A nova praça para Brasília
Sobre o projeto da Praça da Soberania.
Oscar Niemeyer
O projeto que elaborei de uma nova praça para Brasília criou tamanha polêmica que resolvi defendê-lo de uma maneira mais detalhada e convincente.
Não vou aos jornais em que alguns, alheios aos assuntos da arquitetura e do urbanismo, vêm a público e, sem dizer nada de novo, participam do debate em curso. Se eles fossem mais informados das modificações que ocorrem em todas as grandes cidades, não se envolveriam certamente na discussão que surge sobre a praça por mim proposta para Brasília. Deveriam saber que todas as metrópoles mundiais vêm sofrendo mudanças que se justificam, impossíveis de conter. Estariam cientes das grandes avenidas que Haussmann criou em Paris como coisa inevitável, e, mais ainda, compreenderiam que, se o seu plano urbanístico original fosse mantido, não existiriam nem os Champs Elysées nem o Arco do Triunfo. Saberiam que foi necessário, nessa capital, demolir algumas construções para se erguer o Jardim das Tulherias. E, na Espanha, valeria considerar o caso de Barcelona, a cidade a se modificar, procurando a aproximação do mar por todos desejada.
Até Nova York poderia servir de exemplo, com seus arranha-céus a dominarem a cidade “horizontal” que antes existia. E, no Rio de Janeiro, deveria ser lembrada uma solução que uma cidade tombada não permitiria: derrubando morros e prédios, com o objetivo de abrir uma grande avenida, o prefeito Pereira Passos propôs uma reforma que até Le Corbusier elogiou, entusiasmado, em sua passagem por esta capital.
Ah, como são irrecusáveis e necessárias essas modificações que se impõem nas grandes cidades! Ainda se poderia recordar a influência que o urbanista Agache teve no Rio, propondo que os prédios construídos em pilotis no centro da cidade criassem um passeio coberto sobre as calçadas.
Diante de tudo isso, me espanta a discussão levantada ao apresentar uma nova praça a ser construída em Brasília. Em minha última visita pude sentir, com clareza, a necessidade de se criar uma praça com escala compatível com a capital de um país que se faz tão admirado como o nosso. E é meu direito e obrigação concebê-la e propô-la.
Vêm-me à memória as grandes praças que encontrei por toda a parte — tão importantes e bonitas que, como acontece com todo o mundo, nunca as esqueci. E isso, apenas isso, constitui a minha preocupação de arquiteto.
Recordo-me como refleti antes de projetar a nova praça: desde o início de Brasília a minha participação na aprovação do Plano Piloto foi tal que me senti mais à vontade para agir. E lembro o dia em que o colega presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil me procurou: disse-me que a ideia do instituto era interromper o concurso para o Plano Piloto, em andamento, que esse órgão é que deveria se incumbir do assunto. Ele havia estado com Israel Pinheiro, que, surpreso com essa proposta, lhe pediu que me procurasse. E a nossa conversa foi curta e definitiva, eu a lhe afirmar claramente que encontrariam todos os obstáculos da minha parte. E, recordando tudo isso, fico tranquilo e feliz: minha resistência contribuiu para que o concurso chegasse a termo e para que Lucio Costa tivesse recebido a missão de conceber o urbanismo da cidade.
E para justificar a minha intervenção, fico a lembrar minha atuação durante esses anos em Brasília, inclusive o dia em que deixei o conforto de meu escritório do Rio, atendendo JK e indo passar meses seguidos naquele então fim de mundo. Por seu lado, tranquiliza-me sentir a maneira pouco comum com que eu hoje projeto os prédios de Brasília. Das importâncias recebidas fico apenas com a parte referente à concepção da arquitetura; o resto destina-se aos meus colegas escolhidos para o desenvolvimento dos projetos.
E, pouco a pouco, fui constatando que eu, mais do que qualquer um, estava em condições de propor essa praça a meu ver importante para a capital do país.
Lembro que, quando a discussão sobre esse projeto teve início, Maria Elisa Costa, filha de Lucio, veio ao meu escritório, espontaneamente, para me dizer que estava de acordo com a praça projetada, que em nada prejudicava o Plano Piloto, e dela não se ouviria nenhuma crítica sobre o meu trabalho. Agradava-me a maneira gentil como me procurara. Dois dias depois, ela me escreveu uma carta, comunicando, para surpresa minha, que mudara de idéia: em sua opinião, o prédio destinado ao Memorial dos Presidentes prejudicava visualmente a Rodoviária. É claro que a atitude correta que teve me procurando ainda me sensibiliza, mas o argumento apresentado não me parece razoável nem forte o bastante para justificar uma revisão no projeto: o Memorial dos Presidentes, que não é ideia minha, mas uma sugestão do próprio governo, está afastado da Rodoviária 400 metros, previsto em pilotis, permitindo a ligação direta que, como um passeio, se poderá fazer entre os dois edifícios; em nada prejudica a visibilidade do conjunto e, pelo contrário, só valoriza a Rodoviária, integrando-a como acesso mais importante à grande praça.
A campanha contra o meu projeto parece continuar. Pessoas até então desconhecidas se permitem ainda falar sobre o assunto. A construção da praça, daqui para a frente, não é problema meu; ao governador do Distrito Federal, lúcido e competente como é, caberá resolvê-la.
O que me importa como arquiteto é, desinteressado nas opiniões que surgem, defender de uma vez por todas um trabalho que, com tanto entusiasmo, realizei.
Os que contestam qualquer modificação em Brasília, se fossem mais curiosos e interessados no que ocorre neste velho planeta, saberiam que um dia — como os cientistas preveem — as calotas polares poderão derreter mais rapidamente, elevando o nível dos oceanos a mais de dois metros. E aí, meus amigos, o que mais importa não é uma imposição como a que eu vinha comentando, mas a própria natureza a intervir em todas as áreas litorâneas, exigindo da arquitetura e do urbanismo as soluções indispensáveis.
E vou mais longe. A degradação ambiental começa a se agravar, determinando um dia, quem sabe, que as grandes áreas abertas venham a ser arborizadas, e que as coberturas de concreto, previstas na maioria dos edifícios, sejam também transformadas em terraços-jardim cobertos de grama.
E fico a refletir sobre o texto que acabo de escrever, certo de que a vida, o progresso humano e a própria ciência justificam as grandes modificações que a arquitetura e o urbanismo vêm propondo em toda a parte.
Oscar Niemeyer
Arquiteto
Texto e imagens publicados com autorização do escritório de Oscar Niemeyer em Brasília.
Texto conforme publicado em 22/01/2009 no Correio Braziliense.




É a ciência e o conhecimento da cultura arquitetônica, sua história e seu desenvolvimento que levou à indignação e aos protestos aqui manifestados. Surgem também, nesse rendez-vous, algumas opiniões pouco balizadas, inflamadas, e mesmo despropositadas, mas isso é só parte dos liberalismos da internet e do alcance e interesse público no debate.
Não é por puro fetiche que tenho um quadro assinado por você pendurado em minha parede, é muito mais por admiração e respeito. Entretanto, como colega nascido em Brasília, apaixonado pela cidade, e que faz um esforço tremendo para entendê-la em sua materialidade dialética, acho as justificativas apresentadas por você um tanto quanto maniqueístas, inverídicas e parciais.
Compreender a história das cidades, do urbanismo e da arquitetura nos leva a um reconhecimento de que as ações perpetradas por arquitetos, poder público ou pela própria população espontaneamente, nem sempre levam a uma evolução, a um aumento da compreensão e qualidades do espaço. Assim, poderíamos gastar desmedido espaço neste fórum, enumerando intervenções desastrosas nas cidades mundo afora: elevados para circulação de automóveis trazem “mudanças impossíveis de conter”, adros de igrejas históricas são desconfigurados pelos densenvolvimentos “impossíveis de conter”, na maior parte das vezes levando os anéis e os dedos.
Assim, o que me preocupa e me concerne é que a perspectiva livre do Congresso não necessita ajustes, modificações, nada. É por demais, e suficientemente bela, para ser “completada”.
Oscar, permita-me a intimidade, aceitaríamos de bom grado uma praça útil, mesmo que com função de abrigar um raríssimo “panteão” presidencial, naquele mesmo sítio escolhido. Ali as pessoas fariam hora para pegar seus ônibus, estacionariam seus carros para as atividades culturais, tomariam um chá como imaginou Lucio Costa para o edifício do Touring Club.
Portanto, não é a ideia de uma praça que poderia corrigir e trazer o cosmopolitismo que Lucio imaginou para o cruzamento fundador da cidade que nos desagrada, mas sim a idéia de um obelisco daquele tamanho, já tão distinto dos tamanhos e gabaritos proposto por você ao redor, nas atividades culturais.
Encanta-me pensar que dessa cabeça saiu a praça dos três poderes, impecáveis com seus objetos soltos, sua relação tão bela e pacífica com o congresso e os demais edifícios, em suma, um conjunto de fato! É dessa mesma cabeça que imagino poder sair coisa muito mais siginificativa.
Fraternalmente,
Thiago de Andrade
Thiago de Andrade
22/01/2009 em 14:05
Prometi que não falaria nada mais sobre estes projetos que saem do nada e por razão nenhuma, mas…
A campanha contra o meu projeto parece continuar. Pessoas até então desconhecidas se permitem ainda falar sobre o assunto. A construção da praça, daqui para a frente, não é problema meu; ao governador do Distrito Federal, lúcido e competente como é, caberá resolvê-la.
Preocupa isto pois sabemos bem como escolhem projetos nossos governadores. Ver Rio e BH por exemplo. Afinal, dizem, foram eleitos pelo povo e por eles devem governar: então não é ele e apenas ele, mas todos os representantes ditos legítimos e em voto aberto para que fique confirmada esta representatividade.daqui para frente é problema nosso não é?.
O que me importa como arquiteto é, desinteressado nas opiniões que surgem, defender de uma vez por todas um trabalho que, com tanto entusiasmo, realizei.
Como arquiteto podemos não nos interessar pelas opiniões que surgem, mas como arquiteto de coisas públicas deve ficar claro que a opinião individual não consagra nem justifica indeferidamente os nosso entusiasmos particulares, reais ou absurdos.
É um saco ser democrata, mas…
Sylvio de Podestá
22/01/2009 em 15:12
[...] WordPress.com Niemeyer defende a Praça da Soberania Quinta-feira, Janeiro 22, 2009, Arquivado em: notícias | Tags: brasília, niemeyer, oscar niemeyer, praça da soberania Diante da polêmica gerada pela sua proposta para a Praça da Soberania, a ser implantada na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o arquiteto Oscar Niemeyer, que completou 101 anos em dezembro passado, resolveu se manifestar em defesa do projeto. Veja abaixo trechos das declarações do arquiteto, publicadas em 22 de dezembro no Correio Braziliense e transcritas na mdc.revista de arquitetura e urbanismo: [...]
Niemeyer defende a Praça da Soberania «
23/01/2009 em 01:15
“Pessoas até então desconhecidas se permitem ainda falar sobre o assunto”.
Antes de entrar no mérito do projeto;
e concessa maxima venia ao grande arquiteto;
uma indagação, digamos, procedimental:
há algum problema em os desconhecidos da república se permitirem falar sobre o assunto? Algo de errado com o espírito público que anima o debate?
Luiz Feldman
24/01/2009 em 19:06
A arquitetura não deve ser justificada somente pelos arquitetos. Sou admirador de soluções arquitetônicas aos problemas das cidades. Este projeto não traz solução e ainda deixa mais feia (e cheia de concreto, um insulto ao verde) a cidade de Brasília. Já não chega os edifícios KIT vendidos como locais de moradia em área comerciais? É o que parece esta obra: só não vê quem não quer.
Arthur Lima
25/01/2009 em 11:10
Caros,
Ainda que com muitas ressalvas, eu gostei do projeto, do desenho, da proposta e acho que deveriam sim erguer o monumento e a praça.
Poder-se-ia discutir mais, certamente, mas não é a participação democrática (ainda que sempre desejável) que torna uma construção melhor ou pior necessariamente: antes, é a compreensão que as pessoas que viverão o espaço tem do mesmo que definirá seu valor e seu uso.
Votarmos, portanto, ao que se desejava quando da construção da rodoviária para criticar a perda representada pela nova proposta é esquecer os 50 anos de acúmulos, sejam teóricos, sejam visuais na região, ou ainda, de desgaste nos dois campos, isso sem falar dos descaminhos do conjunto em si.
Talvez o Niemeyer tenha chegado de carro como nós fazemos sempre, visto a porcaria que está o CONIC, o abandono da própria rodoviária, o transito sinistro, e pensado pragmaticamente: vai-se melhorar a rodoviária? vai-se revitalizar o Conic? O arquiteto duvidou, como eu também duvido.
Por esse motivo, acho melhor fazer do que não fazer. Continuo achando que espaço público ainda estar por ser criado no Brasil. Deste modo, apenas dizer que pode-se usar um determinado local (o gramado), não basta.
O monumento ocupa outros vazios também.
Não vejo problema em se trazer para mais próximo das pessoas que vivem o espaço da Grande Brasilia um grande marco, ainda que sob pena de diminuir a própria rodoviária e o congresso. Imagino se tratar de uma decepção de Niemeyer com o cuidado que se teve com o conjunto da rodoviária e uma fé de que são as pessoas que circulam pela Rodoviária que precisam de um novo monumento.
Aldo Zaiden Benvindo
25/01/2009 em 19:53
“Surgem também, nesse rendez-vous, algumas opiniões pouco balizadas, inflamadas, e mesmo despropositadas, mas isso é só parte dos liberalismos da internet e do alcance e interesse público no debate.”
Não pensei que encontraria aqui algo tão reacionário quanto esse comentário.
Os brasileiros devem ter suas opinões consideradas, quer sejam arquitetos quer não… As arquiteturas não são feitas para arquitetos e, neste caso, nem com o seu finaciamento.
Sou estudante de arquitetura, mas posto este comentário como brasileiro.
Andrié Silva
08/02/2009 em 00:06
[...] [veja os desenhos do projeto de Niemeyer aqui] [...]
A Praça da Soberania: assertivas « mdc . revista de arquitetura e urbanismo
17/02/2009 em 15:07
Se Niemeyer e sua trupe fazem tanta questão de uma obelisco no Distrito Federal, informo que há um na cidade de Planaltina. Quanto a projetos simbólicos e paisagísticos na cidade de Brasília, ou qualquer outra cidade do país, muito bem: concurso público. Chega de gênios!
Luiz
11/04/2009 em 01:53
Eu acredito que vindo do gênio, Oscar Niermayer, opnar sobre esse tema, é necessario muita cautela. Mas a minha preocupação ~mesmo é com a questão de porque de não continuar com a avenida depois da praça dos três poderes… Eu fico entristecido ao ver a vila planalto bem alí pertinho do palacio do presidente, daqui mas uns anos vai está grudada com a praça dos três poderes e ninguem acorda pra continuar aquela avenida, com o objetivo de dar uma nova fisionomia a aquela região. A continuação da avenida com prédios suntuosos, continuando aquela arquitetura jovial, triunfante e única no mundo, com a construção de prédios de instituições da República, monumento em homenagens aos imigrantes de todas as Nações do mundo que fizeram do Brasil seu lar, enfim tenho certeza que séria bem melhor….
Valdir Gomes
18/06/2009 em 17:18
Aos que se interessarem, a arquiteta franco-brasileira Maira Caldoncelli Vidal realizou um estudo na Rodoviária de Brasilia, que vale conferir para se ter um contraponto do Monumento/Praça de Niemeyer versus uma praça com uma escala mais coerente e humana.
>> http://www.mu-a.fr
Marcos Franchini
04/08/2009 em 15:56
[...] na quinta-feira, dia 22 de janeiro, no Correio Braziliense. No texto, intitulado simplesmente A nova praça para Brasília,[22] Oscar Niemeyer justificava sua proposta com base nas grandes reformas urbanas de Paris e [...]
Praça da Soberania: crônica de uma polêmica « mdc . revista de arquitetura e urbanismo
24/10/2009 em 01:44