Mais uma obra-prima

Sobre o projeto da Praça da Soberania, de Oscar Niemeyer.

João Filgueiras da Gama Lima (Lelé)

Oscar é uma das grandes personalidades do nosso tempo. Sua incrível capacidade de criação não se apoia em teorias nem na estética vigente, mas na intuição, na lógica da natureza, no instinto das mentes privilegiadas dos gênios. Por isso, sua obra é capaz de emocionar qualquer ser humano, independentemente de formação intelectual ou categoria social. As colunas do Palácio da Alvorada, por exemplo, causaram tão forte impressão em André Malraux que ele comparou sua contribuição à arquitetura à das colunas gregas. Mas elas foram igualmente absorvidas e estilizadas pelo povo em geral (seu desenho pode ser observado em toda parte e continua a ser utilizado como símbolo da nova capital).

A obra de Oscar Niemeyer é única e atemporal. Como afirmava Darcy Ribeiro: Oscar é o único brasileiro do nosso tempo que será lembrado no terceiro milênio. Na concepção de cada projeto, o traço sensível de seus desenhos registra com precisão a espontaneidade de todo o processo de criação. Mas sua produção, evidentemente, não se apoia apenas na intuição. Muito pelo contrário, por sua originalidade e constante inovação, ela exige dele permanente reflexão, sobretudo na seleção das alternativas técnicas necessárias à execução de cada obra e na coordenação dos projetos complementares realizados por seus colaboradores.

Nas estruturas, por exemplo, a ousadia com que Oscar tem explorado a plasticidade do concreto armado exige dos calculistas um renovado apuro e criatividade na formulação das hipóteses de cálculo para cada projeto. Graças, sobretudo, ao talento de Joaquim Cardoso nas obras mais antigas e ao de José Carlos Sussekind nas mais recentes, propostas estruturais audaciosas e inovadoras vêm permitindo a permanente invenção formal de sua arquitetura.

Característica importante na arquitetura de Oscar é sua intenção deliberada de criar a emoção não apenas a partir da invenção e da beleza, mas principalmente por meio do fator surpresa. Isso fica bem evidente quando, após caminharmos pelo ambiente escuro da rampa de acesso à Catedral de Brasília, alcançamos o espaço magnífico da nave inundado pela luz intensa que atravessa os vitrais do teto. Ou para quem percorre os salões do prédio recém-construído do Museu de Brasília e, ao alcançar a rampa externa que interliga os pavimentos superiores, se depara com a vista do Eixo Monumental.

O talento de Oscar e sua forma corajosa e audaciosa de enfrentar os desafios de uma arquitetura inovadora já se revelam em seus primeiros trabalhos, como na Obra do Berço, com sua fachada guarnecida por brises-soleil. Fato pitoresco na realização desse edifício é que a proposta de proteção contra a insolação não foi compreendida pelos responsáveis pela construção e, consequentemente, julgada desnecessária. Para manter a integridade do projeto, Oscar foi obrigado a assumir o ônus financeiro da execução dos brises-soleil. Tal episódio revela também, já no início do seu exercício profissional, a consciência que ele tinha da importância de sua obra para a história da arquitetura contemporânea.

Mas foi nos projetos da Pampulha, encomendados por Juscelino Kubitschek, que toda sua genialidade surgiu numa explosão de criatividade inigualável, e imediatamente já o qualificaram como um dos mais importantes arquitetos do nosso tempo. Embora os referenciais da arquitetura moderna propostos, sobretudo por Le Corbusier, ainda possam ser reconhecidos nesses projetos, a espontaneidade e a desenvoltura com que Oscar explora a plasticidade do concreto nas cascas da Igreja de São Francisco ou na laje da Casa do Baile, serpenteando ao longo da pequena península que se insinua na lagoa, já estabelecem o caráter pessoal inconfundível de sua arquitetura.

Já na Casa das Canoas, a mais bela residência que conheço, a delicadeza com que integra o edifício à paisagem e à topografia local, a simplicidade com que lida com os espaços internos organizados sob a forma livre da laje da cobertura que parece flutuar sobre a vegetação exuberante da floresta, consagraram definitivamente toda a importância de seu trabalho no panorama da arquitetura mundial.

A partir de Brasília, a presença explícita da estrutura, tratada com a liberdade que o concreto armado permite, assume um papel importante no desenho do edifício. Essa característica, que se identifica facilmente nos palácios em geral ou na Catedral, passa a ser tão forte que o leva sempre a afirmar que, terminada a etapa estrutural da construção, sua arquitetura estava definida.

Aspecto que também considero muito característico em sua obra é a importância que ele atribui à implantação dos edifícios e a forma intencional e deliberada com que estabelece sua relação com o solo e com a paisagem. E isso ocorre seja nas soluções em que eles parecem simplesmente pousados, como nos palácios de Brasília, ou naqueles profundamente enraizados no terreno, como o Museu de Niterói.

Em seus projetos atuais, como o de uma grande praça proposta para o povo em Brasília, que ele denominou Praça da Soberania, Oscar vem depurando sua linguagem formal. Contrariando a tendência atual da maioria dos arquitetos, sobretudo europeus, que utilizam a plasticidade do concreto para alcançar proezas formais amparadas em geometrias complexas que os computadores permitem realizar, esse novo projeto reflete sua intenção deliberada de alcançar a beleza através da simplicidade. Vemos no projeto dessa praça uma composição ousada e singela de beleza indiscutível, em que predomina seu monumento central triangular ancorado no solo e com sua aresta superior levemente curva, que lhe confere uma surpreendente elegância e leveza. Constitui, sem dúvida, mais uma obra-prima de Oscar que se incorpora ao acervo cultural do nosso país.

Ao completar 101 anos, o trabalho de Oscar permanece pautado em sua clareza de princípios que o nortearam em toda a vida — de um ser humano íntegro, ético, generoso e leal, sempre disponível para os amigos e que sofre profundamente com os atuais descaminhos de nossa civilização. Suas posições políticas sobejamente conhecidas refletem sua preocupação com os grandes contingentes de miséria que se espalham por este mundo. Oscar continua defendendo com a mesma lucidez e coragem todas as propostas cujo objetivo seja o de garantir ao ser humano realizar sua maior utopia: a de viver em paz com seus semelhantes e com todos os seres vivos que habitam nosso planeta.

João Filgueiras da Gama Lima (Lelé)
Arquiteto

Texto publicado com a autorização do autor, conforme publicado em 27/01/2009 no Correio Braziliense

Leia mais sobre a Praça da Soberania em mdc.

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4 respostas para Mais uma obra-prima

  1. Bruno disse:

    Que o monumento é bonito, não tenho dúvida. Niemeyer sempre soube realizar grandes monumentos. Mas aquilo não será uma praça para o povo usufruir. Só pra ver. E de longe.

  2. Pingback: Contraste incômodo « mdc . revista de arquitetura e urbanismo

  3. Pingback: Praça da Soberania: crônica de uma polêmica « mdc . revista de arquitetura e urbanismo

  4. Francisco Alves de Pontes disse:

    Terreno em Brasília?! Reminiscência do que me aconteceu cerca de dois anos antes da inauguração da Capital do Brasil:
    Em 1958, enquanto Brasília estava em construção, eu residia na cidade de Adamantina, interior de São Paulo, e trabalhava numa confeitaria. Na época eu tinha 16 anos de idade. Um amigo e colega de trabalho me mostrou uma revista em que havia uma espécie de quebra-cabeça e prometia um terreno em Brasília a quem o decifrasse. Com a ajuda desse meu amigo (já falecido), eu resolvi o problema e o enviei para o endereço mencionado na revista. Dias depois, veio a resposta, dizendo que eu havia acertado o quebra-cabeça e ganhara o prometido terreno. A mesma revista dizia que eu deveria mandar algum dinheiro para a documentação [seria a escritura do terreno?] Perguntei à minha mãe se eu deveria ou não enviar a importância solicitada. Ela me respondeu que aquilo não tinha valor e que eu não deveria perder tempo. Não insisti. Talvez minha mãe tivesse razão. Algum tempo depois desta experiência, em 21 de abril de 1960, ouvi pelo rádio as festividades da inauguração de Brasília, que agora está comemorando o seu cinquentenário. Admira-me a coragem e o pioneirismo do Presidente Juscelino Kubitschek. Ele construiu uma cidade moderna no local onde antes só havia mato, enfrentando a oposição daqueles que eram contra o seu projeto. E hoje Brasília está entre as mais belas cidades do mundo. Grandiosa Brasília!

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