, diante da nossa ignorância e da ausência de publicações sobre a produção mais recente, seguimos o palpite da Marlene: sair a campo, viajar pelo Brasil, conversar com os arquitetos das cidades mais importantes, visitar as suas obras, verificar de primeira mão o que estava acontecendo.

Para saber quem procurar em cada lugar, a Marlene apelou para o Joaquim Guedes e a Sylvia para o Miguel Pereira. Em perspectiva, fica difícil justificar a ausência de algumas cidades, em especial Belo Horizonte. Talvez não tenhamos ido a BH porque nos parecera que a cidade fora suficientemente contemplada com Pampulha, ou porque não sabíamos quem procurar lá, ou porque estávamos dando preferência a cidades a beira-mar ou ainda porque sequer nos ocorreu ir até lá. 16

Ainda conseguimos nos lembrar do apoio da Cristina Toledo Pizza e do Luiz Paulo Conde, no Rio, da Cristina Jucá e do Vital Pessoa de Melo, no Recife, e do Luciano Guimarães, em Fortaleza. Porém, à medida que íamos avançando em nossa peregrinação, fomos encontrando outros arquitetos que nos davam dicas sobre o que era entendido como relevante no seu meio, cujos nomes infelizmente não mais recordamos.

São Paulo

São Paulo fazia parte do nosso dia-a-dia. Quase que bastava relatar o que sabíamos pelo simples fato de pertencemos ao seu meio profissional. Os arquitetos e obras citados simplesmente refletem o que era mais comentado naquele tempo na nossa roda. Apenas pudemos dar uma atenção maior à arquitetura residencial; nas palavras da Marlene:

Como eu já estava juntando material para o mestrado sobre as residências, nós utilizamos os projetos que eram consenso para todos nós: a casa do Paulo no Butantã, a casa do Guedes no Pacaembu etc. Incluímos a minha casa, projeto do Marcos, e a “bola”, que o Eduardo Longo estava então fazendo com suas próprias mãos.

Os arquitetos e obras citados simplesmente refletem o que era mais comentado naquele tempo na nossa roda; pela ordem no livro:

Lina Bo Bardi: Museu de Arte de São Paulo

João Batista Artigas: FAU/USP, Residências Olga Baeta e Mendonça, Ginásios de Itanhaém e Guarulhos, Casa de Barcos do Clube Santa Paula, Estação Rodoviária de Jaú, Escola Conesp em Vicente de Carvalho

Paulo Mendes da Rocha: Clube Paulistano, Residência do arquiteto no Butantã, Pavilhão de Osaka, Museu de Arte Contemporânea da USP

Joaquim Guedes Sobrinho: Residências Cunha Lima, Dalton Toledo e Sergio Ferreira, Tribunal de Itapira, 17 planos diretores para Carajás e Caraíba

Carlos Millan: Residências Nadyr de Oliveira e Roberto Millan

Fabio Penteado: Sociedade Harmonia de Tênis

Sergio Ferro e Rodrigo Lefèvre: Residência em Cotia

Marcos Acayaba: Residência do arquiteto

Eduardo Longo: Residência do arquiteto

Pedro Paulo de Mello Saraiva e Miguel Juliano: Edifício 5ª Avenida

Rino Levi e Roberto Cerqueira Cesar: Banco Itaú

João Batista Artigas, Fabio Penteado e Paulo Mendes da Rocha: Conjunto Habitacional Cecap em Guarulhos

Abrahão Sanovicz: Conjunto Habitacional Cecap em Jundiaí

Rio de Janeiro

Nos primeiros meses de 1979 pegamos um avião em Congonhas e descemos no Santos Dumont, onde a Cristina Toledo Piza, nossa colega da FAU, nos aguardava para nos hospedar e socorrer. Éramos tão inexperientes que sequer levamos um gravador ou uma máquina fotográfica.

Nosso outro guia foi o Luiz Paulo Conde, quem nos levou para passear, mostrando aqui e acolá alguns edifícios que havia projetado, mas preocupado sobretudo em nos mostrar a cidade. Um encontro especial foi com o saudoso Joca Serran, com quem mantivemos uma longa conversa em algum barzinho de Ipanema. Outro dia fomos visitar o Zanine, que estava construindo umas casas belíssimas com estrutura de madeira numa área próxima da Floresta da Tijuca. E fomos ao bairro do Joá, onde descobrimos a arquitetura dos irmãos Menescal.

Surpresa maior foram os escritórios, um mais bonito que o outro, todos com vistas para aquela paisagem única. Além disso, os cariocas tinham muitos projetos em outras cidades. Enquanto que os paulistas ficavam mais restritos ao seu estado; e seus escritórios eram bem mais sem graça… O ritmo desses encontros era completamente diferente do nosso. Quando tentamos marcar uma entrevista matinal com o Sérgio Bernardes, ele nos recomendou que antes fossemos à praia, tomássemos um bom banho de mar, para no fim da tarde visitá-lo em seu lindo escritório na Barra, de frente para o mar, claro!

A viagem já estava surtindo efeito. Tomávamos consciência de quão pouco sabíamos. Afora aqueles arquitetos mais ativos nas reuniões do IAB nacional, praticamente não conhecíamos ninguém além dos paulistas, boa parte deles os nossos próprios professores. Só fizemos algumas breves anotações das entrevistas, encantadas com aqueles arquitetos tão diferentes, homens da corte, teatrais… Era verão, quando o Rio se prepara para o carnaval e reluz na sua expressão máxima. Fazíamos a lição de casa, mas como nos divertimos…

Por tudo isso, a seleção carioca foi bem mais variada, indo de nomes consagrados a outros mais jovens. Ousava mesmo incluir um Zanine, a quem poucos então aceitavam como arquiteto, apesar do seu imenso talento.

Jorge Machado Moreira: Residência Antonio Ceppas e projetos no Fundão: Hospital de Clínicas, Faculdade Nacional de Arquitetura, Escola Nacional de Engenharia e Instituto de Puericultura

MMM Roberto: Pavilhão Lowndes, Edifícios Marquês de Herval e Souza Cruz, Centro de Exposições da Bahia

Henrique Mindlin: Edifício Avenida Central

Helio Ribas Marinho e Marcos Konder: Monumento aos Mortos da 2ª Guerra Mundial

Sergio Bernardes: Pavilhão do Brasil em Bruxelas, Residência do arquiteto, Hotel de Manaus, Instituto Brasileiro do Café

Ricardo e Roberto Menescal: Clube Costa Brava e Condomínio Joatinga, ambos no Joá

Paulo Casé: Edifício de apartamentos na Lagoa Rodrigo de Freitas, Edifício Estrela de Ipanema

José Zanine Caldas: Condomínio Portinho de Massarú

Luis Paulo Conde: Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Oscar Niemeyer: Israel: Cidade no Negev, Universidade de Haifa e Residência Rothschild; França: Partido Comunista Francês, Centro Espiritual dos Dominicanos em Sainte Baume e Bolsa de Bobigny, ZACs (áreas a urbanizar) de Grasse, Dieppe e Villejuif; Argélia: Mesquita, Centro Cívico de Argel, Universidade Constantine e Parque Ecológico; Itália: Editora Mondadori em Milão e Fata Engineering em Turim; Rio de Janeiro: Hotel Nacional; São Paulo, Centrais Elétricas do Estado de São Paulo.

Manaus

Foi em seu escritório no Rio que conhecemos Severiano Mário Porto, cujo premiado projeto para a residência Schuster, então há pouco publicado na Projeto, tinha nos encantado. Ao vivo e a cores, foi bem depois que Marlene e Marcos foram a Manaus e visitaram suas obras. Naquela altura já eram bons amigos, haviam se encontrado na Bienal de Buenos Aires em 1986, quando Severiano ganhou o Grande Prêmio e Marcos, o Cubo de Bronze.

Severiano Mario Porto: Sede administrativa da Portobrás, Superintendência da Zona Livre de Manaus, Campus da Universidade do Amazonas, Residência do arquiteto e Residência Robert Schuster em Tarumã-Açu

Salvador

A seguir veio Salvador, e aí a coisa ficou ainda mais lenta, o calor mais intenso. Estávamos hospedadas no Pelourinho, naquele mesmo hotel onde havíamos ficado durante o Congresso de História da Arquitetura, em 1975. E aproveitamos para curtir o centro histórico, para nós bem mais interessante que a arquitetura baiana mais recente.

Se nos lembramos corretamente, nosso primeiro contato foi com o arquiteto Assis Reis, por indicação do Guedes. Ele nos recebeu super bem e uns jovens arquitetos de seu escritório nos levaram para conhecer suas obras. Foi ele quem nos falou do projeto do Lelé para o centro administrativo da Bahia. Fomos visitá-lo: era um imenso canteiro de obras; prontos apenas a igreja e o pavilhão de exposições. Confessemos, Salvador não foi tão empolgante como o Rio e nossas escolhas ficaram – não sabemos mais porquê – excessivamente restritas, muita gente interessante ficou de fora.

Francisco Assis Reis: Ginásio Humanístico de Pojuca, Centro Comunitário Batista, Hospital Geral de Canela, Companhia Hidroelétrica do São Francisco, Centro Médico Albert Schweitzer, Residência José Paixão em Itapoã

João Filgueiras Lima: Centro Administrativo do Estado da Bahia: Secretaria, Centro de Exposição e Igreja

Recife

No Recife, depois de muita dificuldade para encontrar um lugar para nos hospedar – era férias, a cidade estava lotada –, conseguimos um quarto em uma casa particular em Boa Viagem. Já estávamos pegando o jeito, ficando espertas, e logo nos pusemos a telefonar para a lista que tínhamos obtido graças à Cristina Jucá, uma ótima indicação do Miguel. Quando tentamos os primeiros contatos descobrimos, desconsoladas, que estava todo mundo fora, passando a temporada de verão na praia, seja lá o que isso signifique para quem mora em uma cidade litorânea… Depois de muito esforço, conseguimos convencer alguns arquitetos a nos receber na semana seguinte. Nada a fazer, seguimos a receita do Sergio Bernardes: banhos de mar e longas caminhadas por Boa Viagem.

Até aproveitamos para dar uma espiada naqueles prédios de apartamentos tão bem construídos da beira mar, a maioria deles – descobrimos depois – projeto do Borsoi. Próximo à casa onde estávamos hospedadas havia um prédio muito diferente, de planta curva e bem mais alto, talvez o Edifício Holiday, famoso treme-treme local. Nesse meio tempo, também encontramos o Regis, um amigo da Sylvia de São Paulo, que havia montado um laboratório no centro histórico, próximo ao Capibaribe, para fazer a restauração das peças de ferro e cerâmica recolhidas dos destroços de um galeão que havia naufragado por lá no século dezessete. Os detalhes de que a gente lembra…

O primeiro arquiteto que nos recebeu foi o Vital Pessoa de Melo, quem nos mostrou a cidade e nos deu uma ideia geral do que os arquitetos estavam realizando. Na sequência, estivemos com o Borsoi. Ele nos deu uma entrevista muito boa, cândida mesmo, contando sobre os reveses da experiência do Cajueiro Seco, e explicou que, no momento, estava se dedicando mais a projetar, em parceria com sua esposa, a arquiteta Janete Costa, vários prédios de apartamentos de luxo em Boa Viagem. Quem nos levou para conhecer vários desses prédios – um melhor que o outro, todos com soluções hábeis para aproveitar a brisa do mar na ventilação interior – foi o seu filho, Marco Antonio Borsoi, então se iniciando na profissão.

Houve um jantar na casa dos arquitetos Clementina Duarte e Armando de Holanda, num bairro mais afastado. Este foi, sem duvida, o encontro mais fascinante de toda a viagem: o Armando nos seduziu, era um idealista e estava muito perturbado com o estrago que a construção do Porto de Suape iria fazer no Cabo de Santo Agostinho, local histórico de grande beleza, e nas praias próximas, como Gaibu. Com ele visitamos justamente o Cabo, onde o Armando estava ousando erigir um monumento de protesto. Atenção, era 1979 e o porto era uma daquelas obras megalomaníacas da ditadura, causando terríveis danos ambientais sem que ninguém pudesse chiar, exatamente como iria acontecer alguns anos depois quando destruíram Sete Quedas para construir Itaipu. Armando nos levou também ao Parque Nacional dos Guararapes, para o qual havia projetado uma série de equipamentos seguindo os preceitos que havia exposto em seu livro Roteiro para construir no Nordeste, um trabalho inspirador recentemente reeditado. 18

Conhecemos outros profissionais interessantes, como o Reinaldo Esteves, o Jório Cruz e o Élvio Polito. A imagem que ficou desses arquitetos do Recife é que eram cultos e sofisticados, muitos deles com formação na França ou na Inglaterra. Todavia foram poucos cujas obras citamos.

Delfim Amorim: Edifícios Santa Rita e Acaiaca

Acácio Gil Borsoi: Residência Clovis Rolim, Cajueiro Seco, Fórum de Teresina, sede do Ministério da Fazenda em Fortaleza

Armando de Holanda: Parque Nacional dos Guararapes e Monumento Rodoviário de Garanhuns

Fortaleza

Aqui as duas amigas se separam. Marlene volta para São Paulo e Sylvia segue para Fortaleza. Agora quem relata é ela, reclamando que não tem a memória da Marlene e nem a sua veia poética.

Graças à amizade dos tempos do curso de especialização em patrimônio de 1974, entrei em contato com o colega Luciano Guimarães, outro guia incansável. Mais uma vez um acolhimento caloroso e a descoberta de um ambiente profissional afinado. Tanto que, em retrospecto, a seleção parece ter sido bem equilibrada.

Liberal de Castro eu conhecia, fora meu professor justamente em 1974. Igualmente o Neudson e o Campello, arquitetos atuantes no IAB que já havia encontrado em São Paulo. Novidade foi conhecer arquitetos mais jovens, preocupados em realizar obras adequadas ao clima e empregando materiais locais. Como a Nícia – quem reencontraria logo depois em Brasília, pois começamos juntas a dar aula na UnB em 1982 –, que me levou para visitar algumas das suas casas. Ou o Nelson Serra e o José Alberto, que me falaram da bela experiência de Morada Nova. E um personagem inesperado: Fausto Nilo, arquiteto dublê de compositor, parceiro letrista do Morais Moreira em todos aqueles frevos maravilhosos! Paradoxalmente, a sua arquitetura ia na direção oposta, menos regional e mais influenciada pelo brutalismo dos paulistas.

José Liberal de Castro: atuação no Sphan

Neudson Braga: Banco do Estado do Ceará e Centro de Hemoterapia

Neudson Braga e José Liberal de Castro: Campus da Universidade Federal do Ceará

Nícia Bormann: várias residências

Gerhard Bormann: sedes do Banco do Nordeste em João Pessoa e Natal, Estádio de Fortaleza e residências

Roberto Castelo e José Furtado: Assembléia de Fortaleza

Paulo Cardoso: agências do Banco do Nordeste, Residência do arquiteto

Nelson Serra e José Alberto de Almeida: Morada Nova

Curitiba

Para fechar o percurso, a Sylvia vai a Curitiba, onde se encontra com o Jaime Lerner, o qual descreve em detalhe o processo de planejamento da cidade e lhe dá um conjunto enorme de publicações sobre suas ações como prefeito, o qual ela guarda até hoje com carinho…. Deve ter sido preguiça dela, em nossa seleção apenas citamos a dupla Luiz Forte e José Maria Gandolfi e nos concentramos nos aspectos urbanísticos.

Jorge Wilheim: Plano Diretor de Curitiba

Jaime Lerner: desenvolvimento do Plano Diretor de Curitiba no Instituto de Planejamento de Curitiba, IPUC

Porto Alegre e Brasília

Não dava para continuar viajando e ainda faltava muita coisa. Jamais teríamos dado conta do serviço se, para cobrir as principais lacunas, o Miguel não tivesse nos ajudado com Porto Alegre e Brasília. Se a seleção de Porto Alegre foi boa, o crédito é dele; se erramos feio, assumimos a culpa.

Demétrio Ribeiro: apenas citado

Edgar Graeff: Planos diretores para Caxias, Alvorada do Norte e Uruaçu, Residência para o Ministro de Minas e Energia em Brasília, Hotel Laje de Pedra

Carlos Fayet, Claudio Luiz Araujo, Moacir M. Marques e Miguel Alves Pereira: Refinaria Pasqualini

Carlos Fayet e Claudio Luiz Araujo: Ceasa de Porto Alegre

Miguel Alves Pereira: Ginásio Concórdia

O mesmo quanto a Brasília:

Universidade de Brasília

Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima: Instituto Central de Ciências

João Filgueiras Lima: Laboratórios do Departamento de Engenharia e Conjunto Residencial da Colina

Leo Bonfim e Alberto Xavier: Alojamento de Estudantes

Paulo Zimbres: Reitoria

José Galbinski e Miguel Pereira: Biblioteca Central

Jose Galbinski: Restaurante Universitário

Ricardo Farret e Paulo Zimbres: Centro Esportivo

Maurício Roberto: Banco da Amazônia

Alcides da Rocha Miranda: Banco Nacional de Desenvolvimento

Pedro Paulo de Mello Saraiva e Paulo Mendes da Rocha: Confederação Nacional da Indústria

Sergio Souza Lima: Superquadra do Itamaraty 19

Ícaro Castro Mello: Centro Esportivo e Ginásio

Pedro Paulo de Mello Saraiva, Sergio Ficher e Henrique Cambiaghi: Escola Fazendária

João Filgueiras Lima: Hospital de Taguatinga e Edifício Camargo Correia

Frente à frente com o Brazil

A viagem fora frutífera; havíamos encontrado arquiteturas diversas, resultado da geografia e do clima, da cultura local e seu tipo de vida, dos materiais empregados… Porém todas inescapavelmente modernas, todas reconhecíveis pelo gene comum, todas direta ou indiretamente fruto da difusão do modernismo pelo país.

Encerrada a farra dos passeios, chegara a temida hora da redação. Seja lá o que se ache delas, escrever as duas primeiras partes não foi problemático. Simplesmente recontamos a versão heróica que nos havia sido transmitida pela tradição oral das aulas de história da FAU, em especial aquelas do Eduardo Kneese de Mello. Versão essa que ia “desde o começo”, ou seja, o Warchavchik, passando pelo Corbusier no Brasil, o Ministério e o fenômeno Niemeyer, fechando em Brasília. 20 Para evitar maiores gafes, nos valemos da magra historiografia nacional de então e de um trabalho praticamente desconhecido por aqui, a tese de doutorado de Yves Bruand – atenção, não o livro, este só sairia em 1981, a tese de 1973. 21 Fontes essas, todas, que não fugiam em muito daquela versão heróica. Para maior precisão, nos apoiamos em informações coletadas nas revistas de arquitetura. Naqueles primitivos tempos sem catálogos online, um auxiliar indispensável foi o Índice da Arquitetura Brasileira, aquele que vai de 1950 a 1970. 22

Redigidas essas três partes, incluímos à guisa de conclusão uma sumária revisão da literatura, alinhavando os títulos mais influentes – lapso indesculpável, entre outros, é a ausência do livro do Lemos, Arquitetura Brasileira, lançado naquele ano de 1979. 23 E uma mais sumária ainda tentativa de discussão de um processo de regionalização que nos parecia estar em curso. Metidas, ousávamos até prever o regionalismo crítico. 24

O após Brasília: 1960-1979

Foi a terceira parte que exigiu bem mais das autoras. A nosso ver, é nela que reside algum interesse que – porventura – o Arquitetura Moderna possa ter hoje. Como aborda o período posterior àquele abrangido pela tal versão heróica, naquele momento era ainda terra ignota, território não mapeado – à exceção justamente do capítulo “Os tempos recentes” do livro do Lemos, que bestamente não consultamos.

É nela que tivemos que fazer a nossa própria escolha de arquitetos mais expressivos e obras mais representativas – o who’s who e what’s what da Sylvia e da Marlene. Inúmeros desses arquitetos, apesar de muito conhecidos, renomados mesmo à época, eles não haviam sido até então objeto de qualquer referência na crônica da profissão, como o Zanine, o Borsoi, o Assis Reis, o Lelé, o Zimbres, ou o Conde. É verdade também que outros que citamos nunca mais foram lembrados…

Apesar da arbitrariedade da escolha – qual seja, as nossas preferências, o nosso gosto pessoal e, por que não, até mesmo as nossas simpatias e antipatias –, o que mais nos surpreende em tal seleção, aqui e agora, é a sua permanência. Essa mesma seleção continua sendo repetida até hoje – quase ipsis litteris – em trabalhos historiográficos. Ela como que se tornou uma continuação da velha versão heróica. Acerto de julgamento ou mera coincidência, nada além de casualidade? Pior, talvez um vicioso e viciado efeito de teoria?

Acabando com o Brazil

Mal traduzido para o inglês, em algum momento em 1979 enviamos para o Sanderson aquele que seria apenas o primeiro esboço do “Brazil”. 25 Ele, numa demonstração de extremo profissionalismo, meses depois devolveu o texto com o inglês todo revisto, 26 acompanhado de uma longíssima carta na qual malhava o trabalho do começou ao fim, em particular a terceira parte, aquela em que mais havíamos caprichado. Só para dar o tom, aí vai um dos trechos mais duros:

I have worked long and very hard on your contribution… I am sorry that I cannot accept the second part (after the discussion of Brasilia) even as it now stands in my revision. There are simply too many very incomplete discussions in it…Ask yourselves just what are the major trends in Brasil’s architecture… and decide whether they are clear from your chapter (and they are really not clear to me). 27

Porém restava uma esperança:

I am sure that your chapter as it stands has all the “raw material” necessary for an excellent chapter, but it requires more shaping now.

A paulada vinha acompanhada de uma lista de questões a serem esclarecidas – vinte e seis para sermos precisas. Foi graças às suas críticas e perguntas oportunas que pudemos perceber como o nosso trabalho era fraco, amadorístico. Mãos à obra, perguntas divididas entre Marlene e Sylvia, finalmente surgiu um texto, ou melhor um copião. Trechos em inglês, trechos em português…

A tradução definitiva foi feita por ninguém menos do que o Dr. Paulo Emílio Vanzolini, então diretor do Museu de Zoologia da USP. A Sylvia já o conhecia e, na maior cara de pau, pediu que nos ajudasse. E ele não se restringiu a fazer uma tradução. Trabalhavam à noite em seu gabinete no museu, ele traduzindo e afinando o texto, ela anotando tudo. De noite correções, de dia datilografia do trabalho da noite anterior, isto por uns 10 dias… É a ele que devemos o que de bom tem a redação do “Brazil”.

Por fim, havia um texto se não brilhante, pelo menos correto e em bom inglês, que enviamos em maio de 1980.

Please find enclosed the final rewrite of our chapter… We were helped in the translation by Dr. Paulo Vanzolini (Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo) and would like to have this fact acknowledged somewhere in the article – we thank Dr. Vanzolini for his patient and careful reading of the chapter. 28

Apesar das ácidas críticas anteriores, o Sanderson findou por aceitá-lo, conforme nos informou a 2 de outubro:

Your manuscript is part of the Handbook indeed and is now in production at the Greenwood Press. Forgive me for not writing sooner and thanks for a good chapter. 29

O enredo continuou ainda por algum tempo, por conta de ilustrações e detalhes menores. Em novembro de 1981 o Handbook estava pronto, confirmando o que nos informara Sanderson em sua última correspondência:

Production of the book is on schedule and we should see the finished volume of some six hundred to seven hundred double-columned text pages [de fato, 623 páginas] with two hundred and fifty illustrations published by November of this year (Nov 20th). 30

Encucado, pesquisado e escrito entre 4 de setembro de 1978 e 14 de maio de 1980, o “Brazil” estava publicado!!

Fonte: Arquivo Sylvia FicherFonte: Warren Sanderson, International Handbook of Contemporary Developments in Architecture, 1981.Fonte: Warren Sanderson, International Handbook of Contemporary Developments in Architecture, 1981.

Enfim o Arquitetura Moderna

Um serviço que dera tanto trabalho, que não era de todo ruim e que poderia servir como uma primeira leitura para os estudantes, não um manual no padrão do Bruand, algo mais singelo, porém chegando até a década posterior à sua tese. Que tal publicá-lo?

Neste ato final as datas não vão ser tão precisas, deve ter ido de fins de 1980 a inícios de 1981. Feita a tradução, sim, a tradução de algo que nunca existira integralmente em português, selecionamos as ilustrações e montamos um “manuscrito”, algo tosco considerando os recursos digitais de hoje. 31 E o editor? A opção era óbvia… O Vicente Weissenbach topou, convidamos o Miguel para escrever a introdução.

Tudo parecia encaminhado… Que nada, o Vicente não gostou da conclusão. Mais trabalho, mais uma conclusão que, em retrospecto, também tem, entre outras, uma falha grave: o fato de não termos incorporado a ela justamente a conclusão em inglês, aquela com o rapidíssimo balanço da historiografia. Dada a dificuldade de acesso, aí vai o melhor trecho:

The study of contemporary Brazilian architecture suffers from the lack of historical texts. Brazil Builds (1943), Henrique Midlin’s books (1943, 1956), several articles by Lucio Costa, all written before 1960, and some scattered essays by architects have only recently been substantially augmented by Yves Bruand’s L’Architecture contemporaine au Brésil, a doctoral thesis published in 1973, exhaustively covering the field from 1900 to 1968. These important sources are complemented by architectural journals of a usually short or intermittent life in which there has been a notable absence of criticism and an exaggeratedly high valuation of architectural output. Perhaps in part this may be explained by the fact that Brazilian law does not clearly define the architect’s profession which overlaps with the civil engineer’s. Another contributing factor to this situation may well be that the cultural activity we know as architecture, after giving Brazil some international renown during the 1940s and 1950s, came to be viewed with suspicion during the 1960s concurrently with certain internal political changes. 32

Mesmo assim, descontadas as limitações das fontes e das autoras, ambas as conclusão, do “Brazil” e do Arquitetura Moderna, ainda interessam como documento de época. Inclusive, trazem esboçada uma primeira abordagem de algumas questões que só nas últimas duas décadas têm sido objeto de maior reflexão de nossa parte, historiadores e críticos de arquitetura, como a conflituosa relação entre o internacionalismo do movimento moderno e o desejo de afirmação de uma cultura nacional. Como então escrevemos:

Através da incorporação de uma teoria arquitetônica, que se propunha com validade internacional, foi possível a coexistência das duas aspirações contraditórias – a adequação da arte e da arquitetura brasileiras [a]os estágios mais avançados da produção européia e a superação da dependência cultural. 33

Em 1982 seria a vez do Arquitetura Moderna ser publicado! Quando o vimos, uma grata surpresa: não só uma elegante programação visual como tudinho fora desvairadamente ilustrado, coisa que jamais havíamos imaginado que seria feita e da qual não tivéramos conhecimento. Contribuição ímpar do Hugo Segawa, que repetira o nosso roteiro e foi muito além, lá onde não havíamos ido, fotografando todas as obras citadas. Contribuição ímpar, sim; afinal várias delas estavam sendo publicadas pela primeira vez.

O lançamento foi a 7 de dezembro na loja da Oca, na Faria Lima, cedida por seu dono, cujo nome não recordamos. Graças à prodigalidade do Vicente, era tanta bebida que a noite de autógrafos só poderia ser um sucesso!!


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Algo mais do que recordações

How shall we beguile the lazy time
If not with some delight?

Shakespeare, A midsummer-night’s dream

Tantas estórias meio esquecidas, vem o convite da Ruth para participarmos da sua sessão temática naquele que foi o primeiro evento da longamente ansiada Anparq. 34 Valeu o reencontro com quem fomos. E o reencontro com um Arquitetura Moderna até que algo valorizado, hoje vendendo por até cem reais, e como livro raro35

Porém tudo isso é folclore. A quatro mãos novamente, voltemos à carta do Sanderson de dezembro de 1979. Há nela um comentário curioso:

I knew that developments in your country were very important, but now from your contribution I realize that even I had underestimated just how important they were in our filed.

Tal constatação ecoaria na sua introdução do Handbook, “Trends in Contemporary Architecture”:

South America had been made well aware of the new style of buildings by Le Corbusier himself during his lecture tour of the continent in 1929. architects in Argentina, Brazil, and Uruguay were especially receptive to his ideas, and in 1936 he was invited to Brazil as a consultant for what became a landmark of modern architecture in South America, the Ministry of Education and Health building in Rio de Janeiro (1936-1943). This had effects not only during the forties in South America but also in the fifties in the Republic of South Africa where the Meat Board Building in Pretoria (1951) by Stauch and Partners is related to it, according to I. Prinsloo. 36

I. Prinsloo? Ora, o autor do capítulo sobre a África do Sul do Handbook, quem nos brinda com uma inesperada assertiva:

The local experience with the International Style had not been entirely satisfactory due to technical failure and public rejection, and architects actively sought other modes of designing in the postwar period. At this time a new set of diverse influences entered the field; the influence of Scandinavian work, the gentler brick architecture of persons such as Dudok (both under the rubric of New Empiricism), and the recent work done in Brazil and made known to South Africans by the publication of Brazil Builds (Goodwin, 1943) with photographs by Kidder Smith. The Brazilian work in particular had a wide and pervasive influence, especially in Pretoria with its hot climate, and on a group of architects who were culturally particularly receptive to a new, non-European architecture. The capital city of the country was the center of those pressures which sought to develop a particular South African identity and, in building, Brazilian models seemed more appropriate than European ones. The influence was mainly two fold: that relating to vernacular building, that is, seeing that vernacular building could provide a legitimate point of departure for modern building; and that relating to building form as such, in particular lessons from the Ministry of Education and Health Building, Rio de Janeiro (Lucio Costa and others, with Le Corbusier, 1942). The brise-soleil, the use of pilotis, and the use of a regular frame to contain the other elements, were particularly emulated. The Meat Board Building, Pretoria (Stauch and Partners, 1951), is a good example of the application of these ideas and the fact that the Institute of South African Architects gave an Award of Merit to it signifies the importance attributed to these ideas. 37

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Essas leituras, lá no longínquo 1981, foram extremamente sugestivas. Nenhuma novidade então encontrar comentários – elogiosos ou abertamente adversos, tanto faz – sobra arquitetura brasileira nos principais manuais estrangeiros sobre o modernismo – hoje rotulados de “textos canônicos”, o que só faz reforçar a versão heróica eurocêntrica. Veja-se o Hitchcock (1958), o Benevolo (1960) e, bem depois, o Tafuri e Dal Co (1976) e o Frampton (1980). Fora do nosso limite temporal, Curtis (1982) tampouco têm algo diferente a dizer deste ponto de vista.

Em trabalhos publicados até aquela época, raramente havíamos nos deparado com informações tão embasadas como aquelas do Prinsloo sobre o impacto da arquitetura brasileira – leia-se, carioca – no exterior.

Oscar Niemeyer, vá lá que seja. Ainda que, apesar de toda a fama, ele tenha sido sempre injustiçado quando se trata de ressaltar a sua ascendência sobre outros arquitetos mundo afora. Lá pra trás, considere-se a sua óbvia e raramente apontada influência nas mais importantes realizações de Wallace Harrison. 38 Nos tempos atuais, só não vê quem não quer a maniera niemeyeriana refletida na obra dos mais incensados arquitetos do star system arquitetônico, como Santiago Calatrava ou Christian de Portzamparc. Mesmo que não economizem elogios, destes, apenas Zaha Hadid parece prestar a devida vênia e reconhecer a dívida. 39

Já o Brazil builds em circulação em Pretoria nas década de 1940? E o Ministério modelar e fazendo escola por lá? Até mesmo o nativismo sendo reverenciado e objeto de reflexão??!?!

Uma relativa exceção encontra-se em um dos tais canônicos. No último capítulo do seu Outline, “From the end of the First World War to the present day”, Nikolaus Pevsner, apesar de não afirmar categoricamente uma primazia do modernismo brasileiro de 1945 em diante, cita-o extensivamente – como sempre um pouco de Reidy e muito de Niemeyer –, para exemplificar tanto o que vê de positivo como de negativo na produção arquitetônica da época. 40

Ao discutir a difusão do International style, por duas vezes Pevsner se refere ao Brasil em primeiro lugar: With this the barrier of the Second World War is passed. The war meant to many countries – though not to all – another break of five years and more. Brazil had built what she liked…; ou Fifty years after its creation [the style of the twentieth century] it has its outposts nearly everywhere… He [the critic] has to visit Brazil without any doubt41 Paradoxalmente, após censurar enfaticamente o que denomina the revolt from reason dos cariocas, as realizações que escolhe para elogiar como “racionais” são o conjunto da ONU e a Lever House, ambos com óbvia pitada de carioquice. Adiante, outro exemplo elogiado por seu caráter pitoresco é o conjunto residencial Roehampton (1952), em Alton West, Londres, bastante próximo do Parque Guinle (1949-1954) e mais ainda da posterior superquadra brasiliense. 42

Bem mais explícitos e efetivos, na literatura estrangeira vêm à mente Percy Johnson-Marshall e Marcus Whiffen como autores que haviam, até então, dado crédito aos brasileiros por inspirarem arquitetos estrangeiros, por seu impacto no cenário internacional no segundo pós-guerra. E isto em dois países centrais, Estados Unidos e Inglaterra. Já a Europa continental nunca se manifestou, sempre passou batida pelo assunto.

Referindo-se à Lever House, em Nova York, Johnson-Marshall escreve:

This superb design by architects Skidmore, Owens and Merrill for Messrs Lever was a pioneer in the form of commercial office buildings… A simple vertical form, larger but of approximately the same shape as the Ministry of Education building at Rio, was placed over a low platform consisting of a two-storey hollow square with most of the ground floor left open. Compared with almost any other building in Manhattan (except the U.N. Building) the public gain was very great. It was this building that we made our prototype for the Barbican scheme in London, proposing a number of tall blocks with low slabs, the latter being joined by bridges to form a complete upper level pedestrian system.43

Em outras palavras, bom mesmo em Manhattan só a Lever e a ONU – ambos filhotes do Ministério. Idem para a reurbanização do Barbican, em Londres…

Whiffen é peremptório. No capítulo “The New Formalism” de seu livro American Architecture since 1780, após citar obras de Philip Johnson, Minoru Yamasaki e Edward D. Stone, afirma:

The architects of the New Formalism are unashamed in their pursuit of delight…And it is to Stone, more than any other single architect, to whom we owe the return of the arch, though the inverted arcade, so popular with the designers of banks and real estate offices, has its source outside the United States in Oscar Niemeyer’s presidential palace in the new capital of Brazil. 44

Comentário bem exemplificado por um bizarro projeto de E. Stewart Williams (1909-2005), arquiteto mais conhecido como autor da casa de Frank Sinatra em Palm Springs…

Tudo isso nos levara a pensar que havia ali uma pista que valeria a pena investigar. 45 Entretanto nossos caminhos seguiram outros rumos, assumimos outras responsabilidades e tal curiosidade findou um tanto abandonada em algum canto da memória. Uma reflexão que sempre quiséramos aprofundar e à qual só agora, trinta anos depois, retomamos para matar a saudade.

Helmut Stauch e o Meat Board Building

Muito preliminarmente, restringimo-nos a uma muito superficial varredura na web. Começando pela Stauch and Partners. Surpresa: a firma, criada em 1943, ainda existe, denominada Stauch Vorster Architects, e – até onde se pode confiar em uma fonte da internet e sem data… –, é o maior escritório de arquitetura da África do Sul e está incluída entre os duzentos maiores do mundo. 46

O próximo passo foi saber algo sobre o seu fundador, Helmut Wilhelm Ernest Stauch. Nascido em 1910 em Eisenach, Alemanha, sobre os inícios de sua trajetória profissional vale notar que estudou na Technische Hochschule de Berlim – onde foi aluno do Neuffert; começou a fazer projetos na África do Sul em 1928 – país onde seu pai enriquecera graças à descoberta de jazidas de diamantes; talvez tenha estagiado com Gropius e Breuer. Por volta de 1935 se transferiu definitivamente para Pretoria, lá falecendo em 1970. 47

Por uma antiga colaboradora sua, Shelagh Suzanne Nation (1985), somos informadas que:

About a year after Wepener joined him [1948], he went on a boat trip to Rio de Janeiro with the main intention of meeting Oscar Niemeyer and seeing his work… His visit to Niemeyer surprised him in many ways. Although he had a deep admiration for the South American architect, Niemeyer’s disregard for such practicalities as whether or not the roof leaked came as a shock to Stauch. But Niemeyer’s emphasis on aesthetic values appears to have appealed to him strongly; it was to a large extend dominant in his own architectural philosophy.

When, shortly after his trip, he was commissioned for the Meat Board Building, the Niemeyer influence was clear. His design for this building aroused a great deal of interest. Writing on the architecture of Johannesburg and environs, Nikolaus Pevsner discussed the lagging behind (in architectural character) of public buildings in general and went on to say: “As for the public buildings a similar change is perhaps imminent. There is at least one extremely encouraging case. To design the new building for the National Meat Board a private architect H W E Stauch, was commissioned (telegraphic address: Bauhaus, Pretoria), and the result is excellent… (The Architectural Review, June, 1953). At least seven leading architectural magazines published full articles on the building, students in South Africa made a point of visiting it and its impact continued for years. 48

Adiante voltaremos ao artigo de Pevsner, fonte importantíssima recorrentemente citada e que pode ser consultada na biblioteca da FAU/USP. Quanto ao próprio prédio, um site nos permitiu visualizá-lo pela primeira vez, entender melhor a sua denominação original: National Meat Board Building, e saber a atual: Nipilar House. 49

Norman Eaton

Estava aberta a estação de caça! Fuçando, fuçando, encontramos outra informação empolgante: em Pretoria a influência do racionalismo carioca havia se manifestado ainda antes, na década de 1940, e isto em projetos de outros arquitetos. Como Norman Musgrave Eaton (1902-1966) que:

… was commissioned in 1944 to design the Ministry of Transport Building… The design of the Ministry of Transport Building was to be the first Modern Civic building in South Africa and also the first which was directly influenced by the new Brazilian architecture, owing much to the Rio de Janeiro Ministry of Health and Education. 50

Além desse prédio – do qual não encontramos ainda uma imagem –, achamos referências relevantes a mais dois projetos seus. O Netherlands Bank, no qual entra em cena até Burle Marx!

Designed in 1953 the Netherlands bank was a summary of the Brazilian notions used in the Ministry of Transport building. Vertical hardwood louvers were used on the western façade of the building as solar shading towards the harsh afternoon sun. On his travels to Brazil, Eaton met with Roberto Burle Marx (acclaimed Brazilian landscape architect) who inspired him to make use of a roof garden51

E o Pretoria Wachthuis, cuja data não encontramos. Se olharmos distraidamente a sua foto, podemos nos confundir e achar que fica aqui, no Flamengo, no Rio, ou em Higienópolis, em São Paulo.

Also the Pretoria Wachthuis (police administration building) owes much to the Brazilian influence – the use of an arcade paved in marble mosaic murals that are linked by a sweeping double stairway to the upper level, the introduction of brise soleil on the façade and elegant steel helical stairs in the double volumes of the ground level shops. 52


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Ampliando o território

Os indícios estavam se acumulando, a investigação estava passando de factível a factual. 53 Continuando a escarafunchar, fomos nos deparando com várias referências à influência carioca em Pretoria, como um artigo mais recente do Prinsloo (1995), “South African syntheses – architecture”, trabalho que traz um amplo panorama da arquitetura sul-africana do século 17 até o presente. 54

Previsivelmente, cita Pevsner o seu little Brazil ao discutir a segunda onda modernista, justamente aquela que aqui nos interessa. Mesmo antes de ler o artigo de Pevsner – “Johannesburg: the development of a contemporary vernacular in the Transvaal” – somos obrigadas a retificar o acima dito e reconhecer: agora temos um canônico inequivocamente identificando uma difusão do racionalismo carioca na África do Sul no momento mesmo em que ela estava ocorrendo. Após sua leitura, somos obrigadas também a retificar o nosso foco, uma vez que Pevsner discorre mais sobre o que acontecia em Johannesburg e pouco nos diz sobre Pretoria – refere-se apenas a Eaton e Stauch, e isso en passant. Assim, ele nos obriga a considerar a preeminência de Johanesburgo em nossa pesquisa:

I doubt if there is any other city in any other part of the Commonwealth which can offer the eye so consistent and convincing a vision of the style of to-day… But the undeniable fact remains: the unknown existence of a Little Brazil in the Transvaal.

All this new blocks of flats in Johannesburg are modern… Moreover, they are all of the same sub-species of modern: with reinforced concrete frames and brick panels; plastered partly in pale colours… They have horizontal windows, recessed or rectangularly projecting balconies, and somewhere or other projecting frames.

The projecting frame is the hallmark of Johannesburg at this time. It reached town with Rex Martienssen’s own house… The motif has been used by architects in England before the war more frequently than in other countries. Maxwell Fry, Lubetkin, F. R. S. Yorke and Goldfinger all have occasionally made use of it between 1935 and 1939… The popularity of the motif may well be due to its wide acceptance by Brazil and the sudden fame won by Brazilian buildings, thanks to Mr. Kidder Smith’s gloriously illustrated Brazil Builds of 1943. There examples abound, by Niemeyer, the Robertos and so on. Whether Johannesburg swallowed it whole, thanks to Martienssen’s house or Brazil Builds, I cannot say. Anyway, it is ubiquitous now. 55

E também a considerar uma longa lista de arquitetos para estudo, como o próprio Martienssen e seus sócios John Fassler e Bernard Cooke – e mais Cowin e Ellis; H. H. Le Roith; Philip Karp; S. A. Abramovitch; Hanson, Tomkin e Finkelstein; Bernard Janks; W. G. McIntosh; G. Candiotes; Stegman, Orpen e Porter.

Contudo, quanto Pevsner trata de arquitetura residencial, nos exemplos que mostra as influências não são mais tão cariocas, predominando um gosto wrightiano por telhados de pouca inclinação e largos beirais e paredes cegas de pedra não aparelhada. Tanto que uma das casas ilustradas, a residência Gershater, de Le Roith, traz à mente nada mais, nada menos, do que residência Lacaze, projeto de 1941 de Vilanova Artigas.

Há ainda nuances políticas que não devem ser desconsideradas. Veja-se o artigo “The New Futurists”, de Ivor Chipkin, que aponta uma relação entre a adoção da arquitetura moderna na África do Sul – tendo como modelo a brasileira – e a legitimação de um governo de direita, o que nos recorda justamente o que aconteceu por aqui com Getulio Vargas:

The Futurists thus split between those that eventually became Fascists and those that became Communists. Indeed, this was precisely the ambivalence of the Modern Movement. Casa del Fascio , designed by Giuseppi Terragni and built in 1936, sometimes described as “the landmark of modern European architecture” (Zevi, pp. 70-74) was commissioned by none other then Benito Mussolini to celebrate and house the Italian Fascist Party! At roughly the same time Le Corbusier was in Moscow doing the headquarters for the Pravda newspaper. Closer to home, we will see the apartheid government invoke Modern Movement architecture to make their own claims to modernity. See, for example, the Meat Board Building done by Helmut Stauch in 1952. 56

Ampliando ainda mais o território, um artigo de Roger C. Fisher, “Africa: Southern and Central Africa” – talvez verbete de uma Encyclopedia of 20th Century architecture 57 – dirige nosso olhar para outros países africanos, em especial aqueles de colonização portuguesa:

In the years directly following World War II, Expressionist modernism became popular on the subcontinent, fired by the “Brazil Builds” exhibition (1943) and the subsequent publication of the same name. Graduates from the architectural schools of the Witwatersrand and Pretoria (established 1943) had a particular affinity for the style, and the highveld became a “Little Brazil,” a style term used by [Clive] Chipkin (1993) and derived from Pevsner’s (1953) observation that Johannesburg was “a little Brazil within the Commonwealth”. The appellation has expanded to all southern African architecture of the 1950s and 1960s that reflects Brazilian influence. The idiom is most flamboyant in the then-Portuguese colonies of Angola and Mozambique, particularly in Lorenço Marques (now Maputo), with Pancho Guedes being its distinguished exponent. 58

Pancho Guedes

Entra em cena agora mais um personagem, Amâncio d’Alpoim Miranda “Pancho” Guedes (1925), artista fascinante e, este sim, autêntico regionalista crítico.

Pancho Guedes – born in Lisbon in 1925, grew up in Lourenço Marques, Mozambique, and studied in South Africa, where he discovered painting and the intensity of the Mexican muralists. He graduated in Architecture at the University of Witwatersrand, in Johannesburg (1953), getting academic recognition by Escola de Belas-Artes do Porto (Oporto School of Fine Arts) the following year. His architectural work mainly focuses on Lourenço Marques (now Maputo), where he developed an original style that would later be called Stiloguedes, disclosing influences ranging from the paintings of Picasso to his friend Malangatana’s, from a dreamlike Freudian universe to African sculpture, mixed with an expression characterised by a “Dadaist” disposition, fostered by his friendship with Tristan Tzara. 59

Sua riquíssima obra, de uma variedade extrema, não admite classificações simplórias, como bem demonstra um passeio pelo seu Vitruvius Mozambicanus. 60 Além disso, a nossa informação é muito tênue e, portanto, insuficiente para incluí-lo com segurança no rol dos arquitetos influenciados pelo modernismo carioca:

while he admired Le Corbusier’s commitment to painting and the forms of his buildings, he was not attracted to the machine aesthetic of the ‘International Style’… His Latin temperament responded more to the freer sculptural expressive forms of Brazilian architects like Alfonso Reidy and Oscar Niemeyer, the Mexican Juan O’Gorman, the work of Frank Lloyd Wright, the buildings of Antonio Gaudí, and his own growing response to African61

Ao cabo, encontramos apenas dois dentre os seus projetos que poderiam quiçá ser adequadamente entendidos como resultado de uma tal inclinação, o prédio de apartamentos e lojas Maxaquene e a Padaria Saipal, ambos em Maputo, mas nem sabemos suas datas.

Pancho Guedes de há muito tem relações com o Brasil, tendo participado da Bienal de São Paulo em 1961, com o projeto de um prédio de apartamentos deliciosamente denominado “Leão que Ri”, ao que parece uma de suas obras mais conhecidas. 62 Há pouco nos deu o ar da sua graça ao participar da 7ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, integrando a exposição “Europa, Arquitetura em Emissão”, representação oficial portuguesa. 63

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As colônias portuguesas na África e Lisboa?

Nessa mudança de delimitação e rumo, considerar as colônias portuguesas parte da trama levanta mais interrogações. Temos agora várias alternativas para os vetores da difusão diagnosticada. Será que a inspiração para essas arquiteturas veio diretamente do Rio, ou lá aportou via Johanesburgo e Pretoria, ou via Portugal? Ou, ainda, será que chegou simultaneamente lá e em Portugal?

Peraí, como é que Portugal está entrando nessa estória? Simplesmente porque em Lisboa há um número significativo de edificações que também trazem a mesma impressão digital carioca. Como o conjunto de quatro prédios de apartamentos à avenida Infante Santo, sobre o qual nada sabemos, mas cujas fotos apóiam a sugestão.

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Harry Seidler

As pistas não param por aí. O Marcos Acayaba entrou na roda, nos contando que o vienense Harry Seidler (1923-2006) estagiou por certo tempo no escritório de Niemeyer, no Rio. Isto foi em 1948; no ano seguinte mudou-se para a Austrália, onde iria se tornar profissional de grande renome. Antes, estudou arquitetura no Canadá e nos Estados Unidos – lá, cursou Harvard, onde foi aluno de Gropius; foi assistente de Albers no Black Mountain College e de Aalto no MIT; e trabalhou com Breuer em Nova York.

E depois de ter circulado nessa incrível roda de vanguarda, escolhe Niemeyer para guru!! Fato confirmado por Kenneth Frampton:

Surely one of the most vital aspects of Harry’s civic architecture was the important expressive role to be played by structural engineering in the generation of his form as is very evident in such works as the Navy Weapons Workshop on Garden Island, Sydney of 1985 and the Hong Kong Club in downtown Hong Kong, completed one year before, with its 17 metre span column free spaces. One might think of all of these works as amounting to a kind of isostatic baroque feeding partly off the joint legacy of Oscar Niemeyer and Marcel Breuer, with whom Seidler had briefly worked in the late 40s, and off the work of Pier Luigi Nervi, who was a perennial presence in Seidler’s architecture via his top assistant Mario Desideri, who was the engineer for many of Harry’s buildings from the mid-60s onwards. 64

Sem maiores comentários, uma visita ao site da Harry Seidler and Associates – http://www.seidler.net.au/ – permite verificar como a maniera niemeyeriana foi uma constante ao longo da sua carreira.

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Morris Lapidus

O Marcos tomou gosto; entusiasmado, chamou nossa atenção para outro arquiteto de grande sucesso, Morris Lapidus (1902-2001).

The Lapidus store designs of the 1930’s and 40’s were groundbreaking in their expansive use of glass, focused lighting, intriguing plans, innovative signing, theatrical impact and timelessness. He was a fearless designer, who was regularly mocked by his more “sophisticated” colleagues as a “schlock meister”, but nevertheless continues to have a significant impact on the world of commercial design. 65

Mas a fama internacional veio mesmo com o seu Fontainebleau Hotel, em Miami, projetado justamente três anos depois de sua visita a Niemeyer. Conforme contou em uma entrevista:

JC: As far as yours hotels are concerned, don’t you think you have a colleague in this kind of architecture in Oscar Niemeyer?

ML: I didn’t mention him? He had a great influence. I went to Brazil in 1949, and, of course, the one man I had to see was Oscar Niemeyer, because he was a man who was doing things the way I thought they should be done.

HK: He had the wavy lines, undulating walls.

ML: Yes, all of that. But you must remember that, in 1949, I was still very unsure of myself, didn’t think of myself as an architect doing anything worthwhile: only stores and offices. But I had watched Niemeyer and, actually, in 1949, he wasn’t firmly established yet. He had designed Pampulha. I spent more than half a day with him in his office, and then we spent an evening together at his home. We talked and talked a great deal, and I am sure that his influence must be there pretty strongly. However I found his influence only in the architectural shell. His interiors were quite barren. He had no feelings for interiors. They meant nothing to him. He wanted sculptural architecture like Le Corbusier, his great teacher. 66

E hoje, quando o individualismo romântico está de volta às paradas de sucesso, o estilo de Lapidus – visto por muitos e por um longo tempo como um tanto brega – volta a ser objeto de encômios:

What Lapidus did, among other things, was to combine elements of Modernism from Le Corbusier, Niemeyer, and Mendelsohn with local precedent to create a new building type—the American resort hotel. 67

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Quem se habilita?

The actors are at hand;
and by their show, you shall know all,
that you are like to know.

Shakespeare, A midsummer-night’s dream

Fechando esta dupla viagem – pelo Arquitetura Moderna e pelo ciberespaço –, o que fica óbvio é a profunda diferença entre o que é pesquisa na década de 1970 e hoje em dia. Para a primeira delas tivemos que ir de cidade em cidade, localizar pessoas, dar telefonemas, fazer entrevistas e anotar conversas, visitar obras e mais obras, vez ou outra conseguindo algum material impresso ou fotografias, sem contar datilografar cartas e levá-las no correio…

Já nesta brincadeira de agora, valemo-nos quase que apenas da internet. Bendita e maldita internet! Salvo um serendipitoso passeio por Lisboa, nem saímos de casa, a investigação mal começou – não examinamos outras fontes primárias que não fotos de alguns prédios – e já temos fortes indícios de que há uma pesquisa promissora pela frente.

De imediato, apresentam-se dois caminhos em nada excludentes.

Por um lado, dedicar-se a esse opulento veio, considerando como já explorado por outros autores: o impacto e influência, seja da arquitetura brasileira em geral, seja em particular aquela carioca dos irmãos Roberto, de Affonso Eduardo Reidy ou de Oscar Niemeyer, no exterior nas décadas de 1940 a 1960. Por outro, enveredar por uma reflexão de ordem metodológica sobre quais critérios e parâmetros adotar no cotejo e validação de fontes, agora que temos a web e seus imensos recursos para obter informações – tantas informações que podem nos fascinar e, enfeitiçados, fazer-nos incorrer em graves equívocos.

E não é que o Andrey Schlee já está aproveitando suas férias em Punta del Este para se candidatar. Olha só o que ele encontrou por lá!!

Quem mais se habilita?


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notas

* Este artigo é uma versão revista e bastante ampliada do trabalho de mesmo título apresentado no simpósio temático “Panoramas da Arquitetura Brasileira Moderna e Contemporânea”, organizado por Ruth Verde Zein no 1º Encontro Nacional da Anparq, realizado em 2010 no Rio de Janeiro, e publicado em seus anais. Na sua elaboração então e agora, contamos com o apoio do acadêmico Luiz Eduardo Araújo.

1 Informações atualizadas na net sobre Sanderson são escassas, quase nil. Segundo o seu currículo no Handbook, ele lecionou história da arquitetura medieval e moderna em várias universidades de diferentes países. Publicou vários artigos em revistas especializadas e, entre outros, os livros: Frühmittelalterlichen Krypten von St. Maximin in Trier (1968); Frank Lloyd Wright festival: Oak Park (1969); e Monastic reform in Lorraine and the architecture of the outer crypt, 950-1100 (1971)

2 Correspondência de Sanderson a Sylvia, 5 jul. 1978.

3 De seus autores, à época conhecíamos de nome apenas Yves Bruand, responsável pelo capítulo “France”, e Elizabeth D. Harris, pelos capítulos “Argentina” e “Venezuela”.

4 Busca sumária nos catálogos online de algumas das mais importantes bibliotecas universitárias brasileiras levou a apenas um exemplar na Escola de Engenharia de São Carlos.

5 http://www.eurospanbookstore.com/display.asp?k=9780861720255&

6 http://www.bookadda.com/product/international-handbook-contemporary-warren-sanderson/p-97803132 14394-313214395

7 http://www.stoutbooks.com/cgi-bin/stoutbooks.cgi/86108

8 http://www.abebooks.com/servlet/SearchResults?an=Sanderson%2C+Warren&sortby=17&sts=t&x=46&

9 http://www.amazon.com/gp/offer-listing/0313214395/ref=olp_sort_p?ie=UTF8&shipPromoFilter=0&sort= price&me=&seller=&condition=used

10 Acayaba e Ficher, 1978. A Sylvia era amiga do Vicente Wissenbach, que ela conhecia do Bar do Zé, na Maria Antônia, e do escritório do Artigas, porque ele era cunhado do Alfredo Paesani. Então, isto facilitou a publicação daquele nosso primeiro artigo na revista Projeto.

11 Trata-se do Curso de Especialização em Patrimônio Ambiental Urbano, no qual o professor Fitch ofereceu em agosto daquele ano uma disciplina cujo conteúdo está publicado em Preservação do patrimônio arquitetônico (São Paulo, FAU/USP, 1981).

12 Correspondência citada de Sanderson, de 1978. O prazo que ele otimistamente estabelecia era março de 1979.

13 Não conseguimos encontrar essa carta, mas a resposta de Sanderson esclarece este importantíssimo detalhe: 4 de setembro de 1978.

14 Correspondência de Sanderson a Sylvia, 18 set. 1978.

15 Expressão “oficializada” no título dos três volumes contendo depoimentos de onze arquitetos publicados pelo IA/RJ naquele ano de 1978.

16 Este inadequado comentário tenta responder a pertinente indagação de Danilo Matoso Macedo.

17 Erroneamente grafado Itabira no livro.

18 Holanda, 1976. Cada uma de nós ganhou um exemplar; o da Sylvia foi emprestado para o Vicente quando estavam preparando o Arquitetura Moderna e sumiu…

19 Aqui uma injustiça indesculpável: a omissão da Mayumi Souza Lima.

20 O segundo capítulo, grafado corretamente no manuscrito como “Brasília 1956-60”, no livro apareceu como “Brasília 1856-60”.

21 Triste indicador daquela magreza, nossa bibliografia indicava 28 títulos entre livros e artigos e mais 10 periódicos.

22 Costa e Castilho (orgs.), 1974. Os demais volumes viriam muito depois, já nos anos 80.

23 A Sylvia, então, nem tem desculpa. Ela ganhou o seu exemplar do próprio Lemos e a dedicatória entrega quando: 25 de setembro de 1979.

24 Ver Tzonis e Lefaivre, 1981 e 1985; e Frampton, 1983.

25 Mais uma data imprecisa; contudo temos uma carta do Sanderson, de 25 de maio, informando o recebimento.

26 Infelizmente não guardamos a sua versão corrigida.

27 Correspondência de Sanderson a Sylvia, 1 dez. 1979.

28 Correspondência de Marlene e Sylvia ao Sanderson, 14 maio 1980. Nossa solicitação foi aceita, constando lá na primeira página do “Brazil”: The invaluable assistance of Dr. Paolo [sic] Vanzolini of the Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo, with the English translation as well as his patient and careful reading of this chapter are most gratefully acknowledged by the authors.

29 Correspondência de Sanderson a Sylvia, 2 out. 1980.

30 Correspondência de Sanderson a Sylvia, 31 ago. 1981.

31 É esta origem em um texto “escrito para estrangeiros” que explica aquelas frases de apresentação de cada cidade, falando de sua localização e clima, algo que talvez devêssemos ter cortado no livro…

32 Acayaba e Ficher, 1981, p. 171. Datando a sua elaboração e mostrando como a autocensura funciona, note-se o eufemismo com que, na última frase, nos referimos à ditadura.

33 Ficher e Acayaba, 1982, p. 114.

34 Ou AnPark, segundo os consumistas de arquitetura e afins.

35 http://www.estantevirtual.com.br/rarissimuslibris/Sylvia-Ficher-Marlene-Milan-Acayaba-Arquitetura-Mo derna-Brasileira-33716408

36 Sanderson, 1981, p. 4.

37 Prinsloo, 1981, p. 454.

38 Isto apesar de ser de amplo conhecimento que Harrison era bastante familiarizado com o estilo de Niemeyer, tendo sido o responsável pelo detalhamento do projeto da ONU (1947-53). Veja-se, de sua autoria, o Lincoln Center (1959-78), em Nova York, ou o Centro Administrativo do Estado de Nova York (1965-78), em Albany.

39 Mostafavi, 2001, p.34.

40 Revisto várias vezes, a primeira edição do Outline é de 1943. Aqui usamos a sétima edição, de 1963. É nela que aparece talvez pela primeira o capítulo em pauta (pp. 404-35). “Talvez” porque examinamos a quinta edição, de 1957 – na qual o conteúdo do capítulo aparece de forma ainda embrionária, porém não tivemos acesso à sexta edição, de 1960, para o necessário cotejo.

41 Pevsner, 1963, pp. 419 e 421. É possível, inclusive, inferir que Pevsner culpa o Brasil pelos descaminhos estéticos na obra de Le Corbusier – em direção ao que considera “irracionalismo”. Após criticar a frivolidade da arquitetura brasileira, ao falar da Pampulha e do Pedregulho – Brazil is the country in which the fascination and the dangers of the mid-century irresponsibility appears most concentratedly –, conclui que Le Corbusiervisited Brazil, and its conceivable that the country had the effect on him of forcing into the open the irrational traits of his character… Mas teria sido ele, Corbu, quem teria contagiado os brasileiros: he then passed on his impulsive enthusiasm to his young admirers (pp. 426-29).

42 Idem, pp. 429-35.

43 Johnson-Marshall, 1966, p. 80.

44 Whiffen, 1976 (1ª ed.: 1969), pp. 256-62.

45 Na linha sugerida por Carlo Ginzburg em “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” (in Ginzburg, 1989, pp. 143-79).

46 http://www.emporis.com/application/?nav=company&lng=3&id=103193. Infelizmente o site da própria não é muito informativo: http://www.svarchitects.com/

47 http://www.artefacts.co.za/main/Buildings/arch_bottom_left.php?archid=1614

48 Nation, 1985, p. 67. http://upetd.up.ac.za/thesis/available/etd-12092008-085230/unrestricted/04chap ter6.pdf.

49 The Meat Industries control Board was brought into being to regulate the distribution of meat throughout South Africa and to monitor prices… Hoje abriga, entre outros, a ong National Institute for Public Interest Law and Research. http://wiki.up.ac.za/index.php?title=ABLEWIKI:NipilarHouse

50 Jooste, 2007, p. 83. http://upetd.up.ac.za/thesis/available/etd-11192007-123037/unrestricted/05chapter 5.pdf

51 Idem, p. 84. Este prédio também recebeu a Menção de Mérito do South African Institute of Architects.

52 Idem, p. 85.

53 Para nos apropriar da expressão empregada no Houaiss para exemplificar o uso de “factual”.

54 http://findarticles.com/p/articles/mi_m3575/is_n1177_v197/ai_16788119/?tag=content;col1

55 Pevsner, 1953, pp. 381-82.

56 http://wiserweb.wits.ac.za/PDF%20Files/wirs%20-%20chipkin2.pdf. O texto não tem data, mas por sua bibliografia é de 2002 ou posterior. E deve-se atentar para o fato de que há dois Chipkin: este Ivor e um Clive, ambos com trabalhos nesse campo.

57 Sennott (ed.), 2004.

58 http://www.bookrags.com/tandf/africa-southern-and-central-africa-tf/. Também sem data, mas por sua bibliografia é de 2000 ou posterior.

59 http://www.davidkrutprojectscapetown.com/uncategorized/pancho-guedes-dvd/

60 Guedes, 1985 (?), http://www.guedes.info/contfram.htm

61 http://www.guedes.info/abcontfram.htm.

62 http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/pancho-guedes/

63 Na companhia de, entre outros, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura, Fernando Távora e Nuno Portas. http://www.dgartes.pt/sao_paulo_2007/index.htm

64 Frampton, 2006; http://www.seidler.net.au/.

65 Morris Lapidus, Pioneer of Store Design, June 3rd, 2010; http://storedesign.tumblr.com/day/2010/06/03.

66 Cook e Klotz, 1973, pp. 174-75.

67 Friedman, 2000; http://www.gsd.harvard.edu/research/publications/hdm/back/11friedman.html


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correspondências

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Warren Sanderson a Sylvia Ficher, Montreal, 18 set. 1978.

Warren Sanderson a Sylvia Ficher, Montreal, 25 maio 1979.

Warren Sanderson a Sylvia Ficher, Montreal, 1 dez. 1979.

Marlene Milan Acayaba e Sylvia Ficher a Warren Sanderson, São Paulo, 14 maio 1980.

Warren Sanderson a Sylvia Ficher, Montreal, 2 out. 1980.

Warren Sanderson a Sylvia Ficher, Champlain, NY, 31 ago. 1981.


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Sylvia Ficher
Doutora em história pela FFLC/USP, com pós-doutorado em sociologia na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris), e professora da FAU/UnB. É autora de Arquitetura Moderna Brasileira (1982), com Marlene Milan Acayaba; GuiArquitetura de Brasília (2000), com Geraldo Nogueira Batista; Os Arquitetos da Poli (2005), agraciado com o Prêmio Clio, da Academia Paulistana de História; e Guia de obras de Oscar Niemeyer: Brasília 50 anos (2010), com Andrey Schlee. sficher@unb.br

Marlene Milan Acayaba
Doutora pela FAU/USP, dirigiu o Museu da Casa Brasileira de 1995 a 2002. É autora de Arquitetura Moderna Brasileira (1982), com Sylvia Ficher; Residências em São Paulo: 1947-1975 (1987); Branco & Preto: uma história de design brasileiro (1994) e 11º ao 15º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira (2001). Coordenou a publicação de Equipamentos, usos e costumes da casa brasileira (2002) e Museu da Casa Brasileira (2002). marlene.acayaba@uol.com.br e http://marleneacayaba.blogspot.com.


Colaboração editorial: Débora Andrade

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Sobre Danilo Matoso

Arquiteto e Urbanista Brasília - DF
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Uma resposta para A quatro mãos : Arquitetura Moderna Brasileira, 1978-82

  1. Pedro Guedes disse:

    I have just read the article “A quatro mãos : Arquitetura Moderna Brasileira, 1978-82”.
    I am the son of Pancho Guedes who practiced in Mocambique, exhibited at the Bienal de S Paulo in 1961.
    In 2009, I curated a major retrospective exhibition of his work at the Museu Coleccao Berardo at the Centro Cultural de Belem in Lisbon.
    I have recently uploaded the complete catalogue of the PANCHO GUEDES – VITRUVIUS MOZAMBICANUS exhibition with images and drawings of Pancho’s buildings, sculpture paintings and drawings. This material is available at:

    http://espace.library.uq.edu.au/view/UQ:196173

    I am currently a Senior Lecturer in Architecture at the University of Queensland in Australia.
    In addition to Harry Seidler, there were other architects in Australia who were heavily influenced by the work of Brazilian colleagues before the mid 1970s. James Birrell, in particular, working in Queensland was able to resonate with the spirit of brazilian architecture in our sub-tropical climate. There were others.
    The South African connection with Brazil is treated at some length in a chapter: Gus Gerneke “From Brazil to Pretoria” in: Roger Fisher & Schalk Leroux with Estelle Mare – Architecture of the Transvaal, Pretoria: University of South Africa, 1998, pp. 196-229.
    I do hope that greater exposure is given to the Architectures outside Europe, North America and Japan.

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