Sede da Fundação Habitacional do Exército – Brasília – DF

Foto: Joana FrançaMGS + Associados

Danilo Matoso Macedo | Elcio Gomes da Silva | Fabiano José Arcadio Sobreira
Newton Silveira Godoy | Filipe Berutti Monte Serrat | Daniel de Castro Lacerda

Em concurso, a FHE – Fundação Habitacional do Exército – escolheu esta proposta para a realização de sua sede, com aproximadamente 30 mil metros quadrados de área construída.

De modo coerente com os objetivos da instituição, o seu edifício-sede manifesta os princípios de robustez, facilidade de acesso e transparência. A implantação em poucos volumes puros estabelece uma relação de complementaridade com a paisagem adjacente e o Oratório do Soldado – projeto de Milton Ramos –, ampliando a área de influência do conjunto.

Foto: Joana França

O edifício de escritórios é composto por dois blocos desnivelados entre si e separados por um átrio central. A iluminação difusa e ventilação natural climatizada deste último ambientam com qualidade e economia energética os espaços de trabalho. O paisagismo complementa o conjunto em relação mimética com o cerrado adjacente e em desenho referente à praça Duque de Caxias – de Burle Marx – próxima.

A tecnologia construtiva alia a tradição e simplicidade da estrutura em concreto armado à rapidez de montagem e qualidade de acabamentos industrializados, tais como componentes de cobertura, vedação, forro e piso.

1. imagem institucional e implantação

Foto: Leonardo Finotti

O edifício destinado a abrigar a Fundação Habitacional do Exército deveria ter imagem coerente com os objetivos da instituição. Deveria manifestar com clareza e concisão os princípios de:

. Robustez – coerente com a solidez econômico-financeira;

. Facilidade de acesso – desejável ao bom acolhimento de associados da POUPEX e à demonstração da função assistencial da FHE;

. Transparência – correspondente à abertura da instituição à cooperação com outras instituições públicas atuantes na concretização de investimentos imobiliários no país.

Estas diretrizes sugeriam naturalmente a implantação em poucos volumes de natureza monolítica, articulados de modo a compor uma relação unitária de complementaridade entre as paisagens bucólica e monumental, o entorno imediato e as novas edificações.

Além do cerrado natural existente nas imediações do terreno, é de suma importância a presença do Oratório do Soldado – projeto de Milton Ramos – a noroeste, a praça Duque de Caxias, Projeto de Burle Marx próximo, bem como a norte o estacionamento de mais de mil vagas, que seria, inclusive, utilizado pelos servidores e associados da Fundação.

Implantou-se assim toda a área de escritórios num único volume horizontal de 150m x 50m, alinhado à divisa sul do terreno – de modo a configurar entre si e a via de acesso uma grande praça em relação de continuidade visual com o estacionamento e o cerrado. Além do bloco de escritórios, delimitam a área o volume do auditório – na porção leste – e o Oratório do Soldado – a noroeste.

A inclusão deste último na composição volumétrica do conjunto é manifesta definitivamente na planta circular do volume do auditório, estabelecendo um claro diálogo entre estes dois pólos edificados na paisagem (Fig. 01).

Uma ampla marquise liga o edifício principal à via de acesso, propiciando um desembarque coberto e fazendo as vezes de uma acolhedora varanda de entrada para o conjunto. As formas livres de sua borda encontram reflexo ainda no paisagismo da praça de entrada, delimitada a oeste apenas por uma lâmina d´água e um talude. O nível médio do greide da rua determinou a altura do acesso e do térreo, minimizando custos com terraplenagem.

A permeabilidade e transparência da marquise encontram continuidade no pilotis pouco ocupado e de uso aberto. Esta abertura é finalmente completada pelo grande átrio interno de 15m de largura, ocupado apenas pelos elementos de circulação vertical e iluminado por sheds ao alto. A articulação dos pavimentos em meio-nível acentua a continuidade e fluidez do conjunto.

2. setorização e funcionalidade

A setorização interna é coerente com a implantação e com o disposto no Programa Básico de Necessidades fornecido pela instituição nas bases do concurso. O Auditório e seu foyer podem ser acessados diretamente tanto pelo público interno quanto pelo externo. Também voltado ao público externo estão o atendimento aos associados da POUPEX, o Protocolo e a agência do Banco do Brasil, abertos com a devida proteção solar para o paisagismo da praça frontal. O balcão de recepção e controle de entrada serve também como bilheteria do Auditório e um espelho d’água complementa o controle de acesso sem representar uma barreira visual. A generosa marquise de entrada, de desenho integrado à fluidez do paisagismo, serve como foyer externo complementar para todo o prédio. O acesso é encaminhado de modo direto e claro por um plano de divisão que recebeu um painel artístico de Mirella Marino – dentro da tradição moderna brasileira e em consonância com os demais edifícios institucionais da cidade.

Transposto o controle de entrada, o pilotis abre-se num amplo vão livre de aproximadamente 860m² e alto pé-direito, que abriga a área de mesas da cantina, o espaço de estar para os funcionários, um salão de múltiplas atividades – que pode ser articulado em diversos layouts com divisórias baixas removíveis (Fig. 02).

Foto: Joana França

Este grande vão está plenamente integrado aos demais espaços internos do edifício por meio de um amplo átrio que percorre toda a longitude do edifício, cujo paisagismo do térreo ameniza todo o conjunto, melhorando a ambiência não apenas das áreas de entrada, mas sobretudo dos espaços de trabalho.

De modo a manter a leitura de permeabilidade visual e de flexibilidade de usos do térreo, todo espaço fechado ali implantado foi disposto em formas livres desencontradas da estrutura. O mesmo ocorre com as áreas da administrativas implantadas sob o bloco sul, de fechamento em vidro, recuado do perímetro da edificação e abrindo–se também para o átrio interno – onde estão situados os núcleos de circulação vertical (Fig. 03).

Os pavimentos superiores foram setorizados de acordo com o estabelecido no Programa Básico de Necessidades, com a adição, no bloco norte que conforma o átrio, de um nível intermediário entre o segundo e o terceiro pavimentos. Esta localização em meios-níveis facilita a integração entre os três andares, mantendo a relação hierárquica da instituição, com os postos de maior hierarquia nos pavimentos mais altos (Fig. 04):

Cada um destes pavimentos – incluindo o bloco sul do térreo – foi dotado de uma área de apoio e serviços composta por Sala de Reunião, copa, sanitários e compartimentos técnicos. A cobertura do bloco norte abriga os reservatórios superiores d’água e os chillers do sistema de condicionamento de ar.

O Auditório foi implantado em volume separado, com flexibilidade de acesso e situando-se ao lado da rampa de entrada do subsolo – alinhada com a divisa leste do terreno. Esta implantação permite o acesso de caminhões a uma doca no subsolo com pé-direito duplo, de modo a facilitar a descarga de cenários e equipamentos de espetáculos que venham a ocorrer no auditório. A prolongação desta mesma doca atente a carga/descarga do almoxarifado adjacente. Como o desnível do Auditório situa o palco no subsolo, e foram também aí localizados seus camarins, depósito e apoio.

Foto: Leonardo Finotti

O Programa Básico de Necessidades definia ampla área destinada a abrigar atividades de uso prolongado no subsolo – Almoxarifado, Arquivo de Processos, Alojamento da Segurança, Refeitório e Vestiário dos Funcionários de limpeza. De modo a preservar a salubridade destes ambientes, o subsolo foi segmentado em duas áreas distintas, separadas por um depósito, sob os blocos sul e norte. Assim, enquanto as 70 vagas situam-se sob o bloco sul, as demais áreas situam-se sob o bloco norte.

O paisagismo da praça frontal foi articulado em formas livres, refletindo aquele existente na vizinha Praça Duque de Caxias, com vegetação de pequeno porte típica do cerrado. Ele estabelece a desejada continuidade com a paisagem circundante ao mesmo tempo em que delimita claramente a área da FHE. Embora similar em desenho de planta, firmando uma necessária unidade e integração do conjunto, a vegetação ganha porte e exuberância dentro do átrio central do edifício, ambientando todos os pavimentos.

3. conforto e energia

A implantação norte e sul das fachadas de iluminação do prédio permite o controle da radiação solar sobre as áreas de trabalho. A fachada sul, aberta em pano de vidro, descortina a paisagem do Eixo Monumental para as áreas de trabalho, com brises verticais em peças metálicas protegendo-as da insolação direta de Verão. Estes brises foram dimensionados segundo o ângulo horizontal máximo de 23º, o que resulta numa placa vertical de mascaramento de aproximadamente 50cm para o vão de 1,25m das esquadrias. A partir deste módulo máximo, outros submódulos foram criados de modo a evitar a monotonia da fachada, identificando o edifício à distância pelos veículos que passam em velocidade. Os brises foram apoiados no topo de uma passarela de concreto, que permite o acesso de limpeza e manutenção mantendo o efeito de tela do conjunto dos brises deslocados do pano de vidro. É o mesmo efeito de tela o proposto para a fachada norte, sobre cujo pano de vidro foi instalada uma placa em alumínio composto anodizado bronze, estruturado sobre uma treliça metálica.

Foto: Joana França

O efeito tela consiste na criação de um colchão de ar circulante pela convecção gerada com o aquecimento do invólucro externo exposto ao sol. Pela baixa pressão que gera, esta corrente permite a exaustão natural dos pavimentos reduzindo o uso de condicionamento mecânico do ar na maior parte do ano. Com as janelas abertas, as faces externas agem como bombas de baixa pressão que produz, no verão, uma confortável circulação cruzada de ar pelas áreas de trabalho – tomado do átrio central. A economia de energia elétrica propiciada pelo desligamento do sistema de condicionamento de ar é bastante significativa, dada a elevada potência destas máquinas. A iluminação natural difusa proporcionada pelos sheds do átrio central e pelas divisórias de vidro junto à circulação permite um bom grau de luminosidade das áreas de trabalho sem diminuição do índice de compacidade (perímetro/área) do edifício em seu conjunto. (Fig. 05)

Além do o sistema de ventilação natural acima proposto, a elevada inércia térmica do sistema de proteção solar da fachada propicia um isolamento, com janelas fechadas, que maximiza a performance de um sistema central de condicionamento de ar. No caso, foi adotado o sistema VRF (Fluxo de Refrigerante Variável) composto por condensadoras situadas no pavimento técnico de cobertura do bloco norte, o qual abastece fan-coils centrais com circulação de ar dutada em cada pavimento.

Foto: Leonardo Finotti

No Auditório, chillers também no pavimento técnico abastecem as casas de máquinas situadas sob a platéia, dutando-se o ar pela parede dupla de alvenaria e concreto do invólucro do volume cilíndrico.

Já o subsolo é refrigerado por sistema misto, no qual as partes centrais foram dotadas de sistema de ar condicionado e as demais áreas contam com exaustão final por grelhas de piso na face sul do térreo e no átrio central – este último recebendo ar apenas das áreas de uso permanente, cuja baixa temperatura contribui para o resfriamento do conjunto.

Foto: Leonardo Finotti

3.2. Auditório

O auditório foi projetado segundo as diretrizes modernas de conforto visual e acústico.

O palco generoso – que pode abrigar confortavelmente uma orquestra de até 70 músicos, por exemplo – tem acesso de nível a docas de carga/descarga e depósito, interligado aos camarins dos artistas/palestrantes. A platéia abre-se segundo um confortável ângulo de 100º a partir da boca de cena, escalonando-se em degraus de altura variável em forma parabólica, permitindo bom desenvolvimento da propagação acústica aliada a uma correta visibilidade de cada espectador. As paredes laterais revestidas de finos painéis de madeira funcionam com caixas de ressonância, favorecendo a realização espetáculos de teatro, palestras e outros de voz humana sem amplificação. O forro em placas de alumínio – as mesmas da fachada – teve geometria estudada para propagar o som de modo equânime até o fundo da sala. As antecâmaras de entrada e as paredes duplas completam o tratamento acústico da sala, permitindo o isolamento máximo de ruídos externos.

4. qualidade e adequabilidade dos sistemas construtivos

O esqueleto do edifício foi construído com tecnologia local comum, com estrutura em concreto armado. As lajes dos pavimentos são nervuradas, executadas com fôrmas de fibra-de-vidro de 90cmx90cm e vigas-faixa coplanares com as nervuras. A altura final de 32,5cm permite um entreforro generoso de 55cm abaixo e piso elevado com 15cm livres acima, com bom isolamento acústico. com forro em fibra mineral modulado em sistema padronizado de 62,5cmX62,5cm, ao qual estão ajustadas as luminárias e grelhas de insuflamento de ar.

Todo o edifício foi modulado em 1,25m. Os vãos estruturais são de 6,25m X 10m, com balanços laterais de 2,5m, ajustadas aí as circulações dos pavimentos, em torno ao átrio central. (Fig. 06) A cobertura deste último em sheds metálicos é de pouco peso e teve execução rápida.

O sistema de pele de vidro fumê sobre esquadrias de alumínio anodizado preto provê a estanqueidade e segurança necessárias, recuando à sombra os volumes inferiores, em contraste com o fechamento de concreto aparente. A leveza dos brises e da placa norte reduz a sobrecarga da estrutura pois proporciona a já mencionada inércia térmica sem necessidade de concentração de massa nos vedos.

A decisões quanto aos materiais construtivos associam a simplicidade, solidez e tradição próprios da estrutura de concreto armado, com elementos e componentes altamente industrializados na construção dos demais elementos, o que permitiu uma obra limpa, com características de montagem industrial, e não de feitura artesanal, reduzindo consideravelmente o tempo mobilização financeira da obra. Como resultado, alcançou-se a imagem de durabilidade e solidez almejadas, construídas de modo simples e rápido.

Foto: Leonardo Finotti

[texto fornecido pelos autores do projeto]


projeto executivo

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galeria


 

Área construída: 27.630 m²
Área do terreno:
15.000,00 m²
Data do projeto:
2005/2007
Data da construção:
2008/2009
Arquitetura: MGS – Macedo, Gomes & Sobreira + Associados
Autores:
Danilo Matoso Macedo, Elcio Gomes da Silva, Fabiano José Arcadio Sobreira, Newton Silveira Godoy, Filipe Berutti Monte Serrat, Daniel de Castro Lacerda
Colaboradores: Joana França, Carla Rabelo, Simone Fonseca, Hélvio Franco, Ana Valéria de Resende Silva, Igor Campos, Ailton Cabral
Fiscalização Gerência de Engenharia: Fundação Habitacional do Exército
Projeto de Paisagismo: Paula Farage e Vanessa Matos
Projeto de Cenotecnia: Cineplast – Sérgio Caliani
Projeto de Luminotecnia: Franco e Fortes Lighting Design – Gilberto Franco
Projeto de Estruturas: Engest Engenharia e Estrutura – Lucílio Antônio Vitorino
Projetos de Instalações Hidráulicas, Sanitárias, Elétricas e Eletrônicas: Cremasco Projetos de Instalações e Serviços Técnicos de Engenharia – Carlos Antônio Cremasco
Projetos de Ar Condicionado e Exaustão, Detecção, Combate a Incêndio: Air System – Ricardo Santos Dias Gibrail
Consultoria de Acústica: Conrado Silva de Marco
Painel Artístico: Mirella Marino
Programação Visual e Sinalização: Duo Arquitetura & Design – Carlos Eduardo Barros de Menezes, Sergio Moura Brasileiro do Valle, Tiago Rezende de Almeida Santos e Bruna Barbosa de Lima
Construção: PaulOOctávio
Fotos: Joana França e Leonardo Finotti
Website/contato: www.mgs.arq.br

 


Colaboração editorial: Débora Andrade

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Esse post foi publicado em 2005, Brasília, Daniel Lacerda, Danilo Matoso, DF, Elcio Gomes, Fabiano Sobreira, Filipe Montserrat, Newton Godoy, Projetos e obras e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Sede da Fundação Habitacional do Exército – Brasília – DF

  1. fredrico disse:

    Bem bacana!

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