A praça do espanto

Sobre o projeto da Praça da Soberania, de Oscar Niemeyer.

Frederico de Holanda

Plataforma Rodoviária e Esplanada dos Ministérios
foto: Eduardo Rossetti

Há alguns anos Oscar Niemeyer projetou um grande edifício em forma de “pomba” para o gramado central da Esplanada dos Ministérios em Brasília. Danificava um dos principais cartões postais da Capital: as vistas da Esplanada e do Congresso Nacional a partir da Estação Rodoviária de Brasília. Não foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No dia 10 de janeiro passado soubemos pela imprensa de um novo projeto para o mesmo local, na altura do Conjunto Cultural da República. O arquiteto fala da necessidade, que toda cidade tem, de uma praça “para provocar o espanto”. Praça?! Que praça?! Espanto?! Que espanto?!

Niemeyer já tem lugar garantido entre os maiores arquitetos da história. Seria ocioso assinalar a grande inovação de sua obra na arquitetura moderna brasileira e mundial. Entre os melhores projetos estão os edifícios públicos governamentais de nossa capital. Com os palácios, ele contribuiu para conferir a Brasília o prestígio de que ela desfruta. Contribuiu, essa é a palavra. Pois se fala menos do que se deveria que o projeto da cidade é de Lucio Costa, não seu. No princípio, os edifícios de Niemeyer adequaram-se ao projeto de Lucio Costa, um dos fundadores e maiores ideólogos da arquitetura moderna brasileira. É o caso dos prédios da Praça dos Três Poderes.

Infelizmente não é o caso de edifícios mais recentes de Niemeyer, por exemplo, a sede da Procuradoria Geral da República. Dois cilindros de 45 metros da altura, revestidos de vidro negro, contradizem a “escala bucólica”, a área ao redor das “asas” residenciais do Plano Piloto, que deveria ser predominantemente natural e ter edifícios de baixo gabarito. Lucio Costa, em matéria publicada na Folha de São Paulo (03.12.1996) considerou o projeto “uma brutalidade“, acrescentando: “acho que o Oscar perdeu a noção original da cidade“. Niemeyer, segundo a mesma reportagem, não quis discutir: “o problema me parece tão estranho e improcedente que dele me recuso a participar“. E teve poder suficiente para fazer valer seu projeto. Lá está construído.

Agora é a vez da “Praça da Soberania“. Há dois aspectos a considerar. O primeiro é quanto à ordenação dos seus elementos: eles definem mesmo uma praça? O segundo, é quanto às relações com a vizinhança.

Não devemos agredir o vernáculo. Há vários tipos de praça, formais ou informais, buliçosas ou solenes, animadas ou tranquilas. Quanto ao desenho, elas também variam: podem ter planta quadrada, retangular, poligonal, circular, elipsóide etc. Entretanto, o senso comum sabe (e há bom senso no senso comum) que qualquer praça é um espaço público aberto definido pelas edificações que o cercam.

Que elementos definem a “praça” proposta? Um edifício em arco, voltado para o Congresso, e um imenso monumento que divide o espaço à frente do arco em dois, ambos sobre um cimentado que ocupa toda a largura do gramado central da Esplanada. O conjunto novamente bloqueia a vista da Esplanada a partir da Plataforma Rodoviária, que Lucio Costa queria desimpedida (ver, de Sylvia Ficher, neste mesmo veículo, “Niemeyer e Brasília: Criador versus Criatura“). E onde está a praça? Se não houvesse o tal monumento, a “praça” seria uma estranha “praça de um lado só”. Com o monumento, nem isso. Ele é um gigantesco plano de concreto armado que divide o espaço à frente do edifício em dois. Visto da Rodoviária, parecerá muito mais alto que as torres do Congresso Nacional, embora seja da mesma altura. A forma do monumento lembra a das colunas da Igreja Nossa Senhora de Fátima – a Igrejinha – na entrequadra 307-308 Sul, também projeto de Niemeyer, só que… 30 vezes maior! Perde-se a graça e a sutileza do modelo original. As pessoas na “praça” estarão divididas em dois grupos que, na maior parte do espaço, não se veem. O que veem mesmo é o enorme e ofuscante paredão branco do monumento.

E quanto às relações do conjunto com a vizinhança edificada?

Os prédios da Esplanada dos Ministérios têm gabarito máximo de cerca de 30 metros, com exceção das torres gêmeas do Congresso Nacional (o “Anexo 1”), com 100 metros. Estas sobressaem na silhueta da cidade e sua importância foi definida por Lucio Costa nos riscos iniciais da cidade. Ao projetar o edifício do Congresso (as torres, o bloco-plataforma horizontal, as duas conchas), Niemeyer soube magistralmente desenvolver este elemento estrutural da concepção urbanística de Brasília. Aliás, ele o declara seu projeto predileto. Pela sua volumetria sofisticada e única, e pelo que significa como elemento máximo da democracia representativa, o Congresso Nacional é sabidamente o maior símbolo da Capital e um ícone frequentemente referido, internacionalmente, como símbolo do Brasil. O Congresso, mais o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, definiam, também desde os riscos iniciais de Lucio Costa, a Praça dos Três Poderes. Os três formam um conjunto admirável. A leveza com que tocam o chão, a simplicidade, a transparência, a relação direta que mantêm com a Praça mediante suaves rampas (as malfadadas cercas atuais não existiam), conferem ao logradouro uma solenidade sem arrogância ou sisudez. A Praça dos Três Poderes nos emociona (evito o verbo “espantar”) por sua beleza e originalidade. Ela grava-se indelevelmente em nossa memória. Por que, agora, ela não é mais suficiente? Por que há de se criar um outro espaço para competir com ela, contendo um monumento que, por suas dimensões, enfraquecerá o símbolo maior de Brasília (o Congresso), e modificará não só o espaço da Esplanada dos Ministérios, mas a própria silhueta da cidade pensada por Lucio Costa? Vejam nas imagens da maquete eletrônica publicadas no Correio Braziliense como se tornam nanicos os edifícios da vizinhança, inclusive a Catedral Metropolitana (sintomaticamente, o Congresso não foi incluído nestas imagens…). Niemeyer não danifica somente a imagem da cidade, danifica sua própria arquitetura pregressa.

Talvez Brasília se ressinta da ausência de boas praças informais que o povo frequente rotineiramente, mas isso é outro assunto. Certamente, não precisa de mais um espaço de caráter cívico-monumental (repito, não é uma praça), com funções predominantemente expressivas (pois é para “provocar o espanto“). De espaços expressivos estamos bem servidos. E mediante lugares de excepcional qualidade.

Supondo que os problemas arguidos sejam reais (a necessidade de estacionamento sub-terrâneo, a conexão entre os setores culturais norte e sul etc.), há inúmeras maneiras de solucioná-los sem macular a cidade. Igualmente, se um edifício para guardar a memória dos presidentes da república brasileira mostra-se necessário, também há mil outras formas de fazê-lo. Ou então, que tal utilizar o Panteão da Pátria, que (lamentavelmente) já está construído, e às moscas, para isso?

Talvez os deuses não errem (tenho minhas dúvidas). Os homens – mesmo os geniais – podem errar. Espantosamente.

Frederico de Holanda
Professor Associado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, professor de Projeto de Urbanismo, e doutor em arquitetura pela Universidade de Londres.

Leia mais sobre a Praça da Soberania em mdc

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8 respostas para A praça do espanto

  1. Holanda, muito obrigada pela lucidez de suas palavras e por nos ajudar a refletir sobre tantos aspectos referentes a esta polêmica Praça da Soberania. Muito me alegra o fato de estarmos discutindo a cidade, e não o talento indiscutível de Niemeyer.

    Sobre as inúmeras maneiras de solucionar o problema de estacionamento para o local, gostaria de rememorar um artigo do Correio Braziliense de 24 de setembro de 2005. O artigo, intitulado “Vagas nos caixotes”, comenta a possibilidade de criação de um estacionamento rotativo para 6 mil carros dentro dos quatro paredões que sustentam a plataforma da Rodoviária. A proposta é de autoria dos técnicos da Administração Regional de Brasília.

    Nunca tive acesso ao projeto, ou sequer soube se foi analisado, ou aprofundado. Na verdade nunca mais ouvi rumores, mas acho que deveriam se tornar públicas as razões pelas quais este foi desconsiderado.

  2. A.A. disse:

    Vamos lá galera, chega de balela e discursos ‘exibidinhos’ de Classe Média.

    Vamos pensar coletivamente e traçar prioridades nas soluções dos problemas dessa cidade de lata (2,5 carros por habitante)!
    Encorajo a todos a incrementar a opinião do Humberto M., de 18 Jan 09, que fez aqui: https://mdc.arq.br/2009/01/10/brasilia-oscar-niemeyer-projeta-nova-praca-na-esplanada-dos-ministerios/#comment-70

    “Chega de esculturas e monumentos. Vamos pensar no transporte público”
    Número de votos: 2

  3. Pingback: Niemeyer defende a Praça da Soberania «

  4. Raquel Willem Machado disse:

    APOSENTA NIEMEYER

    Já faz algum tempo que o celebrado arquiteto Niemeyer perdeu a mão. Basta ver o prédio rolo de papel higiênico da Procuradoria Geral da República, a bola Museu e o prédio da Biblioteca Nacional em Brasília. Uma desgraça atrás da outra.

    Agora eis que a pedido do presidente Lula o arquiteto chapa branca apresenta um projeto de um mausoléu presidencial em pleno gramado da Praça dos Três Poderes e o governador Arruda embarcou na festa.

    Alguém pensou em consultar a comunidade de Brasília? Ninguém.

    Niemeyer é carioca, vai a Brasília como quem vai visitar uma maquete e em uma pretensiosa carta chama a todos de ignorantes exceto ele próprio enquanto defende a sua obra.

    Tenho novidades Niemeyer. Tem gente morando em Brasília e o Brasil é hj uma democracia. Hj existem consultas, coisa de democracia burguesa…mas enfim, parece ser o único tipo de democracia que funcionou até hj.

    Enquanto isto, o arquiteto comunita monumental e admirador de Stalin continua sua fixação monumental ignorando completamente os moradores de Brasília.

  5. Rafael disse:

    Caro autor do primeiro comentário. São 2,5 habitantes por carro, não o contrário.

  6. Pingback: De obeliscos e espetos « mdc . revista de arquitetura e urbanismo

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  8. Paulo Eduardo disse:

    Felizmente esse projeto não foi executado. Há demandas bem mais urgentes para a cidade, como a criação de um transporte público integrado e de qualidade. Por outro lado, foi uma pena que deixaram de lado o projeto que Roberto Burle Marx havia feito para o gramado central ( Parque da Esplanada ). O mesmo, além de ser muito bonito, não iria interferir na escala monumental e muito menos tiraria a evidência do prédio do Congresso Nacional. A população deixou de ganhar um espaço de sociabilidade que, com certeza, seria um dos mais concorridos da cidade. Uma vez que não haveria novas construções ( somente espelhos de água e canteiros ), não há a possibilidade da retomada desse projeto?

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