mdc . revista de arquitetura e urbanismo

Escolas d’Óbidos

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Claudio Sat

Unipessoal

As Escolas d´Óbidos: os complexos dos Arcos, do Alvito e do Furadouro

Os complexos escolares dos Arcos, do Furadouro e do Alvito, construídos entre 2008 e 2010, constituem o conjunto denominado Escolas d´Óbidos e albergam o projecto educativo que o executivo daquele município tem vindo a implementar, que substituiu na totalidade as escolas primárias existentes, agora encerradas e destinadas a novas utilizações, e concentrou todos os alunos nestes três edifícios.

Muitas das ideias presentes nestes complexos partem de conceitos desenvolvidos por nós na Argentina, a partir de 1986 quando, após o regresso da democracia, o governo impulsionou a chamada Reforma Pedagógica, sustentada nos conceitos de participação e descentralização educativa e cujo propósito central em matéria de arquitectura escolar era o de procurar soluções mais flexíveis, evitando a utilização indiscriminada de um modelo repetido em quase todo seu território: a escola-tipo.

Tal como se verificou em Portugal, a aplicação daquele modelo impedia soluções adaptadas aos diferentes programas educativos; dificultava o desenvolvimento de actividades extracurriculares; requeria grandes investimentos na aquisição de terrenos; e exigia materiais e técnicas construtivas nem sempre disponíveis em todo o país.

A ideia foi a de redefinir as características de cada um dos espaços dos programas escolares para depois os combinar como se fossem as peças de um “Lego”, agrupadas de acordo com uma série de princípios gerais definidos a priori. Superámos a ideia de escola-tipo para chegarmos à ideia de “escola semi-tipo”, assegurando a racionalização nos processos de projecto e de obra antes da construção e adaptação das novas escolas.

Os princípios gerais consideravam, entre outras coisas, as implicações que tinham nos espaços os novos conceitos pedagógicos; a necessária divisão entre âmbitos pedagógicos e outros sociais que servem à comunidade (escola aberta); a relação com a envolvente; a correcta orientação dos espaços; e a utilização de técnicas construtivas adequadas. Estes princípios gerais constituíam o marco dentro do qual os princípios particulares (sítio, terreno, utilizadores) acabariam por definir as partes dessa nova tipologia escolar: um protótipo capaz de dar lugar às novas funções sociais e pedagógicas que se exigiam à nova escola.

A procura de tal protótipo escolar continuou a ser para nós uma preocupação nos anos seguintes.

Em 2003 surgiu a possibilidade de implementarmos em Óbidos muitos destes princípios orientados para a concepção de uma escola querida, útil, aberta à comunidade, estruturante na organização de um determinado território e peça fundamental da construção de um sistema educativo exemplar.

Com a concretização dos projectos das Escolas d’Óbidos conseguimos, naquele município, estabelecer uma marca de referência na resposta aos desafios lançados pelo Decreto-Lei n.º 7/2003, o qual pretendia uma transferência efectiva de competências relativamente aos conselhos municipais de educação e à elaboração das cartas educativas.

Apresentada como um instrumento fundamental de ordenamento da rede de ofertas de educação e de ensino, a carta educativa impunha-se como o documento base para toda uma mudança política e social. Foi assim em Óbidos, onde apresentámos e pusemos em prática uma estratégia de reordenamento dos estabelecimentos de ensino existentes que levou ao encerramento de quase duas dezenas de pequenas escolas muito dispersas e sem espaços essenciais, como centros de recursos, salas polivalentes, pavilhões desportivos e laboratórios. Em seu lugar nasceram as Escolas d’Óbidos.

Com os complexos dos Arcos – distinguido pela OCDE como um exemplo mundial –, do Alvito e do Furadouro, Óbidos criou uma adaptação local do conceito de escola da comunidade e criou novas centralidades no município. Estes novos complexos servem áreas mais vastas e agregam e potenciam o trabalho e desenvolvimento de alunos e professores. E, ao mesmo tempo, abrem-se e chamam a participação da comunidade, afirmando-se como fóruns onde cultura, lazer, desporto e saúde dão uma nova dimensão à noção de espaço educativo.

Foi a partir destes princípios que, em 2003, iniciámos os trabalhos relacionados com a concepção de um complexo e ambicioso “edifício” – escolar, desportivo e lúdico – composto por um complexo escolar (escola e pavilhão gimnodesportivo); um centro lúdico; tanques de água; um estacionamento coberto; a casa do porteiro e os respectivos espaços abertos, com um total de 12 897 m2 de área e a 500 metros do centro histórico da Vila de Óbidos.

Em 2007 dava-se início à construção do Complexo dos Arcos, a primeira realização das Escolas d´Óbidos, que teriam conclusão três anos mais tarde, com a abertura dos complexos do Casal do Alvito e do Furadouro.

Os três estão localizados em terrenos de elevado valor paisagístico, sempre próximos de estádios, podendo complementar as actividades desportivas realizadas naqueles equipamentos. Partem da repetição (após redefinição dos espaços que constam no programa do Ministério de Educação) das mesmas salas de aulas, pavilhão, cozinha, instalações sanitárias e de outros componentes e comungam dos princípios de agrupamento: uma correcta orientação, a presença de sectores em contacto com a comunidade, relação íntima com o espaço público e com a paisagem. Partilham também os mesmos materiais.

É evidente que repetir partes e princípios não implica repetir a solução dos próprios edifícios. A ser assim, geraríamos mais uma escola-tipo. Com as mesmas peças, tal como nos estudos da Argentina, obtivemos combinações específicas para cada um dos três terrenos. Trata-se, aqui também, de escolas “semi-tipo” constituídas pelas peças de um “Lego” made in Óbidos.

O agrupamento em pente utilizado tem origem na procura da orientação Sul da maior parte das salas de aulas e das salas de aulas especiais com recreios diferenciados por ciclos. Este esquema constitui o princípio fundador a partir do qual se organizam estes edifícios e ao qual se subordinam as outras partes.

Do ponto de vista funcional os complexos são constituídos pelo agrupamento de três componentes principais: uma escola básica B1 + B2; um pavilhão gimnodesportivo e os respectivos espaços abertos; e, no caso do Furadouro e do Alvito, por uma sala polivalente e de música e por um campo de jogos descoberto. Estão organizados segundo cinco sectores (ou sistemas): o pedagógico, o social, o administrativo, o de serviços e o desportivo.

Destaque-se a inclusão, próxima do átrio de entrada, da sala de dentista, facto que representa uma clara “contaminação” da tipologia escolar enriquecida com novas funções vocacionadas para transformar estes complexos em edifícios úteis à população.

Complexo dos Arcos

Neste complexo com uma área coberta de 6.015 m2 é a partir do átrio principal que se organizam os diversos sistemas. Nele também se concentram as funções de recepção/informação e de controlo da escola e do pavilhão.

Os subsistemas sociais debruçam-se sobre a denominada Esplanada do Estádio, espaço público aglutinante desta proposta. Neste sistema em pente destacam-se, no topo da primeira banda, o centro de recursos, na segunda banda o núcleo de laboratório de ciências e a sala de educação visual e tecnológica e, na terceira banda, a sala polivalente e de música. Todos estes subsistemas sociais possuem uma entrada a partir do exterior que facilita a sua utilização por parte de grupos independentes.

O mesmo acontece com o refeitório, com o buffet e com o pavilhão e respectivos balneários, que podem ser utilizados pelos habitantes do concelho. Optou-se por apoiar a sua imponente volumetria sobre o também grandioso conjunto de pinheiros existente no local, agora emoldurados desde o interior por um amplo vão envidraçado a Norte, que oferece uma distribuição regular da luz, conveniente para a prática desportiva. Na fachada Oeste, outra extensa janela deixa entrever as actividades que nele se realizam, atenuando de alguma maneira a falta de bancadas para espectadores.

Por seu turno, os subsistemas pedagógicos estão recostados sobre o sector mais silencioso e distante dessa esplanada, o Parque da Encosta, um parque natural concebido como um fundo cenográfico contínuo que aproveita sendeiros e caminhos existentes para definir circuitos de manutenção, equipamentos, miradouros e áreas de sombra que consolidam os terrenos e diminuem a sua degradação e erosão.

Complexo do Alvito

Com uma um área coberta de 6408 m2, este complexo encontra-se localizado num terreno de alto valor paisagístico e ambiental com vista para a barragem do rio Arnóia.

Os corpos assumem as proporções de bandas paralelas dispostas no sentido Este-Oeste, facilitando uma visão da paisagem sem obstáculos, exterior e interior, onde a grande maioria dos espaços oferece uma vista panorâmica do vale do rio.

O controlo de entrada, a Sul, e o controlo do pavilhão, a Norte, definem os extremos desta tipologia, que tem o átrio de acesso como ponto equidistante dentro do conjunto e cujo largo de acesso define um espaço central e aglutinante, não só dentro do edifício, mas também para este sector do concelho de Óbidos.

Na sua envolvente agrupam-se o refeitório, o buffet e a sala polivalente e de música com um palco que pode prolongar-se num palco exterior.

No nível 1 encontramos os restantes espaços, com fácil acesso para o público através da escada do átrio principal. A Norte, a dupla pavilhão e campo de jogos conclui esta sequência e, ao mesmo tempo, relaciona as actividades do complexo com o Estádio das Gaeiras.

Complexo do Furadouro

Possui uma área coberta de 6512 m2 e ocupa um terreno com uma suave pendente na direcção Sul, com uma óptima exposição solar.

Evidencia o agrupamento de três blocos: o pedagógico, formado pela administração, salas de aulas e salas especiais a Oeste; o desportivo, que soma os balneários/vestiários, o pavilhão e o campo de jogos descoberto a Este; e, por fim, o social, numa posição central, conformado pela sala do dentista, pela sala polivalente e de música, pelo refeitório e pelo buffet. O conjunto geral encontra-se articulado pelo átrio principal, localizado no eixo da fachada Norte.

Tal como no Complexo do Alvito o refeitório e o buffet podem prolongar-se como esplanada para o pátio central e os utentes usufruir dos espectáculos que possam ter lugar no palco exterior da sala polivalente, esta caracterizada por uma grande abertura a Sul que relaciona o espaço interior com as melhores vistas da paisagem circundante.

O sistema desportivo define o limite Nascente do complexo e tem no pavilhão o subsistema principal, completado pelo campo de jogos.

Entre os espaços exteriores identificam-se os recreios, o largo de acesso que antecede o átrio principal, prolongando-se até ao átrio do pavilhão, o pátio central, limitado a Este pelo bloco social, a Oeste pelo pedagógico e aberto ao Sul, com uma rampa que o relaciona com o recreio do nível 1. A zona envolvente é um conjunto de áreas de recreio e passeios informais que integra caminhos pedonais com pavimentos inertes compactados.

[texto fornecido pelos autores do projeto]


projeto executivo

Download do projeto executivo completo em formato PDF

285Mb . 174 pranchas

Parte 1. Esquemas funcionais e desenhos . 51,8Mb . 30 pranchas

Parte 2 . Complexo do Alvito . 79,3Mb . 21 pranchas

Parte 3 . Complexo do Alvito . 38,3 . 52 pranchas

Parte 4 . Complexo do Furadouro . 72,5Mb . 21 pranchas

Parte 5 . Complexo do Furadouro . 43,1Mb . 50 pranchas

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galeria


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COMPLEXO ESCOLAR DOS ARCOS
Local: Óbidos
Ano do projeto: 2006–2007
Cliente: Câmara Municipal de Óbidos
Arquitetura: Claudio Sat, Unipessoal, lda
Colaboradores: Luís Moreira, Catarina Madruga, VF Arquitetos
Projeto de Execução: Ana Duarte Pinto – João Manuel Alves, arquitetos lda
Colaboradores: Diogo Zenha Morais, Ana Rita Diniz, Pedro Teixeira Melo, Eva Grillo
Estabilidade, betão Armado e contenção periférica; rede de distribuição de águas prediais; rede de drenagem de águas residuais domésticas; rede de drenagem de águas pluviais: Soprest, lda
Rede de distribuição de gás: José Carlos Cardoso Ferreira, lda
Comportamento Acústico: Ábaco, projetos
Instalações elétricas, de segurança, de telecomunicações e intrusão: Prodinâmica, lda
Arranjos Exteriores: Carla Silva, Arquitetura paisagista, lda
Painéis de azulejos: Sónia Sapinho
Empresa Construtora: José Coutinho S.A.
Fotografia: FG+SG Fotografia de arquitetura

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COMPLEXO ESCOLAR DO ALVITO
Local: Gaeiras, Óbidos
Ano do projeto: 2008- 2010
Cliente: Câmara Municipal de Óbidos
Arquitetura: Claudio Sat, Unipessoal, lda
Colaboradores: Pedro Cancela, Gisela Ferreira, Ricardo Porfírio
Projeto de Execução: Ana Duarte Pinto – João Manuel Alves, arquitetos lda
Colaboradores: Diana Parracho, Mariana Pimentel, Nuno Amaro, Manuel Vacas
Estabilidade, betão Armado e contenção periférica; rede de distribuição de águas prediais; rede de drenagem de águas residuais domésticas; rede de drenagem de águas pluviais; rede de distribuição de gás: GPessa, Projetos de Engenharia
Comportamento Acústico: Ábaco, projetos
AVAC: I2DP, Ideias, Inovação e Desenvolvimento de Projetos de Engenharia, lda
Instalações elétricas, de segurança, de telecomunicações e intrusão: Prodinâmica, lda
Arranjos Exteriores: Carla Silva, Arquitetura paisagista, lda
Empresa Construtora: José Coutinho S.A.
Fotografia: FG+SG Fotografia de arquitetura

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COMPLEXO ESCOLAR DO FURADOURO
Local: Amoreira, Óbidos
Ano do projeto: 2008-2010
Cliente: Câmara Municipal de Óbidos
Arquitetura: Claudio Sat, Unipessoal, lda
Colaboradores: Pedro Cancela, Gisela Ferreira, Ricardo Porfírio
Projeto de Execução: Ana Duarte Pinto – João Manuel Alves, arquitetos lda
Colaboradores: Diana Parracho, Mariana Pimentel, Nuno Amaro, Manuel Vacas
Estabilidade, betão Armado e contenção periférica; rede de distribuição de águas prediais; rede de drenagem de águas residuais domésticas; rede de drenagem de águas pluviais; rede de distribuição de gás: GPessa, Projetos de Engenharia
Comportamento Acústico: Ábaco, projetos
Instalações elétricas, de segurança, de telecomunicações e intrusão: Prodinâmica, lda
AVAC: I2DP, Ideias, Inovação e Desenvolvimento de Projetos de Engenharia, lda
Arranjos Exteriores: Carla Silva, Arquitetura paisagista, lda
Empresa Construtora: José Coutinho S.A.
Fotografia: FG+SG Fotografia de arquitetura

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Colaboração editorial: Luciana Jobim

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