Pensando em escolas

mdc 02

Álvaro Puntoni

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Existe continuidade, porque negar o legado de pessoas inteligentes seria uma estupidez. [2]

Desta forma o arquiteto português Eduardo Souto Moura reagiu ao ser indagado sobre seu percurso na Escola do Porto, seu trabalho e suas relações com Fernando Távora e Alvaro Siza. Continuidade [3] e, outro termo também utilizado por ele, compatibilidade, são palavras interessantes e poderiam auxiliar a moderar esta discussão a ser promovida pelo MDC acerca da persistência da Arquitetura Moderna.

Não abdicar de uma inteligência construída talvez seja o ponto de partida para o estabelecimento de um possível e desejável denominador comum na Arquitetura Contemporânea Brasileira.

Não se trata de simplesmente aceitar passivamente ou renegar as experiências anteriores, como quem escolhe fortuitamente um caminho, mas saber valorizar o que de essencial e significativo elas realizaram e as suas possibilidades de desdobramento e multiplicação no presente momento, como quem procura conhecer todas as veredas de um caminho.

Nesse sentido, seria interessante sublinhar a idéia de Escola para contribuir com a pauta do MDC. Existe uma Escola Brasileira?

Considerando a diversidade da produção da Arquitetura Brasileira Contemporânea, as diferenças regionais, todos os outros “paises dentro do país”, as inúmeras faculdades de arquitetura, talvez seja uma tarefa árdua definir esta Escola. Talvez sejam várias Escolas.

A Arquitetura Moderna Brasileira, fundada na década de quarenta a partir do empenho de uma geração única e notável de arquitetos como Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer, MMM Roberto, Sergio Bernardes, Jorge Moreira, entre outros no Rio de Janeiro, foi fomentada principalmente pela ação governamental. Correspondia esta ação a um anseio do Estado Novo de se mostrar com uma imagem moderna e os arquitetos convocados, juntamente com os artistas de outras áreas, souberam aproveitar este momento histórico.

Quase que simultaneamente, a Arquitetura Moderna se estabelece em São Paulo, sob uma matriz diversa e mais relacionada à iniciativa particular e a fundação das escolas [4] com arquitetos fundamentais como Rino Levi, Abelardo de Sousa, Helio Duarte, Eduardo Corona, Oswaldo Bratke, Vilanova Artigas , entre outros. Trata-se de um momento impressionante e vigoroso da Arquitetura Moderna  em São Paulo. Artigas (Politécnica, 1935) representa uma referência por sua postura ideológica e os desdobramentos de suas ações incisivas no ensino, além obviamente da qualidade de suas obras.

Da primeira, a Escola Carioca, pouco restou, além de um patrimônio de obras representativas e significativas, mas únicas. Apesar da influência que exerceram no país, não encontraram aparentemente ressonância e aprofundamento em um processo de formação e ensino no Rio de Janeiro da mesma forma que ocorreu em São Paulo, a Escola Paulista, duas vezes “escola”, portanto.

O vínculo das faculdades de São Paulo com a Engenharia Civil – ambos os cursos advêm do curso Politécnico – marcam uma das principais características da Arquitetura Paulista que é a valorização e, muitas vezes, a sublimação da razão construtiva. Uma arquitetura que se explica silenciosamente por meio da lógica de seus espaços e soluções estruturais e, mais uma vez, assume o papel de escola.

Em São Paulo segue uma segunda geração tão importante quanto a pioneira: Carlos Milan, Joaquim Guedes, Fábio Penteado, Pedro Paulo Saraiva, Eduardo de Almeida, Abraão Sanovicz, Ícaro de Castro, Marcos Acayaba, entre outros, com destaque para Paulo Mendes da Rocha. Formado no Mackenzie (1954), Mendes da Rocha ganha o concurso para o Ginásio do Paulistano em 1957 e é convidado por Artigas, que havia projetado a Casa Baeta no mesmo período, para ser professor assistente na FAUUSP. Mesmo considerando a disparidade entre o projeto de uma casa e de um clube, havia na estrutura e espaços do Ginásio soluções impressionantes e essencialmente novas. Deste encontro não antagônico, mas complementar entre dois arquitetos de duas gerações distintas, advém uma arquitetura luminosa que orienta como um farol parte da atual geração de arquitetos.

Não se pode deixar de mencionar ainda as contribuições singulares dos arquitetos que escolhem a cidade para se instalarem como Warchavchik, Rino Levi e, principalmente, Lina Bo. Aparentemente contestada pelos arquitetos paulistanos, a “arquiteto italiana” vai contribuir de uma forma indelével com sua visão profundamente humanista e generosa, sem deixar de considerar a força da sua obra, que acena para a possibilidade de caminhos menos rígidos e ortodoxos na Arquitetura Paulista.

Desta profícua convivência pode-se afirmar que se formaram outros arquitetos e outras arquiteturas.

Deve-se ressaltar que apenas 15 anos após a fundação das faculdades de arquitetura em São Paulo, quando discutiam e aplicavam seus novos e promissores programas de ensino, concatenados com as demandas daquele momento histórico, instalou-se no País a Ditadura Militar (1964) e iniciou-se um processo de destruição cultural sem precedentes. Brasília havia sido inaugurada há apenas três anos…Durante vinte anos “os arquitetos velaram”. [5] Cassados, censurados, cindidos politicamente, profundamente enfraquecidos era difícil afirmar as posições. Talvez fosse mais conveniente assimilar os influxos externos.

Foi neste quadro que vicejou o Pós-Moderno em nossa arquitetura. Correspondia a um compreensível anseio de uma necessária renovação de uma experiência que aparentemente havia conduzido o país a um impasse, ao fim do caminho. A Arquitetura Moderna não havia feito a tão desejada mudança social e por isso, estaria condenada a falência. Aparentemente estava claro, apesar de sempre se afirmar o contrário, que arquitetura era uma disciplina fundamental, mas que apenas desenharia a solução social, esta sim política e antecedente. Como dizia Artigas, era possível ser artista e político ao mesmo tempo.

É inegável, da mesma forma que ocorreu com o Estado Novo, a Ditadura e seu projeto desenvolvimentista e modernizador serviu-se da Arquitetura Moderna e pode sugerir um vínculo entre ambos. Exatamente como havia ocorrido com a assimilação e a burocratização dos princípios da Arquitetura Moderna pelas corporações capitalistas após a sua fundação no início do século XX, relacionada aos movimentos sociais e políticos europeus. Era necessário rever esta hegemonia.

O fato é que a experiência do pós-moderno em nossa arquitetura não encontra o mesmo vigor da anterior, não se constituiu em escola.

Em São Paulo, notadamente, as novas gerações de arquitetos formadas em parte pelos professores, seus alunos, os alunos dos alunos, não abdicaram da inteligência construída.

Todas as áreas da cultura ressentem obviamente da ausência de um projeto para o país, e não poderia ser diferente com a arquitetura. Mas hoje se pode acenar novamente no cenário da arquitetura internacional, seja nas publicações ou exposições, com frases mais elaboradas, com construções mais precisas.

Neste momento de reconstrução do país, vinculado ao processo de democratização consolidado nos últimos anos, nota-se o revigoramento da Arquitetura Brasileira como expressão do fortalecimento da cultura brasileira.

A importância de reorganizar o Ensino nesse momento é fundamental. As faculdades aparen­temente não ensinam como fazer, tampouco a pensar, o que nos conduziria a uma pergunta subseqüente: o que fazer.

No entanto existe uma questão anterior: o fato da profissão não estar organizada pressupõe que a escola não necessite estar organizada.

Urge a discussão acerca das formas possíveis de organização e a conseqüente valorização da profissão, seu real aprofundamento com a questão da produção e as reais demandas da sociedade.

As escolas, neste quadro, são necessariamente, novamente ou inauguralmente, os espaços de formulação das questões e da construção do saber, fortemente vinculadas aos seus lugares. As escolas das Escolas.

Considerações aritméticas a parte, um pouco poéticas talvez, o “mínimo” do MDC poderia também ser “máximo”, como fosse possível multiplicar e deixar-se ser dividido, para ampliar o inumerável, em busca de uma razão, uma inteligência única, quando pode e deve ser múltipla e variada.n

notas

1. Este texto foi originalmente elaborado para apresentação da mostra itinerante Panorama da Arqutectura Brasileña organizada pela Escola da Cidade e promovida pela Universidade Los Andes de Bogotá, Colômbia.
2. Trigueiros, Luis. Eduardo Soto de moura. Lisboa, Editora Blau Lda., 1994. p.27
3. Interessante notar que a exposição sobre arquitetura portuguesa em São Paulo em 2005 chamava Descontinuidade.
4. A Faculdade de Arquitetura Mackenzie é fundada em 1947 e a FAUUSP – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1948.
5. “Do sofrimento do nosso povo, posso dizer que participei  profundamente. Alguém terá olhos para, um dia, ler nas formas que projetei, todo este sofrimento. Se verá uma poética traduzida. Enfim, os arquitetos não dormiram, eles velaram” Depoimento de Vilanova Artigas in Vilanova Artigas, Instituto Lina Bo Bardi, 1997.

álvaro puntoni
Formou-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 1987. Mestrado (1999) e doutorado (2005) pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Professor desde 1990. Atualmente leciona na FAUUSP, Escola da Cidade e Universidade Anhembi Morumbi.
Atualmente é membro do Grupo SP, escritório de arquitetura em São Paulo. Participou de quarenta concursos nacionais e internacionais, dentre os quais se destacam: primeiro prêmio Concurso Nacional para o Pavilhão do Brasil na Expo’92 em Sevilha (1991), primeiro prêmio Concurso Nacional de Idéias do Memorial à República em Piracicaba (2002), segundo prêmio Concurso Nacional par a Sede da Petrobras em Vitória (2005).

contato: alvaro@puntoni.arq.br |  www.puntoni.arq.br

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